Entrevista

Lembranças da violeira

23:08 · 09.08.2003
INEZITA BARROSO: cantora paulistana continua interpretando os maiores clássicos caipiras, além de outros sucessos da música brasileira
INEZITA BARROSO: cantora paulistana continua interpretando os maiores clássicos caipiras, além de outros sucessos da música brasileira ( Divulgação )
Moda é com ela mesmo. Moda de viola, caros senhores e senhoras dos estilos. Faça junho ou fevereiro, Inezita Barroso veste a camisa da cultura caipira, sem pedir licença. É moda, cateretê e outras milongas tiradas, de preferência, naquelas dez ou doze cordas de aço, de variadas afinações e formatos, herança da nossa tradição ibero-árabe, nas danças e brinquedos do interior do País. Mas a viúva do cearense Adolfo Cabral Barroso também tem outros charmes. Aos 78 anos, a cantora e apresentadora mostra que sua elegância pessoal e musical não se restringe ao verdadeiro universo sertanejo. Com produção de Fernando Faro e arranjos de Théo de Barros, seu octogésimo álbum, “Hoje lembrando” (Trama), registra a versatilidade de Inezita ao interpretar antigos sucessos, mas que saem um pouco da linha caipira com que ela se tornou conhecida pelas novas gerações. Confira a seguir, trechos da entrevista concedida por Inezita ao Caderno 3 e um pouco das rondas desta violeira de todas as modas

Caderno 3 — Vamos começar pelo “Hoje Lembrando”, que foi gravado em cinco horas, com produção do Fernando Faro, arranjos camerísticos do Théo de Barros e um repertório de antigos sucessos, mas que não enfatiza a música caipira.

Inezita Barroso- Pois é, esse é um repertório que eu canto muito em recitais, fora da tevê. Porque marcou muito já este gênero caipira, na tevê, então, não adianta eu ficar gravando sempre, tem que dar um tempo, né? Foi super-fácil fazer este disco com o Faro e o Théo, atendendo a pedidos, já que eu cantei muito essas músicas em shows, em recitais. Mas a gente quis reduzir o acompanhamento porque algumas foram gravadas com grande orquestra. E o Théo fez isso muito bem, eu o escolhi porque eu me identifico bem com ele, já cantei em shows com ele e dei toda a liberdade para ele fazer. Quando ele me mostrou, adorei. A gente já se encontrou em um álbum recente, o “Perfil de São Paulo” e em algumas temporadas, em teatro, com o show “Prepare o seu coração”.

— Você procura, então, fugir do rótulo de cantora caipira?

Inezita Barroso- Sim, são títulos que você ganha sem saber como, dão pra gente sem você pedir (risos). Sempre cantei todo tipo de música, mas como, há 23 anos, este programa caipira está no ar, então isso está muito marcante, está muito demais. Então, de vez em quando eu preciso fugir um pouquinho porque o pessoal quer ouvir também as outras coisas. Então, gravei estas músicas porque eles vão nas lojas e não encontram, né? Eles ficam desesperados, pedem pelo amor de Deus para eu gravar, nem que seja numa fitinha. Mas eu não tenho estúdio, não dá para gravar uma fitinha para todo mundo. Aí comecei a marcar o que eles gostam mais e chegamos nessas 13 músicas.

— Exclui, claro, muita coisa que já tinha sido gravada até neste “Perfil de São Paulo”, como “Ronda”, de que você foi a primeira a gravar há 50 anos... Em compensação, você vem com duas músicas inéditas.

Inezita Barroso- É, nesses discos anteriores tem a “Cadê José”, a “Ronda”, que são da coleção dele, e essas duas inéditas, que eu achei na gaveta, a “Bem iguais” e a “Recompensa”. Nem ele (o compositor Paulo Vanzolini) sabia.

— Pouca gente conhece também a ligação do Vanzolini com a cultura popular do interior...

Inezita Barroso- Isso é uma coisa muito forte na música dele, mas é algo que muito pouca gente conhece. Eu considero a poesia dele muito melhor, bem típica paulista, essa fala de rua, esse misturado de negro com italiano, ele tem uma série de poesias lindas, nesse estilo, muito engraçadas, muito regionais. Ele faz essa ponte porque pesquisou essas linguagens, que você ainda encontra em alguns bairros de São Paulo.

