Palestra

Lembranças de um passado recente

MFF encerra exposição itinerante, "Imagens Que Ardem", com palestra do fotógrafo Evandro Teixeira

00:00 · 31.08.2018
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Evandro Teixeira: no encontro, ele mostrará cerca de 250 fotografias feitas ao longo da carreira Foto: REINALDO JORGE ( Evandro Teixeira: no encontro, ele mostrará cerca de 250 fotografias feitas ao longo da carreira Fot )

O cenário de guerra sempre acompanhou o fotógrafo Evandro Teixeira. Seja registrando o começo e o auge do golpe militar no Brasil e no Chile ou documentando a cidade de Canudos e suas ruínas - em seu livro "Canudos 100 Anos" (1997).

O baiano que hoje vive na Gávea, Rio de Janeiro, parafraseia o cantor Luiz Gonzaga: "minha vida é andar por esse País, só que fotografando e palestrando", diz.

Admirador do Ceará, Teixeira estará mais uma vez no Estado. Fortaleza recebe o fotógrafo em uma palestra gratuita na Escola Superior da Magistratura do Estado do Ceará (Esmec) nesta sexta-feira (31), às 14h. A fala do fotógrafo encerra a exposição itinerante "Imagens Que Ardem", que apresenta 50 fotografias da Coleção Paula e Silvio Frota.

A exposição proposta pelo Museu da Fotografia Fortaleza (MFF) expõe fotos da ditadura militar brasileira entre os anos de 1964 e 1985 dos fotógrafos Juca Martins, Orlando Brito e Evandro Teixeira.

Além de falar do período em que cobriu o regime militar brasileiro, Evandro mostrará cerca de 250 fotografias feitas ao longo da carreira, que perpassam os Anos de Chumbo no Brasil e o regime de Augusto Pinochet no Chile. O fotógrafo também relembra outra época de sua vida, quando cobriu a área de esportes: Olimpíadas e Copas do Mundo.

"Vou contar a história dessas minhas fotos e os momentos que vivi no regime militar. Vai ser um bate-papo, vamos falar de fotografia, como se fotografava antes e como acontece hoje, sobre a entrada da fotografia digital. Termino mostrando a capa dos meus 10 livros publicados", adianta o profissional.

Luta

Foi sob as asas do Jornal do Brasil, local onde atuou como repórter por mais de 40 anos, que Evandro cobriu este momento sangrento do País. Muitas vezes Evandro foi preso. Um dos episódios aconteceu quando o próprio Marechal Costa e Silva ordenou uma noite de castigo ao fotógrafo pela sua imagem das baionetas - sabre colocado no bocal de fuzis, com libélulas pousando na ponta da arma.

"Foi numa inauguração de uma exposição de armas no Aterro do Flamengo. Aquela seria a foto da primeira página do jornal e o JB era muito sacana, sempre zombava os militares. Sempre colocavam uma foto bem grande na capa e dentro faziam chacota", explica Evandro.

"A foto foi publicada. Quando eu fui no Palácio no dia seguinte, chegando lá, o Marechal mandou me chamar no gabinete dele. Fui. Chegando lá falei: 'às suas ordens'. Ele rebateu: 'como é que você publica aquela foto com aquelas libélulas?'. Falei que era uma questão de edição e ele nem esperou eu terminar, disse logo: 'uma noite de castigo, de porrada'", lembra.

Amigo de Vladimir Palmeira - um dos líderes da Passeata dos Cem Mil em 1968, Evandro não lutava subindo nos palanques, nem marchando nas manifestações.

"Tivemos uma importância muito grande e em muitos momentos estava lutando com toda a minha vontade. Lutava com meu olhar e minha câmera", ressalta.

As imagens daquela época ganharam importância no Brasil e servem como herança para a juventude de hoje perceber aspectos da época de chumbo. Nem todas as imagens foram salvas, já que Evandro fazia as fotos para o Jornal do Brasil, que enfrentou a ditadura militar e pagou caro por isso, chegando a ser fechado várias vezes.

Vida de repórter

Quando a imprensa foi convocada para ir até a Ilha das Cobras, onde funcionava a prisão da Marinha, Evandro foi enviado também. "Eles apresentavam os 'subversivos', entre aspas, né. O repórter não podia fazer perguntas. Tínhamos dois minutos para fazer as fotos, você era cercado de soldados e eles diziam: seu fotógrafo, eles são subversivos, tira uma foto deles aí", rememora o baiano.

As coisas só pioraram com a assinatura do AI-5. Se antes os assassinatos eram mascarados, passaram a acontecer sem maiores pudores - com na missa em homenagem ao estudante Edson Luís. "No meio da celebração a cavalaria chegou e os padres fecharam a igreja. Quem ficou do lado de fora foi massacrado. Eu estava em cima de um prédio de três andares, todos os fotógrafos fugiram e se esconderam no prédio e de lá pudemos fotografar todo o massacre".

As imagens, nesse caso, falam mais que as palavras. E na palestra, essas e outras histórias serão revividas por Evandro Teixeira, que além da ditadura militar no Brasil, também acumula histórias da do governo de Salvador Allende (1908-1973), derrubado pelo golpe de Estado de Augusto Pinochet.

Nesse meio tempo, conseguiu driblar a ditadura chilena para cobrir, por exemplo, o enterro do poeta Pablo Neruda, outra causo a ser explorado na palestra.

FIQUE POR DENTRO

Exposição do Museu Itinerante da MFF continua

A exposição sobre a Ditadura Militar foi a primeira que o MFF fez de forma itinerante. "A proposta do Museu Itinerante é de levar um pedacinho do museu, que é um recorte da coleção, para outros lugares. É um museu passeando pela cidade de Fortaleza, passeando também pelo interior, por outros municípios", pontua Fernanda Oliveira, coordenadora do MFF.

A exposição "Imagens Que Ardem" encerra sua estadia na Escola Superior da Magistratura do Estado do Ceará (Esmec) hoje (31), mas segue para o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE), em setembro, ainda sem data definida. Depois passará pelo Fórum Clóvis Beviláqua. Sobral será a primeira cidade fora de Fortaleza que receberá a mostra sobre ditadura.

O MFF tem uma série de projetos, educacionais e sociais, como o Museu na Comunidade e o Museu no Interior.

"Ao longo desse um ano e meio o museu vem amadurecendo sua relação com a comunidade, local e regional. Estamos percorrendo alguns municípios com oficinas de fotografias, com uma equipe educativa. Estamos em busca desse museu que também vai em busca do público e constrói junto com ele", conclui a coordenadora.

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