Documentário

Marcas dispersas pelo mundo

00:00 · 07.10.2017
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Filme de Hank Levine dá voz aos refugiados ao abrir a rotina de fuga de seus entrevistados em diversas partes do mundo

Existem vários andamentos que um diretor experiente pode escolher para um documentário. Produtor do ótimo "Lixo Extraordinário" (2010), Hank Levine faz de "Êxodus - De Onde Eu Vim Não Existe Mais" uma experiência extremamente humana ao acompanhar diversos refugiados ao redor do mundo que ainda sentem as dores de não pertencerem mais ao lugar onde nasceram.

Ainda que inclua informações essenciais sobre a situação política entre as nações que o filme explora, Levine não demonstra muito interesse em aprofundar contextos históricos e, principalmente, rebatê-los com outros pontos de vista. Tais informações aparecem resumidíssimas em letreiros didáticos que servem de ambientação superficial de tais cenários.

A ele parece interessar apenas o estudo dos personagens, todos mais ou menos abalados pelas guerras que enfrentaram, parados em um tempo que nunca passa. Com isso, o filme evita imagens de arquivos e especialistas discutindo a temática, deixando apenas na boca dos personagens a experiência vivida por eles, transformadas pelos isolamentos geográficos e psicológicos. Em alguns momentos, ouvimos um poema lido pelo ator Wagner Moura, que quebra a imersão do diálogo e reitera os sentimentos ali expostos.

Escolhendo essa linha narrativa, onde a voz dos refugiados é mais importante, Levine se entrega à paixão por aquelas pessoas, muitas vezes as retratando-as com certa ficcionalização do discurso. Essa construção da imagem com romantismo prejudica alguns discursos, cuja naturalidade termina perdida em meio aos procedimentos narrativos da obra.

Mas isso não acontece no documentário inteiro, já que nem todo entrevistado cai na armadilha - como quando conhecemos uma senhora do Saara que fugiu a pé dos territórios ocupados pelos marroquinos, deixando sua família para trás e eternamente à espera de uma determinação de que ela possa voltar à sua terra.

Vivendo em um campo de refugiados literalmente no meio do nada, ela abre suas dores para a câmera e não teme, em certo momento, andar meio a bombas escondidas na areia.

Ao contrário dos personagens mais jovens, que buscam asilo no Brasil e em Cuba, por exemplo, essa senhora vive em uma prisão a céu aberto e ainda busca forças para lutar pelo que é seu de direito.

Levine também elabora planos esteticamente arrojados, com direção de fotografia caprichada que explora as dimensões das prisões onde os personagens vivem - ainda que o faça de maneira muito grandiosa, na contramão da simplicidade que caracteriza o registro documental mais convencional.

Mesmo sem aprofundar as relações políticas entre as nações, "Êxodus - De Onde Eu Vim Não Existe Mais" acerta principalmente ao aproximar o público da realidade dos refugiados. É um filme contemplativo sobre essas histórias que se espalham por um mundo ideologicamente apartado, onde a busca pelo acolhimento e pela segurança ainda é arriscada e não há previsão de acertos. 

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