Psicanálise

Lugares: relações entre corpo e linguagem

Ensaio desvenda os meandros de "Figuras do espaço: sujeito, corpo, lugar", de Paola Mieli

00:00 · 08.04.2017 / atualizado às 15:32 · 14.06.2017 por Betty Fuks - Especial para o Caderno 3
Martin Juef
Obra do artista Martin Juef, intitulada "A Despedida de Sigmund Freud" (Lápis em papel, 2015)

Em tempos de penúria, quando alguns continuam insistindo em vulgarizar a Psicanálise e outros fazem avançar, com estardalhaço na mídia, a ideia de que o lugar do inconsciente na contemporaneidade não é mais aquele construído por Freud, um livro que contradiz tais afirmativas, muito bem definido, incisivo, e escrito em linguagem clara e precisa, merece saudações. Brindemos, então, a edição brasileira do livro de Paola Mieli, "Figuras do espaço: sujeito, corpo, lugar", recém lançada pela editora Annablume, Com a mesma honestidade intelectual e criatividade com que escreveu "Sobre as manipulações irreversíveis do corpo"(Contracapa-RJ), Mieli, uma das psicanalistas mais renomadas de Nova York e reconhecida, em vários países, pelo domínio seguro que demonstra ter em relação aos conceitos psicanalíticos, transforma a temática do espaço num instrumento de reflexão sobre a relação do sujeito com o mundo.

Esse móbil - o espaço - tão decantado nos debates filosóficos, religiosos e científicos - ganha, assim um lugar inusitado na abordagem da autora às experiências comuns, cotidianas e ao mesmo tempo absolutamente estranhas que compõe sua escrita. É digno de nota que as hipóteses que Mieli enuncia são, desde o início do livro, embasadas pela exatidão de seu pensamento e escrita o que cria anticorpos que coíbem a expansão de um certo "psicanalês", comum na literatura psicanalítica atual. Vejamos.

Começar um trabalho psicanalítico pelo resgate da obra de Freud, não é sem consequências. Nos termos de Walter Benjamim, Mieli, com a intensidade daqueles que possuem a coragem de se afastar de um dito para introduzir um novo dizer, retorna às origens da Psicanálise, sempre incompleta e inacabada, para obter o domínio de alguma coisa que considera perdida. O efeito da estratégia benjaminiana sobre a autora, reconhecer que as ideias originadas na história são em si mesma intemporais mas contêm, sob a forma de "história-virtual", uma remissão à sua pré e pós-história, contamina o leitor de Figuras do espaço. Um convite a percorrer as trilhas de fundação da "outra cena" - o inconsciente - e deixar de lado toda a empáfia contida nas expressões "eu já sei disso"; "isso é antigo" "os tempos são outros" "Freud já era".

O que mais me interessa ressaltar é a maneira como Mieli consegue aberturas para alguns dos paradoxos freudianos, sem o menor constrangimento, graças ao seu estilo de abordar os conceitos - realidade psíquica, à posteriori, trauma, repetição, fantasia, etc. - de modo rigoroso e poético. Poético porque aquele que se dispõe a resgatar um "afogado", como dizia Mário Quintana, termina fazendo poesia. Mieli realiza um "retorno" à teoria freudiana que, segundo ela, introduziu uma concepção de espaço suis generis, de acordo com o espírito cultural do início do século XX e dos avanços da geometria e da física, restituindo-a ao lugar que de fato pertence. A fidelidade de Mieli à letra freudiana fica ainda mais evidente no domínio explicito que demonstra exercer em relação à teoria lacaniana. Guiando o leitor passo a passo, através dos sistema conceitual de Lacan que abrange noções centrais como sujeito/subjetividade, significante, objeto a, lalangue, Outro etc., nossa autora esclarece a originalíssima teoria da subjetividade encontrada na obra do psicanalista francês, o mais fiel dos leitores de Freud na história da psicanálise.

O sujeito "emerge no centro do mundo" o que significa que ele surge como efeito de uma "relação transferencial com o que é outro". Dessas afirmativas Mieli extrai uma definição singular de lugar: espaço libidinizado e mediado pela relação significante pela qual o sujeito aborda o mundo. Definição que exige do leitor repensar o estatuto do corpo e da linguagem em psicanálise; tarefa que a própria autora se encarrega de facilitar tomando como ponto de partida algumas experiências banais como o andar, a higiene do corpo e as ferramentas psicanalíticas necessárias . Com doses de sobra de inteligência e erudição Mieli faz uso também da literatura e das artes incluindo neste campo a própria arquitetura da "cidade mãe" da Psicanálise. Segue o que afirmou Freud e reiterou Lacan: há coisas que só o escritor, o poeta e o artista com seus meios específicos podem nos oferecer.