— Ao contrário de algumas pessoas que você já criticou, ele não se aproveita do repertório popular, ele sempre registra que recolhe essas referências do folclore, como é o caso da “Cuitelinho”...

Inezita Barroso- É, ele nunca, ao contrário de muita gente. Isso foi recolhido seriamente, como eu e ele recolhemos a “Moda da onça”, no interior daqui de São Paulo. Foram feitas mais de seis coisas em cima de trabalhos dos outros. Ainda mais essas poesias urbanas, do negro com o italiano, a linguagem é super regional e eu acho que ninguém fez isso. Um pouquinho o Adoniran Barbosa, mas o Paulo foi antes. Eu não sei porque ele não publica isso, que é muito bom.

— Esse seu octogésimo disco está saindo pela Trama. Embora ele não seja um álbum de música caipira, nos últimos anos, a gravadora que tem se dedicado a esse gênero vem sendo a Kuarup. Você acompanha essa produção, né?

Inezita Barroso- Não, eu não conheço bem, só sabia do Pena Branca, que eu gravei até uma faixa no CD dele. Mas eu não conheço outros que estão gravando lá.

— Tem muita gente boa, como o Chico Lobo, que já foi no teu programa...

Inezita Barroso- Ah, o Chico é bárbaro, adoro ele.

— Mas você acredita que a indústria cultural está se abrindo mais para a cultura caipira, para a cultura brasileira, de modo geral?

Inezita Barroso- Está. Graças a Deus, agora tem um movimento muito bom. Ficou parado uns tempos, principalmente em São Paulo. Parece que a gente não tem música, não tem ritmos, não tem danças, nada... Ficou muito apagado. Mas parece que agora estão aparecendo pessoas conscientes de que isso é importante, conscientes de que a gente vem daí mesmo, da raça. Então, parece que tem gente cuidando melhor disso.

— Você sente que isso está sendo incentivado pelos nossos secretários, nossos ministros, musicais ou não?

Inezita Barroso- (risos) Faz-me rir... Eu pesquiso música folclórica, há quase 60 anos, só com o meu dinheiro. Nenhum tostão de fora. Já percorri o Brasil inteiro, umas duas ou três vezes, tudo com o meu dinheiro. Só uma vez que me emprestaram um jipe da UNE, com o qual eu fui até o Nordeste. Foi uma viagem muito bacana porque não tem estrada pelo litoral e a gente entrava bastante, depois saía logo adiante (risos). E eu fui até Pernambuco. Foi ótimo porque me emprestaram o jipe e eu acabei não quebrando o meu carro (risos). Fui com o meu cunhado e um amigo nosso do Rio, que era interessado no assunto, mas os dois não dirigiam, eu que dirigia (risos). Aí eu tive que voltar porque tinha ganho aquele Roquette Pinto de ouro, né, que era todo cheio de histórias, e aí vim voando, direto quase, dormindo muito pouco.

— Isso foi nos anos 60, quando você refez um pouco do roteiro de seu vizinho e seu velho ídolo, Mário de Andrade. Ele incentivou muito a tua trajetória?

Inezita Barroso- Olha, eu sou bibliotecária e fiz o estágio na Biblioteca da USP. E a biblioteca era perfeita, maravilhosa, enorme. Quando achei os livros do Mário lá, eu não parava de ler, chegava mais cedo, antes de fazer as fichinhas, de fazer o estágio, e acabei lendo tudo. Muito pouca coisa dele foi reeditada, eu acho que devia ser uma coisa mais cuidada, eu não sei qual é o desinteresse por estas coisas tão importantes. E a linguagem que ele criava, principalmente no “Macunaíma”, é super-interessante. Depois acabaram valorizando mais outros escritores, mas ele veio primeiro.

— E, naturalmente, ele também abriu horizontes para você pesquisar a questão da música.

Inezita Barroso- Ah, claro. Eu me interessava muito, depois quando fui para o Nordeste a primeira vez, eu fiquei louca. Muito lindo... Mas eu queria ir porque eu lia aquelas coisas lindas, aqueles repentes e tudo... Eu tenho que ver isso de perto, de qualquer maneira.

— Agora, essa admiração vinha de antes, do tempo em que você começava a dedilhar a sua viola, porque vocês eram vizinhos, né?

