Ensaio

José Saramago e a jangada ibérica

00:30 · 20.04.2013
São claros os indícios de lusofonia presentes na obra A Jangada de Pedra, entretanto, paralelamente a estes, encontramos também, a forte defesa do ideal de formação do Estado ibérico. Ideia que, de certo modo, entra em choque com a proposta lusófona. Isto porque, admitido o iberismo, a autonomia de Portugal, enquanto país, estaria comprometida. A defesa feita por Saramago a favor do Iberismo, também em entrevistas, provocou muitas críticas entre os próprios portugueses, principalmente entre os defensores mais acirrados do patriotismo lusitano.

A motivação

Nossa pesquisa nos levou à surpresa de descobrir, o que até então desconhecíamos: a quantidade exorbitante de críticas feitas a Saramago, por muitos portugueses, em função da defesa das ideias iberistas e até mesmo pela publicação de A Jangada de Pedra.

É ainda imprescindível esclarecer que o iberismo revelado no romance ocorre como uma consequência do europeísmo, ou seja, é por se sentirem discriminados pelos europeus que os povos peninsulares decidem-se por separar-se da Europa. Em muitas partes do romance, o narrador revela esse sentimento de mágoa em relação aos europeus, como é o caso desta seguinte, na qual ele comenta sobre o “alívio” sentido pela Europa com a partida da Península: (TEXTO V)

Outro momento bem ilustrativo do europeísmo ocorre quando o primeiro ministro português fala ao povo. Este fragmento, além de documentar o iberismo como protesto diante do europeísmo, antagonicamente, também pode ser visto como ilustrativo da lusofonia, uma vez que, só o ministro português fala, enquanto o espanhol em nada se manifesta, documentando assim, mais uma vez, a supremacia concedida a Portugal, diante do emudecimento das autoridades espanholas: (Texto VI)

Da ironia

O narrador, mais uma vez, e em tom irônico e portando certa dose de preconceito, refere-se ao europeísmo e concede uma importância maior à Suíça em relação aos povos peninsulares e a outros povos europeus: (Texto VII)

Expressa o descaso dos europeus em relação aos povos peninsulares, desqualificando a navegação ibérica, por analogia, a portuguesa, por meio do adjetivo “desmastreada”.

Há, portanto, neste uso a desconstrução explícita de um dos símbolos da glória portuguesa, a navegação, aqui tratada com descaso, o que podemos ver como mais uma expressão de europeísmo.

Conclusão

A análise de A Jangada de Pedra nos revelou, por meio da comparação entre os destaques feitos na Jangada Lusitana e na Jangada Ibérica, a existência do paradoxo ideológico entre a lusofonia e o iberismo. Ao mesmo tempo em que o narrador faz a exaltação dos valores lusitanos, também defende a união de Portugal e Espanha. Em outras palavras, temos não só a presença das ideias lusófonas, metaforizadas em passagens da obra, mas também, paradoxalmente, a defesa do ideal iberista. Além disso, a leitura da obra nos levou a constatar a supremacia do iberismo sobre a lusofonia. Embora os valores da pátria lusitana estejam contemplados na narrativa é o iberismo que a eles se sobrepõe.

Essa constatação metaforizada no corpo da obra parece-nos reveladora do posicionamento político do autor, uma vez que, ao acompanharmos as declarações políticas dele como jornalista, constatamos que elas também se revelam através da literatura. Essa constatação ganha força se recordarmos aqui o posicionamento político de Saramago em relação ao europeísmo e ao iberismo. Sabemos, por meio de declarações do próprio autor que, como militante comunista, ele sempre protestou contra os governos de países europeus de orientação fascista, como a Alemanha, Itália, Espanha e o próprio Portugal durante a ditadura de Salazar. Para se posicionar contra o regime ditatorial fascista, Saramago defendeu não só os valores nacionais lusitanos, mas também, em épocas distintas, o iberismo, como formas de protesto contra esta Europa fascista. Em A jangada de Pedra temos esses posicionamentos bem representados. Vejamos, no fragmento seguinte recortado de uma entrevista concedida a Folhas de Cibrão. Revista Universitária de Investigação Científica (1990), como se posiciona o autor em relação a esta questão política: (Texto VIII)

Entrevistas como esta nos autorizam a afirmar que as metáforas literárias em muitos romances de Saramago, entre eles A Jangada de Pedra, são, muitas vezes, representações do pensamento político do autor. Esta obra e muitas outras de Saramago, não se encaixam na verdade contida nos seguintes versos de Pessoa: “o poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente.” Trocando-se a palavra “poeta” por romancista, podemos dizer que Saramago não fingiu quando ficcionalizou a realidade histórica do seu país; pelo contrário, viveu as suas dores e as revelou, metaforizadas, em seus romances. O jornalista se revela por meio do ficcionista.

