Debate

Maracatu, negrume e identidade

Associada ao "blackface" por militantes negros da Bahia, a tinta preta da manifestação cearense reacendeu a discussão sobre identidade

Brincantes de diferentes maracatus cearenses participaram do Maracatuato no dia 31 ( Fotos: Helene Santos )
00:00 · 02.02.2017 / atualizado às 08:02 por Roberta Souza - Repórter
Maracatu Rei Zumbi, na Avenida Domingos Olímpio, no Carnaval de 2014 ( Foto: Natinho Rodrigues )

Com a face coberta pela tinta feita de óleo mineral, vaselina, talco sem cheiro e pigmento preto, os brincantes de maracatu cearense faziam do dia 31 de janeiro de 2017 um marco na defesa dessa manifestação cultural. "Quando vamos fazer isso de novo? Onde será o próximo ato?", questionava o presidente do maracatu Nação Fortaleza, Calé Alencar, na Praça Verde do Dragão do Mar, lembrando a importância da união dos grupos locais para garantir a difusão daquilo que acreditam.

O cortejo do "Maracatuato" soou, antes de tudo, como uma afirmação. "Um povo sem cultura é eternamente um povo colonizado", assinalava o texto lido pelos brincantes em dois momentos do cortejo, em resposta às acusações de racismo sofridas pelo Maracatu Rei Zumbi, em apresentação realizada no último domingo (29), durante a 10ª Bienal da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Teonildo Lima, vice-presidente do Rei Zumbi, emocionava-se com a adesão dos brincantes e transeuntes que acompanhavam a manifestação. Diferente do domingo quando a apresentação chegou a ser interrompida por militantes estudantis negros da Bahia que compararam o negrume do maracatu cearense ao "blackface" norte-americano, o novo encontro marcava uma celebração.

Distintos na origem e na intenção, o negrume e o blackface reascenderam um debate sobre identidade, tensionando a relação entre a cultura popular tradicional cearense e a militância estudantil negra da Bahia. "Eles não entenderam nosso negrume e fizeram uma aberração comparando o uso dele com a blackface. Acharam que estávamos ironizando a imagem do negro como o teatro norte-americano fazia no começo do século XIX, quando atores brancos se pintavam de preto e estereotipavam o negro como vagabundo, ladrão, bêbado", explica Teonildo. "Na apresentação cearense, a gente exalta o negro lembrando até mesmo o reinado no Congo", defende-se.

Calé Alencar, que vive no contexto do maracatu há 22 anos, como brincante, compositor, pesquisador e presidente de um grupo, enfatiza que não há consenso sobre a origem do negrume na manifestação. No entanto, lembra que crônicas de Gustavo Barroso nas últimas décadas do século XIX, quando o maracatu começava a se vincular ao Carnaval da cidade já davam conta dos figurantes "que se vestem de negra" (lembrando que a origem da manifestação aqui tem relação religiosa, com os festejos das irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos).

A professora Pedrina de Deus mergulha ainda mais na história. "Rosto tisnado que se usa no tradicional Maracatu do Ceará é o símbolo da astúcia e resistência dos negros daqui desde 11 de novembro de 1879, quando o Código de Postura do Município de Fortaleza se transformou na Lei número 1278, que proibia os negros forros ou não de fazerem batuques e sambas nas ruas sob pena de cadeia, bordoadas e multa de 2 mil reis (Artigo 17). Para escapar da Lei, eles saíam no Cortejo do Rei do Congo e batucavam nas calçadas com o rosto tisnado para dificultar/confundir a identificação e não como diz uma elite cearense 'porque aqui não tinha negros'", ressaltou em sua página no Facebook.

"Eu encaro isso como uma missão em relação à minha ancestralidade, que tem a veia negra do meu pai, e portuguesa e indígena da minha mãe. Faço com um prazer imenso, jogando para frente uma coisa que herdei, um legado maravilhoso, belo, espetacular, fantástico. Jamais aceito que chegue alguém na minha casa e venha me dizer, equivocadamente, que estou contribuindo com o racismo, se nossa luta é exatamente o contrário. A agressão vem a partir do desconhecimento, da ignorância total", argumenta Calé Alencar.

O pensamento é compartilhado por Gilmar de Carvalho, escritor e pesquisador das tradições populares. "Não vejo racismo no negror do maracatu. Esta fuligem misturada com vaselina pode ser vista como algo ritual. O maracatu tem um lado de culto e um lado de espetáculo, de performance. O negror dá uma sensação de pertencimento aos que são negros como eu sou", enfatiza.

