Literatura

Marte, o planeta da melancolia

00:00 · 20.01.2014
Clássico da ficção científica, “As crônicas marcianas”, de Ray Bradbury, ganha nova edição

O desejo de saber sobre o futuro tem acompanhado os homens onde quer que ponham seus pés. No século XX, essa preocupação ficou associada, por um lado, ao terreno místico; por outro, à ficção científica. Projetar ações no futuro – em geral, terríveis – tornou-se comum entre autores do gênero, estivessem eles produzindo contos para revistas especializadas, romances, HQs, filmes ou séries de TV.

Marte, como imaginado pelo escritor Ray Bradbury: um encontro com a solidão


Apostar no futuro era uma forma fácil de despertar o interesse do público, que tinha predisposição arcaica ao tipo de relato. A conta era paga mais tarde, se as apostas ficassem defasadas e ganhassem uma comicidade involuntária. Alguns escritores até procuraram desvencilhar o gênero desse afã futurologista de muitos adeptos. Ursula Le Guin, autora de “A mão esquerda da escuridão” (1969), foi quem melhor resumiu este posicionamento: “a ficção científica não prescreve, descreve”.

Ray Bradbury (1920 – 2012) nunca esteve confortável em nenhuma dessas posições. Ainda que não tenha se dedicado exclusivamente ao gênero, foi um autor assíduo do mesmo, e há seis décadas segue como referências para quem se aventura pela ficção científica. “As crônicas marcianas”, uma de suas obras-primas, publicada em 1950, era toda construída a partir de histórias transcorridas no futuro (algumas delas ainda se posicionam no futuro em relação ao tempo presente). Mas o ponto da história não era projetar onde chegaríamos, tampouco fazer uma alegoria do pós-guerra.

A viagem à Marte de Bradbury pouco tem a ver com o futuro, com a ciência ou com a história. Ao lançar seus personagens ao espaço, o escritor dá a largada para uma jornada exploratória da alma humana. Não à toa o argentino Jorge Luis Borges (1899 – 1986) – que assina o prefácio da edição recém lançada pela Globo Livros – usa o adjetivo “metafísico” para classificar o tipo de horror presente na história “A terceira expedição”.

Quando falava de sua escrita, Ray Bradbury não gostava de fazer o tipo do intelectual hermético. Preferia traduzir suas ideias de maneira clara, dando dicas diretas, fazendo o seu ofício parecer trabalhoso, mas não necessariamente difícil. Com seu temperamento, certamente não gostaria de ver sua obra classificada como existencialista. Mas tramas como a de suas expedições marcianas não estavam tão distantes do mal estar civilizatório que assolava alguns de seus pares ligados à cena litero-filosófica francesa.

Desolação

“As crônicas marcianas” é uma coleção de contos que pode ser lida como uma saga. Parte das histórias havia sido publicada em revistas de ficção científica. Ao reuni-las, o autor as dispôs cronologicamente (de acordo com os acontecimentos narrados, não do tempo de escrita ou publicação). Outras histórias foram adicionadas no processo de produção do livro.

A aventura narrada por Bradbury não é protagonizada por uma única figura ou um pequeno grupo delas. É uma história da conquista do planeta Marte – ou Tyrr, para os marcianos (não por acaso, o nome da divindade nórdica que corresponde ao deus Marte), entre janeiro de 1999 e outubro de 2026.

Os grandes feitos, no entanto, são narrados ao nível do homem comum. Mesmo quando quem protagoniza a história é um dos astronautas pioneiros na viagem entre mundos, não lemos as aventuras de um herói do espaço, mas o infortúnio de um homem com expectativas não muito distantes daquelas que qualquer um teria se estivesse em seu lugar.

Publicado 19 anos antes da chegada do homem a Lua, o livro não tem aquele otimismo que caracterizou a corrida espacial. A chegada do homem à Marte, na ficção de Bradbury, coincide com o declínio das civilizações que lá existiam. O tom das histórias é, quase sempre, esmagadoramente melancólico. Marte – e a aventura para conquistá-lo – é um deserto que ameaça matar cada um que o desafiou, não de sede ou por suas condições climáticas adversas, mas pela solidão, que persiste mesmo quando não se está só.

Aos invés de adivinhar o que as viagens espaciais nos trariam (de bugigangas às formas de organização política) ou de fazer desses elementos metáforas para a incerteza que o mundo então vivia quanto ao próprio destino, Bradbury foi atrás dos dramas que nos perseguem desde quando saímos das cavernas. A escolha do autor faz com que seus contos, seis décadas depois de lançados, resistam, apesar da inconsistência científica e falta de colaboração da história.

Novas edições

Além de “As crônicas marcianas”, a editora Globo Livros colocou no mercado novas edições de “Fahrenheit 451” (1953), o romance que se seguiu ao sucesso de seu livro sobre as expedições à Marte, com tradução de Cid Knipel; e “A cidade inteira dorme e outros contos” (Deisa Chamahum Chaves), uma coleção de histórias curtas, que traz algumas das narrativas mais conhecidas do autor, como “O homem ilustrado” e aquele que nomeia a coletânea.

Dellano Rios
Editor

LIVRO

As crônicas marcianas
Ray Bradbury
Tradução: Ana Ban
Globo
2013, 296 páginas
R$ 39,90

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