Inezita Barroso- Éramos, mas eu não cheguei nunca a falar pessoalmente com ele. Porque havia uma grande diferença de idade. Ele era um homem assim famoso, professor, respeitado, e eu tinha uns nove, dez anos de idade. Mas a minha tia foi aluna dele e falava as maravilhas todas, eu ficava babando, né? Ter uma criatura dessa tão perto e eu não consigo falar com ele... Imagina se ele ia olhar para uma menina de nove anos? (risos).

— Quer dizer, ficou mesmo para os livros.

Inezita Barroso- Ficou. Depois, quando eu tive chance de conhecer, ele acabou morrendo, nessa época. Não deu.

— Na infância, você já começou a dedilhar a viola, escondida da tua família. Esse interesse só se aprofundou depois dessas leituras e dessa viagem?Quais os aspectos da cultura popular que mais te fascinavam?

Inezita Barroso- Não, a gente ia muito para a fazenda, nas férias, os primos, que eram muitos, e era um deslumbramento para a gente Festa do Divino, Dança de São Gonçalo, catira, um negócio que na cidade não tinha, né? Então, a gente não queria mais voltar para São Paulo (risos). Era um inferno para trazer a gente de volta. E você ficava ali, misturado, aprendia uns passinhos de catira, só que menina era meio condenada, mulher era para ficar em casa.

— Tinha muito preconceito.

Inezita Barroso- Muito, muito. Que ainda existe. Parece brincadeira, mas ainda existe. Aí, eu peguei o que pude, nessas andanças pelas fazendas, tomei nota de muitas letras, de muitas modas de viola, que depois vim a ouvir com outras duplas, com profissionais. E fiquei gostando muito desse estilo por causa das letras também e do jeito de tocar a viola que varia de lugar para lugar. É uma beleza, é um instrumento riquíssimo, a viola. Aí, me casei com um cearense, que me incentivou bastante.

— Como era o nome dele? Vocês vinham muito aqui?

Inezita Barroso- Adolfo Cabral Barroso. Ele era de Fortaleza. A família da minha sogra também era do Ceará, os Cabral. Era muita gente. Quando eu ia aí, era um auê danado. Eu fui várias vezes. Na primeira, fiquei louca. Recolhi material aí, em Pernambuco, na Paraíba. Aí quando fui para Pernambuco, eles queriam que eu fizesse um recital no teatro Santa Isabel, e foi lá a minha grande estréia (risos). Eu não tinha nem levado o violão porque fui pesquisar.

— E depois você se apresentou na rádio de lá, né?

Inezita Barroso- Na Rádio Clube de Recife. Eu fiquei dois meses lá, o Capiba que convidou.

— Sempre com o incentivo do Seu Adolfo, né?

Inezita Barroso- É porque ele gostava demais. Gostava de música, a família dele toda.

— Ao contrário do seu avô, né?

Inezita Barroso- É, essa história é trágica.

— Ele proibia sua avó de cantar, mas uma vez você a ouviu e se encantou.

Inezita Barroso- Eu fiquei louca porque raramente ela cantava. Tocava um pouco de piano e a filha dela é que era a aluna do Mário. Então, era um negócio assim: Mário de Andrade! Ele era um deus lá. Eu ouvia muito falar. E ouvindo a avó tocar e a tia, eu fiquei louca (risos).

— Então, recapitulando, o Nordeste tem uma parcela muito grande nessa sua admiração pela música popular.

Inezita Barroso- Tem, muito. Eu fiquei louca com o maracatu, o coco, o repente, então, uma coisa maravilhosa. Viajei pelo interior de Pernambuco também. Porque tinha várias rádios da mesma cadeia e eu fiz Garanhuns, Caruaru, andei por lá tudo. Amada e amando (risos). Porque eu cantava para eles as músicas daqui, então era novidade. Depois que o Luiz Gonzaga trouxe bem a música nordestina, então, eu fiquei louca, né? Fiz espetáculos com o Luiz, também, no Rio, no Teatro das Seis e Meia, onde geralmente as temporadas duravam só uns três dias e a gente ficou um século (risos). Depois fiz uma temporada, também no Teatro das Seis e Meia, com a Banda de Pífanos de Caruaru, os Biano, que aliás estão aqui na Trama também.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.