Gilmar acredita que, no maracatu, todos queremos ser mais africanos e mais negros ainda. "Vejo o negrume como uma variação da pintura do rosto de branco, feito pelos integrantes do teatro nô, no Japão", exemplifica. "Certo que estamos todos de mau humor. Temos razões de sobra: um golpe de Estado, uma crise econômica, um retrocesso, a ameaça da perda de direitos. Mas daí a querer descarregar este ódio em cima dos maracatus, há uma distância muito grande", aponta.

Tensões

No âmbito da discussão, vale ressaltar que o uso do negrume não é um prática adotada por todos os grupos do maracatu cearense. O maracatu Solar, por exemplo, presidido por Pingo de Fortaleza, não obriga seus brincantes a tingirem o rosto e se opõe a exigência disto pelos editais municipais e estaduais. Para o grupo, o negrume é mais uma opção estética do que propriamente o reforço da identidade.

"Não cabe ao Estado definir o que é cultura. Quem define é quem faz. O Estado absorve democraticamente as práticas. Se eu tenho esse grupo há dez anos e digo que é maracatu, ainda que não adote a obrigatoriedade do negrume, eu sou maracatu", afirmou em outro momento, em entrevista sobre a estética na manifestação, que é, inclusive, reconhecida como patrimônio imaterial pela Secretaria de Cultura de Fortaleza, desde 2015.

Gilmar de Carvalho complementa: "Se alguns brincantes ou alguns maracatus querem abrir mão desta pintura, têm todo o direito. Esta exigência de uma padronização é tão autoritária quanto a manifestação deste grupo que é contra, e interrompe um desfile ritual para fazer política com 'p' minúsculo".

Ainda sobre a nota lida pelos brincantes de maracatu durante o "Maracatuato", ficou evidente a importância do debate. "(...) os questionamentos são saudáveis em qualquer processo cultural, mas igualar o negrume ao blackface é uma atitude colonizadora e fascista. Primeiro por igualar coisas tão distintas sem conhecer suas peculiaridades tomando uma prática desenvolvida nos EUA como baliza para todas as outras. Segundo, pela sensação de pintar o rosto de negro tenha que ter necessariamente uma conotação ruim, pois por estar associada ao negro a única carga que pode ter é negativa", assinalava.

Procedimentos

Procurados pela reportagem na terça pela manhã (31), os militantes do movimento estudantil negro da Bahia inicialmente afirmaram que não podiam dar uma resposta imediata, já que ela não contemplaria a complexidade do debate. "Estamos dialogando para produzir uma opinião mais contundente. Até o momento o que existe são opiniões soltas, sem reflexão aprofundada sobre o conflito, a tensão cultural entre grupos diferentes", falou Bruna Rocha, diretora da UNE e vinculada à organização política Kizomba na Bahia, da qual teriam se manifestado os críticos do negrume do maracatu.

Na ocasião, Bruna argumentou ainda que "essa divergência entre concepções e manifestações em relação ao combate ao racismo é legítima, saudável para a amplitude do debate racial num país como Brasil". Durante o "Maracatuato", no entanto, não houve participação efetiva dessa militância, que apenas assistiu a celebração. A única declaração feita na ocasião foi a de que as críticas não deviam vir personalizadas somente no movimento Kizomba Bahia e sim vinculadas à militância estudantil negra que se encontrava no local.

Ontem (1), até o fechamento desta edição, a página Kizomba Bahia compartilhou apenas a nota divulgada na página do Kizomba Ceará no dia (30), que reconhecia a gravidade da comparação do negrume ao "blackface", em um sinal de pedido de desculpas pela reação inicial. "Reafirmamos aqui o nosso respeito e compromisso aos Maracatus, à cultura popular cearense, com os saberes ancestrais da população negra e a histórica luta da cultura negra no Ceará", especificava.

A UNE, por sua vez, já havia se posicionado por meio de nota, ainda no dia 30, na página do Circuito Universitário de Cultura e Arte (Cuca). A organização, em referências às acusações de racismo, afirmou que "esse posicionamento não representa a opinião do conjunto do movimento estudantil organizado na UNE. Nós, enquanto rede cultural, entendemos a importância e legitimidade do saber popular no processo de formação do indivíduo e da coletividade".

E continuaram: "A Feira da reinvenção foi pensada para que seja um espaço livre de troca, reflexões e exercício da tolerância e das afetividades. Entendemos a importância do respeito à diversidade de opiniões e visões de mundo. No entanto, o maracatu tradicional do Ceará não tem nada com o racismo institucionalizado e a apropriação cultural racista reproduzida pelas campanhas publicitárias do grande mercado, pelo contrário". Assim finalizada, se tem uma mensagem que a Bienal da UNE deixou foi a de que é preciso ouvir antes de gritar, especialmente quando se tratam de movimentos que lutam pela mesma causa.

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