Ensaio

Lisboa e fado: a poesia de David-Mourão Ferreira

Grande voz do cenário literário português atual, David-Mourão Ferreira tem, na lírica, alma lusitana

00:00 · 30.03.2014

Com obras premiadas em vários eventos da sociedade portuguesa, David-Mourão Ferreira personifica em seu fazer poético o típico sentimento aventureiro e cultural da península ibérica, compondo poemas em homenagem à sua cidade natal, Lisboa, e poemas que seriam transformados - ou já criados como - em fado nas vozes de vários intérpretes, dentre eles Amália Rodrigues, que fora considerada o exemplo máximo do fado português. Seus textos apresentam alto teor de saudade e marcas inegáveis das grandes navegações. Com um lirismo melancólico e uma figura algumas vezes sensual, a cidade do eu lírico é bem mais ampla do que a realidade, por se tratar quase de um ser vivo que abriga, dentre várias coisas, o coração poeta do autor.

Lisboeta

"Maria Lisboa" se apresenta em quatro estrofes de quadra, empregado o uso do enjambement* e construindo a figura de uma cidade dinâmica, visivelmente apresentada em seus versos, utilizando verbos nocionais e figuras metafóricas. Como de costume ibérico, a presença de navios e mares é forte em toda a criação da poesia, deixando clara a semelhança do eu lírico com as conquistas náuticas do povo durante os séculos das grandes navegações. (Texto 1)

No poema surge uma Lisboa feminina, logo no início, quando lança "é varina", que seria ou mulher de beira mar ou a flexão feminina da palavra "varino", que, por sua vez, entendemos como barco comprido no português de Portugal.

Leitura do poema

A Lisboa lançada como mulher é interpretada como o sentimento de pertencer, tal qual filho aos braços da mãe, às ruas da cidade. O poema já surge com uma dupla interpretação, a possibilidade que "varina" nos causa, que força o leitor a uma segunda leitura, levando, pelo menos, a uma dupla interpretação sobre o texto. Em todos os versos há, também, a imagem náutica que tanto ronda a atmosfera da capital lusitana. "Caravela" e "fragata" expõem o lado explorador e o lado conquistador, respectivamente, figuras que dialogam diretamente com o eu lírico do poema. Os empregos de verbos nocionais e da técnica do enjambement criam uma cidade dinâmica que não parece sentir cansaço nem diminuir o ritmo explorador que ganhou o mundo nos séculos passados. A utilização de rima cruzada marca o ritmo que remete à navegação. Há a presença da assonância como em "Quando o vento a leva ao baile, /baila no baile com o mar", como também a aliteração presente em "Na canastra, a caravela. /No coração, a fragata". Constrói uma Lisboa que está impregnada de mar e da vontade de ir e voltar, sendo ainda mais embasado nas rimas, que dançam bem como a forma que o mar tem de avançar e recuar as ondas. A clareza do eu poético em falar da cidade natal nos remete ao teor altíssimo de sua devoção por ela.

A busca de si mesmo

Sem seguir forma predefinida, "Nome de rua" é quase a tentativa do poeta de se encontrar na cidade, como se qualquer canto fosse casa, tanto que nenhum lugar é moradia. Quanto à construção sem predefinição do poema, ou seja, estrofes de tamanhos diferentes, causa no leitor a sensação de estar perdido, de se caminhar por aí sem se saber, exatamente, para onde vai ou de onde se veio. Porém, apesar de não haver uma forma definida, o ritmo que as rimas causam servem, novamente, como para causar a sensação que causa o mar. (Texto II)

A falta de padrão na separação dos versos cria no leitor uma sensação de se estar perdido, ao mesmo tempo em que contrasta com a sua distribuição, sendo de rima cruzada, que cria um ritmo sensitivo e bem calmo de se ler. A cidade, agora, mantém um ritmo mais desacelerado que de outros poemas, como se tentasse se esconder numa brincadeira infantil entre o eu lírico e as portas de suas ruas. Por repetição da palavra "rua", que se encontra no poema oito vezes, o que era um simples substantivo comum agora vira quase um personagem que contracena com o eu lírico.

A repetição, também, da palavra "noite" vem mostrar que o personagem lírico está perdido e pede uma luz para iluminar sua mente e sua localização dentro da própria cidade. O recurso da aliteração é visto, ainda, como uma forma de deixar claro o anseio do eu lírico em estender-se por todas as vias que possam recebê-lo na Lisboa. A figura da taça também brinca com a composição de se estar perdido, pois a imagem que essa palavra nos traz causa a sensação de embriaguez, mas, no caso, uma "embriaguez lúcida", contrária aos casos comumente citados na literatura, onde o álcool é quase sempre um sinônimo de loucura.

Fique por Dentro

O histórico presente na escritura

A península ibérica, lá por meados do século XV, foi importantíssima para a descoberta do que viria a ser conhecido como Novo Mundo, ou seja, a América. Portugal e Espanha iniciaram a jornada marítima por se localizarem à borda do continente europeu e, por consequência, serem os dois territórios mais próximos ao Novo Mundo. Além da colonização e do Tratado de Tordesilhas, também é importante mencionar a atuação desses dois países em solo africano com a escravização e exportação de negros, algo que culminaria na miscigenação do povo sul-americano. O norte da América, por outro lado, ficou a cargo mais dos ingleses e franceses, algo que não tem relevância ao cenário que analisamos aqui. Os movimentos das Grandes Navegações refletem até hoje no cenário e comportamento português porque a nação tem imensa inquietação naquilo que se relaciona ao mar. Isso fica claro na poesia de David-Mourão quando se toca tanto na figura de navios e caravelas, de mares e aventuras, de portos e Lisboas náuticas.

GUILHERME LOPES DA SILVEIRA
Especial para o Ler*

*Graduando em Letras na UECE

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