Ensaio

Manuel Bandeira: a poética das duas margens da vida

00:00 · 14.12.2013

Manuel Bandeira soube, como poucos, poetizar o cotidiano, revitalizando a infância e jogando com a morte

Os três primeiros livros do poeta pernambucano (As Cinzas das Horas, Carnaval e Ritmo Dissoluto), embora já tragam, de forma tímida, indícios da modernidade iminente e, para muitos, como Sérgio Buarque de Holanda (1980:42), inaugural, na Literatura Brasileira, ainda são fruto das influências parnasiano-simbolistas, do início do século XX. A plenitude de seu modernismo será exercida, a despeito da Semana de Arte Moderna (1922), a partir da publicação de Libertinagem (1930): versos livres, preferência por cenas do cotidiano, linguagem próxima ao coloquial, lirismo antirretórico, etc. Várias serão as temáticas bandeirianas, entre elas a recorrência à infância, como se observa em "Porquinho-da-índia" (Texto I):

Leitura do poema

Como muitos de Bandeira, este poema é a singularização de um instante. Ou ainda: a transposição de um instante cotidiano da infância. Não se trata, entretanto, da simples transposição do real para o poemático; trata-se, isto sim, de uma reelaboração artística que transcende a singeleza do real e do memorialístico e atinge um raro caso de beleza modernista. Os dois primeiros versos situam o resgate feito pelo Eu: o apelo à memória, já na marca temporal da conjunção "Quando" e nos verbos empregados no pretérito. A infância ("seis anos") é o eco da distância reverberada no vazio interior do presente. Ao rememorar aquele instante, o Eu sugere, nos versos 2 e 3, uma frustração vivida, porquanto a "dor de coração", alegoria da angústia sentimental, é produto da vontade do "porquinho-da-índia" de querer estar "debaixo do fogão", e não com seu dono. Tal cena segue a linha imagética abordada por Bandeira, alicerçada por seu lirismo prosaico. A relação afetuosa é unilateral, pois, enquanto o Eu "levava ele para sala" e "para os lugares mais bonitos mais limpinhos", o animal "não gostava".

As oposições

Nesse desequilíbrio afetivo, não há, pois, reciprocidade entre as investidas protetoras do Eu e as respostas que o bicho lhe dá. Reforçando o apelo ao instante passado, o Eu do presente, investe-se de uma linguagem diminutiva ("limpinho", "ternurinhas"), sugerindo que a memória daquele acontecimento está viva, o que liga o passado ao presente de modo umbilical. A oposição afeto x indiferença ("não fazia caso de minhas ternurinhas") chega à inusitada conclusão, no último verso e última estrofe, de que o "porquinho-da-índia" foi sua "primeira namorada", o que surpreende e se justifica pelo fato de que esse "foi" simboliza sentimentos pueris trazidos à esfera do presente. Outro aspecto do poema, do ponto de vista linguístico, é que os versos 03 e 04 subvertem a norma culta da linguagem, em função da coloquialidade infantil: o verbo "levar", denotando movimento, é transitivo direto e indireto, logo quem leva, leva algo (ou alguém) a algum lugar. Neste caso, o pronome pessoal "ele", do ponto de vista gramatical, não poderia servir de complemento daquele verbo, nem a corruptela "pra" poderia substituir a preposição "a". Mas assim o fez Manuel Bandeira, "tão Brasil!", como escrevera em outro poema.


TEÓFILO LEITE BEVILÁQUA
COLABORADOR*

*Do Curso de Letras da Uece

FIQUE POR DENTRO

Alguns aspectos relativos à vida do autor

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no Recife (Pernambuco) em 1886 e morreu no Rio de Janeiro em 1968. Passou sua infância no Recife, tendo se mudado para o Rio de Janeiro com sua família quando adolescente. Depois, em São Paulo, cursou a Escola Politécnica, que abandonou em 1904, aos dezoito anos, por causa da tuberculose. Depois de um tratamento na Suíça, onde tomou contato com a poesia simbolista e pós-simbolista, volta para o Rio de Janeiro, onde faz amizade com outros autores, e, pouco mais tarde, realizariam o movimento modernista.

Trechos

TEXTO I

Quando eu tinha seis anos/Ganhei um porquinho-da-índia./Que dor de coração me dava/Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!/Levava ele pra sala/Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos/Ele não gostava:/Queria era estar debaixo do fogão./Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...///- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

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