Ensaio

Luciano Maia: o lírico discurso da memória

22:00 · 15.03.2014 / atualizado às 00:00 · 16.03.2014

Poeta de temáticas como o amor, a vida, as cidades, o sertão, as águas, a infância e a terra, une épico e lírico

Claroscuro é um vocábulo de origem italiana "chiaroscuro" que, segundo o dicionário Señas (2010), consiste em uma técnica em dispor de maneira adequada às luzes e às sombras em um desenho ou pintura, recurso muito utilizado na arte barroca. Claroscuro também foi como Luciano Maia nomeou um de seus 16 livros de poesia, livro do qual algumas poemas foram aqui objetos de estudo. Luciano Maia faz poemas como pintor pinta suas telas, combinando tintas (as palavras) para traçar, assim, paisagens.

Abertura

"Vésper Lucífero" é um dos poemas registra duas das fases mais lindas de um dia, o amanhecer e o entardecer, e exemplifica muito bem a principal temática abordada no livro: a exaltação da natureza, consoante os versos: (Texto I)

O poema possui apenas uma estrofe, organizada em 14 versos. O título faz referencia a Vênus, também conhecido como estrela d´Alva ou Vésper. A beleza desse planeta é tamanha que seu nome é inspirado na deusa romana Vênus, equivalente a Afrodite, na cultura grega, deusa do amor e da beleza. O eu lírico reconhece essa beleza ao empregar o adjetivo lucífero, lugar de onde emana luz, para se referir a Vésper, isso porque sua luz é tão intensa que pode ser visto a olho nu ao entardecer e ao amanhecer. Ao usar no primeiro verso o dêitico "ainda" fica claro uma rememoração daquilo que ainda lhe "encanta", a "rosa madrugada", que nada mais é do amanhecer, anunciado pelo canto do galo. O "rosa" do céu faz lembrar ainda a passagem bíblica que narra a crucificação de Cristo.

Nos versos quinto ao oitavo o autor pinta a natureza, mais especificamente uma linda paisagem de entardecer. O nono e o décimo verso faz uma oposição aos versos anteriores, onde o eu lírico se mostra alheio, indiferente às coisas mundanas: "obrigações, consumo e hipocrisia".

O calendário é um sistema de contagem civil e religiosa do tempo que é negado pelo eu lírico, já que este prefere o tempo legendário, aquele que é único, excepcional; como o amanhecer ou o entardecer. No último verso lemos: "sonha em luz ser da Lua a companhia", o poeta lembra que, depois da Lua, Vênus é, desse modo, o objeto mais brilhante no céu noturno.

A tarde é um momento de inspiração para o poeta e, através do poema "Estela em céu violeta", o autor pinta uma paisagem cheia de cores, protagonizada por um casal apaixonado. (Texto II)

Nos dois primeiros versos o eu lírico começa a narrar uma linda paisagem de final de tarde, no céu, um personagem marcante, a estrela que aparece no findar da tarde, "estrela aquela": Vênus. "Ocaso" (2º verso) nada mais é do o momento em que o sol se põe na direção oeste, acompanhado do adjetivo "rubro" desenha um céu de vermelho intenso. Esse céu "emoldurado" testemunha um beijo.

O êxtase da paixão não deixa que as palavras ardentes, fogosas também sejam registradas, fazendo parte assim apenas da memória do eu lírico. Vênus faz parte "de um prometido céu" (9º verso) que nada mais é do que o paraíso prometido por Deus. Nos últimos versos (10º ao 14º) o eu lírico emoldura a paisagem símbolo dos casais apaixonados: "lua e céu nos têm seguido" "inquilinos das noites".

Considerações finais

A lembrança daquilo que não se fez, como sugere o título desse poema, "Destempo", um tempo que se perde despropositadamente. (Texto III)

Assim como os demais apresentados aqui, este também é um poema um poema com uma única estrofe, organizada em 14 versos. O poeta tem como inspiração de alguns poemas o entardecer. Nos dois primeiros versos de "Destempo" o eu lírico reclama a perda dos poemas já que o entardecer já se foi, inclusive compara, em feliz escolha, a beleza dessa etapa do dia com uma ametista, pedra preciosa de cor violeta cristalizada. "O instante prometido" foi perdido, agora nem a lua (elemento que comprova que é noite) pode inspirá-lo.
 

FIQUE POR DENTRO
 
 
Notas acerca do autor e da obra
 
 
Luciano Maia nasceu em Limoeiro do Norte, Ceará, em 07 de janeiro de 1949. Advogado, é cônsul honorário da Romênia em Fortaleza. Formado pela UFC, publicou 16 livros. Mestre em literatura, é professor do curso de Direito da Unifor. Ocupa a cadeira 23 da Academia Cearense de Letras, que tem como patrono o escritor Juvenal Galeno. Seu livro mais conhecido é “Jaguaribe – memória das águas” que já foi traduzido para o espanhol, para o inglês e para o romeno. Além de professor, advogado e poeta, Luciano Maia é também um exímio tradutor, é de sua autoria a tradução de “Lumina de Luna “ , livro do poeta romeno Mihai Eminescu.

Trechos
 
 
TEXTO I
Ainda me encanta a rosa madrugada/ tecida do cantar rouco do galo/ e a bíblica passagem anunciada/ pelo Cristo: sua força e o seu abalo./ A tarde ensolarada, ingênua e calma/ numa estação de voos e de ninhos./ Não me ilude este frio calendário/ de obrigações, consumo e hipocrisia./ O meu tempo melhor é o legendário/ tempo que desde sempre concilia/ e em que Vésper, poeta visionário/ sonha em luz ser da Lua a companhia. (p. 24)
 
TEXTO II
Foi quando a estrela aquela apareceu/ e a tarde se findou em rubro ocaso./ Demorou nosso beijo bob o manto/ de um céu emoldurado em tom violeta./ A tua boca murmurou-me cálidas/ e sentidas palavras, tão apenas/ audíveis nesse instante de delírio./ A estrela aquela nos mirou desde o alto/ de um prometido céu, lume a brilhar/ sobre o nosso desejo enamorado./ Desde então, lua e céu nos têm seguido/ os rastros dos amantes, inquilinos/ das noites que de então nos têm dado/ aquele céu violeta e constelado.
(p. 21)
 
TEXTO III
Tu perdeste o poema oferecido/ àquela tarde de ametista, àquela/ noite em que o sonho enfim acontecido/ sugeria um cromado de aquarela./ Não percebeste o instante prometido/ no azul do peito, feito sentinela/ daquele tempo há muito perseguido/ pela intenção de te fazer mais bela./ Perdeu-se o sonho daquelora intensa/ e hoje por mais que a alva porcelana/ da lua a escuridão da noite vença/ meu peito agora já não mais se ufana/ da paixão, que se outrora foi intensa/ já não me traz alento e não me engana. (p. 31)
 

Camila Maria dos Santos Silva
Graduanda em Letras na UECE

Especial para o ler*

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