teatro

Máquina cruel e assassina

00:00 · 04.09.2018
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O espetáculo completou dois anos de circulação em junho de 2018 e dialoga com questões pertinentes ao contexto social contemporâneo ( Foto: Márcio Tibúrcio )

Quando uma nação observa passivamente um crime contra a humanidade nas proporções do incêndio que exterminou o Museu Nacional no último domingo (2), pouca ou quase nenhuma esperança sobre o futuro consegue resistir diante deste episódio. Pautas periféricas dentro do jogo político, cultura e ciência sentem cotidianamente o baque das exíguas políticas públicas voltadas para estas áreas. Dentro desse cenário, as premissas de justiça social acabam sendo sufocadas nas engrenagens de uma máquina administrativa cada vez mais descolada da realidade.

A resistência ou foco de reflexão sobre o atual momento brasileiro ainda está na atuação da arte. O Cangaias Coletivo Teatral compreende tal missão e busca provocações sobre o contemporâneo na montagem "Na Colônia Penal", em cartaz a partir de hoje (4), no Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC).

Baseada na obra homônima de Franz Kafka (1883-1924), o espetáculo ocupa todas as terças de setembro, sempre às 20h, do palco localizado no equipamento cultural. Na visão dos componentes do grupo, quase cem anos depois de ser publicada, a novela segue assustadoramente atual. Instigados a provocar o debate sobre ideais de justiça e relações de poder, o Coletivo se debruçou, em 2015, sobre o texto do autor tcheco e, posteriormente, convidou o dramaturgo Rafael Barbosa para o processo, no qual a construção da dramaturgia e encenação caminharam juntas.

A trama repercute a existência de uma colônia que pune arbitrariamente indivíduos que descumprem as leis impostas por seus superiores e que, antes de receberem a sentença final, são brutalmente torturados. "A partir disso, é possível fazer uma analogia com os nossos sistemas penais atuais, que acabam ferindo os direitos humanos e se dedicando mais à punição do indivíduo que a pensar melhores estratégias de ressocialização e prevenção", argumentam os integrantes.

Esmagador

Um Oficial de Justiça residente da Colônia apresenta a um explorador estrangeiro a utilização de uma máquina de punição e tortura. São levados à máquina todos aqueles que desobedecem às leis. Na compreensão do Oficial, o aparelho punitivo é apenas um ideal de justiça necessário para mantimento da ordem. O ponto de vista do homem estrangeiro pode ser essencial dentro da manutenção desse sistema.

Originalmente publicada em 1919, "Na Colônia Penal" descreve as impressões do Oficial de Justiça aficionado por um sistema punitivo que tortura e mata os indivíduos a ele submetidos. Assim, a dramaturgia desenvolvida pelo Cangaias inflama críticas severas de temas como o autoritarismo, opressão, conservadorismo, leis e aspectos retrógrados da justiça.

Toda essa denúncia é atrelada e se manifesta na encenação proposta pelo grupo. Inseridos em um ambiente intimista, os personagens circulam por um espaço alusivo a uma antessala de execução. Ali, apenas duas cômodas, uma escada e duas luminárias suspensas se unem a desenvoltura dos dois atores em cena. O público é colocado na posição de frente como cúmplice e voyer da representação, participando na produção de sentidos e fazendo suas próprias analogias e questionamentos na tomada de decisão sobre os posicionamentos extremistas e radicais do Oficial.

Mais informações:

 

Espetáculo "Na Colônia Penal", em cartaz hoje e nos dias 11, 18 e 25 de setembro, às 20h, no Teatro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema) Ingressos: R$ 10 (inteira) Contato: (85) 3488-8600

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