Nesse sentido, a leitura da autora do ensaio É isso um homem?, o testemunho de Primo Levi sobre o horror indizível dos campos de extermínio, é primorosa. Levi transmite a história de homens torturados, destituídos de qualquer "singularidade subjetiva" num esforço de através da linguagem exprimir o inominável , o inassimilável do trauma de seu próprio povo e geração. É da escrita de Levi que Mieli retira elementos necessários para demonstrar que o projeto nazista de destituição do "pudor que sustenta a dignidade humana" e da paisagem libidinal do sujeito encontrou resistência nos campos: alguns prisioneiros reconstituíram, ainda que temporariamente, um lugar, uma aparência de lugar para si, num lugar construído justamente para assassiná-los.

A obra de Mieli atinge o coração do debate psicanalítico atual sobre corpo e a exigência de confrontação com o real Tanto Freud quanto Lacan insistem que mesmo quando o sujeito que negá-lo ou desmentí-lo, o corpo não cessa de não fazer fracassar a linguagem. Mieli propõe apreender esse fato de estrutura fazendo um percurso no último ensino de Lacan que apresenta o trauma do corpo por uma língua anterior à linguagem: Lalíngua. O bebe é mergulhado em sua entrada no mundo no "banho de lalíngua", a língua do Outro que atende às suas primeiras necessidades e o introduz no reino da linguagem. O Próximo na conceituação freudiano - objeto ambíguo por excelência, pois se constituirá, para o bebe, como único objeto capaz de lhe prestar socorro e ao mesmo tempo um objeto hostil que o impregna de linguagem. Dessa matriz freudiana - Complexo do Próximo - e de Lalíngua, a autora retirará consequências do significante lacaniano falasser que designa a relação entre sujeito e corpo e a constituição do espaço da transmissão psíquica entre as gerações. Somos, assim, reconduzidos a refletir sobre o espaço da transmissão psíquica, mais além do que cada ramo da ciência de nossa época insiste em dizer: o mundo repousa sobre entidades sutilíssimas - as mensages do DNA e os impulsos neurônicos que vagam pelo espaço mental desde o começo dos tempos. Um encontro entre o corpo e a fala, lembra Mieli, é a particularidade do humano no que "encarna o gozo que forma um saber inconsciente que o causa, mas que resta inacessível". Maneira de reafirmar que a Psicanálise possui uma contribuição absolutamente singular para se pensar as origens do sujeito e da cultura.

Existem vários ensinamentos clínicos e teóricos importantes em Figuras do espaço, assim como referências generosas aos trabalhos de vários autores, o que e raro na produção de escritos psicanalíticos contemporâneos. Ao final do livro três casos são apresentados, cada um deles inserido em diferente momento histórico, deixando transparecer a convicção da autora de que por mais que uma análise diga respeito aos sujeitos em suas particularidades, por estar ligada à linguagem a história privada faz parte da grande História, da história pública. Isso vale para o íntimo de cada um, qualquer que seja sua biografia pois não existe espaço interior que não seja afetado pelo lugar.

Nesse ponto Miele retorna à problemática da transmissão. Dessa vez para reiterar o fato de que a psicanálise detém uma gloriosa apreensão de tempo de modo a fazer conviver passado e presente no mesmo lugar; o que assegura que o humano é impregnado pela "dívida simbólica" que provém das gerações precedentes. A defesa de Mieli pela noções freudianas de temporalidade e de verdade histórica na apresentação dos três casos resume de forma definitiva sua adesão à máxima de Goethe registrado por Freud em Totem e Tabu - "Aquilo que herdastes de teus ancestrais, conquista para faze-lo teu" -. Assim, ainda que de modo obliquo o livro se torna o retrato do desejo da autora de conjugar a complexidade psicanalítica à reescritura do que vem a ser espaço e lugar, de modo a tomá-los uma potente ferramenta de trabalho do analista na clínica e na crítica à cultura que testemunha.

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