TELÊ ANCONA LOPEZ

“Macunaíma significa busca e descoberta”

00:19 · 11.02.2008
Telê Ancona Lopez: pesquisadora do IEB coordena novas edições da obra de Mário de Andrade
Telê Ancona Lopez: pesquisadora do IEB coordena novas edições da obra de Mário de Andrade ( Divulgação )

Buscar referências a Mário de Andrade na internet é marcar um encontro certo com Telê Ancona Lopez. Professora titular da Universidade de São Paulo (USP), ela é a responsável pelo Acervo de Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). Especialista na literatura do movimento modernista brasileiro, Telê Ancona Lopez dedicou boa parte de sua obra às criações de Mário de Andrade. Atualmente, ela coordena um grupo de pesquisadores do IEB no preparo das novas edições de suas obras, publicadas pela Agir.

Que posição ´Macunaíma, o herói sem nenhum caráter´ ocupa no conjunto da obra de Mário de Andrade?

Tanto “Paulicéia desvairada” como “Macunaíma” de Mário de Andrade são marcos na literatura brasileira do século XX, ambos consolidando a experimentação modernista e se posicionando como obras modernas, portadoras de uma visão crítica de si próprias, de seu tempo, do homem de seu tempo e do Brasil. “Macunaíma”, no conjunto da obra de Mário, destaca-se como uma candente transfiguração do Brasil, de formas e aspectos dos nossos traços nacionais. Leyla Perrone-Moisés em seu belo e recente ensaio sobre Macunaíma (no livro “Vira e Mexe, Nacionalismo”), o considera “talvez o livro mais ‘nacional’ da literatura brasileira”.

Em um dos prefácios à obra, Mário de Andrade escreveu: “Macunaíma não é um símbolo nem se tome os casos dele por enigmas ou fábulas”. É possível seguir esta recomendação do autor e não ler o romance como uma interpretação - um signo - da cultura brasileira?

Macunaíma significa busca e descoberta, pesquisa, como bem se entende nesse primeiro prefácio da obra, onde está a frase que você cita, e onde está também, e bem claro, o propósito de “trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros”. Mário, de fato, nunca incluiu, no seu projeto, fazer do romance uma interpretação ou um signo da cultura brasileira.

Oswald de Andrade, certa vez, chamou o Macunaíma de ´nossa Odisséia´. De certa forma, a Odisséia é a história de um viajante. Podemos ligar as perambulações do anti-herói Macunaíma ao trabalho posterior de Mário de Andrade, como folclorista?

Mário de Andrade, como ele próprio diz no Prefácio de Macunaíma e em cartas, desde 1923, é o artista que inventa um Brasil desgeograficado (expressão dele!). Esse artista está no eu lírico de “Clã do jabuti”, no narrador/ rapsodo de “Macunaíma”, na transviagem da criação em “O Turista Aprendiz”. Essa invenção vai mesmo pra lá do Brasil, nas referências a outras terras da América Latina, no espaço ficcional de Macunaíma, como a ilha de Marapatá, o cuité de friagem dos Andes e outras. A dimensão do artista caminha paralela ao trabalho do pesquisador do folclore, trabalho rigoroso, preciso, documentado. Mário, aliás, recolhe material do folclore desde o início da década de 1920, embora só comece a estudá-lo especialmente, por volta de 1927. Mas, como poeta, já o acolhe em sua criação; por exemplo, o refrão da batata-doce assada no poema “Noturno”, do livro Paulicéia desvairada.

Que contribuições as versões para o teatro e o cinema deram para a interpretação do romance de Mário de Andrade?

Assim como Mário de Andrade, em sua criação, atualiza os mitos indígenas de que se apropria, Joaquim Pedro de Andrade, no cinema, e Antunes Filho, no teatro, encontram as respectivas dimensões contemporâneas do “herói da nossa gente”. No filme, por exemplo, o Brasil subjugado pela ditadura militar é bem marcado no final. No espetáculo de Antunes, a denúncia do trabalho alienado, formiga que se escraviza, fica muito bem caracterizado. Aliás, as platéias na Europa captaram muito bem essa interpretação.

A Editora Agir anunciou que relançará uma série de obras de Mário de Andrade, com suporte dos pesquisadores ligados ao IEB. Qual a proposta da coleção e o que o leitor deve esperar dela? Estão programados lançamentos de volumes inéditos?

A Equipe Mário de Andrade do IEB, por mim coordenada, está organizando edições de texto fiel, apurados no confronto dos textos publicados durante a vida do escritor. Edições de texto fiel não significam edições definitivas, e sim a nossa compreensão do projeto literário de cada obra, no que somos muito auxiliados pela correspondência passiva do autor de Macunaíma. Os livros procuram trazer, anexados, documentos ligados à criação da obra, documentos em geral inéditos.

Os próximos lançamentos já estão definidos?

Sim. Os próximos livros serão “Obra imatura” (contos), “Contos de Belazarte” (coletânea de contos editada em 1924 que chegou a seu perfil definitivo em 1934) e o “Poesia Completas”. Atualmente, estamos preparando uma edição comemorativa do próprio “Macunaíma”. Ela sai em junho, que é o mês em que se comemora os 80 anos da primeira edição da obra.

Este ano, completam-se 40 anos do acervo Mário de Andrade no IEB. Gostaria que você fizesse uma avaliação do atual momento das pesquisas ligadas ao acervo.

Muitos e muitos pesquisadores se valem do acervo Mário de Andrade. Posso lembrar o nosso projeto temático FAPESP que pretende a organização dos manuscritos do escritor e o estudo dos principais traços do processo criativo dele, expressos nesses manuscritos e na marginalia andradiana. Um projeto de cunho interdisciplinar.

FIQUE POR DENTRO - A rapsódia de um herói do Cinema Novo

Pouco levaram tão a sério a recomendação de Mário de Andrade de atualizar sempre a ortografia do ´Macunaíma´ quanto o diretor Joaquim Pedro de Andrade. Em 1967, ele traduziu cinematograficamente a rapsódia, com roteiro de sua autoria. Por problemas com a censura, o filme só chegou aos cinemas dois anos depois. Estrelado por Grande Otelo, Paulo José, Dina Staf e Milton Gonçalves, o longa-metragem é um marco do Cinema Novo. Nele, o cineasta promove uma fusão de linguagens, da oralidade transcriada por Mário em seu romance à encenação teatral que empresta consistência a uma trama mítica. No filme, Joaquim Pedro de Andrade apresenta um Macunaíma imerso naquele período histórico, pós-Golpe Militar de 1964. Destaque para a personagem Ci, transformada no filme em guerrilheira urbana. O filme foi lançado em DVD.

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