Considerando que os ideais da lusofonia e do iberismo são quase incompatíveis e constatando ainda que Saramago intensifica neste romance a defesa do iberismo, podemos entender a indignação de tantos portugueses que criticam o romancista quando este defende a união ibérica.
Esse posicionamento aponta para o enfraquecimento da unidade lusófona. Ao mesmo tempo, entendemos, após estudar vida e obra do autor que, a defesa do iberismo em detrimento da lusofonia é também uma resposta de Saramago às críticas e proibições feitas, pelos próprios portugueses, às suas obras e posicionamentos políticos. (H. L.)

SAIBA MAIS

CUNHA, Luís. Terras lusitanas e gentes dos Brasis: a nação e o seu retrato literário. Revista de Ciências Sociais, v. 40, n. 2, 2009

FREIXO, Adriano de. Minha pátria é a língua portuguesa: a construção da ideia de Lusofonia em Portugal. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009

PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1976

PETSCHEN, Santiago. Jornal Diário de Noticias, Madrid, out. 2013.

SARAMAGO, José. A Jangada de Pedra. In: Obras de Saramago - v.III. PORTO: Lello, 1991

Trechos

TEXTO V

Os europeus, desde os máximos governantes aos cidadãos comuns, depressa se tinham acostumado, suspeita-se com um inexpressivo sentimento de alívio, à falta das terras extremas ocidentais, e se os novos mapas, rapidamente postos em circulação para atualização cultural do popular, ainda causavam à vista um certo desconforto, seria tão somente por motivos de ordem estética, ..." (SARAMAGO, 1988, p. 153).

TEXTO VI

O primeiro-ministro falou aos portugueses, e disse, Portugueses, durante os últimos dias, com súbita intensificação nas últimas vinte e quatro horas, tem vindo o nosso país a ser alvo de pressões, que sem exagero poderei classificar de inadmissíveis, provenientes de quase todos os países europeus onde, como é sabido, se tem verificado sérias alterações da ordem pública, que se viram subitamente agravadas, sem qualquer responsabilidade nossa, pela descida à rua de grandes massas de manifestantes que, de maneira entusiástica, quiseram exprimir a sua solidariedade com os países e povos da península, o que veio evidenciar uma forte contradição em que se debatem os governos da Europa, a que já não pertencemos, diante dos profundos movimentos sociais e culturais desses países, que vêem na aventura histórica em que nos achamos lançados a promessa de um futuro mais feliz e, para tudo dizer em poucas palavras, a esperança de um rejuvenescimento da humanidade. (SARAMAGO, 1988, p. 160).

TEXTO VII

...para certos europeus, verem-se livres dos incompreensíveis povos ocidentais, agora em navegação desmastreada pelo mar oceano, donde nunca deveriam ter vindo, foi, só por si, uma benfeitoria, promessa de dias ainda mais confortáveis, cada qual com seu igual, comecámos finalmente a saber o que a Europa é, se restam nela, ainda, parcelas espúrias que, mais tarde ou mais cedo, por qualquer modo se desligarão também. Apostemos que em nosso final futuro estaremos limitados a um só país, quinta-essência do espírito europeu, sublimado perfeito simples, a Europa, isto é a Suíça. (SARAMAGO, 1988, p. 153).

TEXTO VII

Não, não, a Europa não. A Europa iria acabar com a Galiza, com as Astúrias... Não espero nada de bom da Europa. Aquilo que eu acho é que a situação pode modificar-se muito a partir do momento em que ache uma Espanha federativa, em que a Espanha não seria mais já esta coisa híbrida que não se sabe se é um país só, se é um conjunto de nacionalidades, e em que as autonomias se vão conquistando muito lentamente, e pouco a pouco. A solução para a Espanha é chegar à figura de uma federação. Então as relações entre Portugal e a Espanha deixariam de ser, como são, predominantemente relações bilaterais, entre Estado e

Estado, para se tornarem relações multilaterais, relação entre Portugal e Catalunha, entre Portugal e Andaluzia, entre Portugal e a Galiza.

Neste processo, sobretudo do ponto de vista cultural, neste processo circular em tudo comunica com tudo, então penso que a situação aí se modificará.

Disponível em: http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait/sr067.htm.

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