Ensaio

Manoel de Barros: poética e revelação

00:00 · 01.11.2013
O emprego reiterado de neologismos é um dos recursos expressivos mais singulares da poética deste autor

Por conta disso, sua escritura é, antes de tudo, uma marca personalíssima, primando pela liberdade, pelo desconcerto linguístico, pela ironia, pelo minimalismo, o que provoca, sobretudo, no leitor, a experiência do estranhamento, como no poema "Mundo Pequeno - I ": (Texto I)

Todavia, o poema não tratará de qualquer simplicidade, uma vez que, aqui, o simplório tem ligação com o lugar onde se vive e não com a relação estabelecida com o mesmo, uma vez que esta se dá num todo de completude entre indivíduo e mundo. A criança é representada, novamente, como sendo um ser livre e que enxerga além do visível.

O poema apresenta um tom memorialístico, uma vez que o autor fala de acontecimentos reais da sua história, como é o caso do verso "Nossa casa foi feita de costas para o rio". O autor, portanto, retorna, nesse poema, a sua infância, nos mostrando de forma sincera e particular a composição do universo infantil.

Leitura do poema

O poema tem início com os versos: "O mundo meu é pequeno, Senhor." e "Tem um rio e um pouco de árvores.", o que aponta para a descrição de mundo, ainda "limitada", da criança, que só entende como sendo concreto aquilo que a cerca. Logo, na narrativa, observamos que o eu lírico considera o seu mundo pequeno, sendo esse composto apenas por elementos da natureza. É importante salientar que a criança, até certa idade, não apresenta a noção de espaço; assim, seu entendimento do que seria o mundo real se compõe, verdadeiramente, a partir do que ela conhece.

Dessa forma, tornam-se bastante compreensíveis os versos acima citados. Em seguida, vemos o verso "Formigas recortam roseiras da avó", que nos remete a outro poema do autor: "Obrar", inserido no livro "Memórias Inventadas", no qual Manoel de Barros, em um tom também memorialístico, relata-nos as peraltices por ele vivenciadas, ao pé da roseira de sua avó. No verso seguinte, "Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.", observamos como se dá a relação da criança com coisas "banais", ou seja, com coisas mínimas e sem nenhum valor financeiro.

Considerações finais

Nas poesias de Manoel de Barros, constata-se, de modo incisivo, que a criança tem, pois, a capacidade de criar e de reinventar o sentido e a função das coisas, sendo, pois, dona, de visão de mundo. Daí explica-se o fato das latas serem maravilhosas, uma vez que na hora do brincar a criança resignifica as coisas, dando a elas novos nomes, novas funções e novas cores.

FIQUE POR DENTRO

Outros traços singulares da composição

Mais à frente o eu lírico nos fala em um dos versos "Todas as coisas deste lugar estão comprometidas com as aves.", o que pode estar relacionado à liberdade, uma vez que, para a criança, tudo pode ser revisto e reinventado. Na infância as coisas não possuem um sentido fechado, podendo ser renomeadas de acordo com a fruição imaginativa do ser infante. Nos versos seguintes, observaremos que o eu lírico transformará os substantivos "coisa", "rã" e " árvore" em verbos, reinvertendo as regras da gramática, característica típica da criança, que não costuma possuir um compromisso "sério" com as regras gramaticais.

Trechos

TEXTO I

O mundo meu é pequeno, Senhor./ Tem um rio e um pouco de árvores./ Nossa casa foi feita de costas para o rio./ Formigas recortam roseiras da avó./ Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas./ Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves./ Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os/ besouros pensam que estão no incêndio./ Quando o rio está começando um peixe,/ Ele me coisa/ Ele me rã/ Ele me árvore./ De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os/ ocasos.

Tem como tema principal a "simplicidade".

MORGANA FERREIRA DE LIMA
COLABORADORA*

*Ensaísta

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