Ensaio

José de Alencar: o pedagógico da tragédia

00:51 · 31.08.2013
José de Alencar exerceu a carreira de dramaturgo juntamente com o ofício de romancista. Veja-se a representação do escravo nas tragédias burguesas Mãe; e Demônio Familiar

O teatro, inicialmente, tinha, aqui, a intenção de "educar", ou seja, domesticar os índios, empurrando-lhes valores europeus. A carreira de José de Alencar no teatro foi efêmera, mas muito proveitosa e deslumbrante. Apontava ele os erros da burguesia, numa consciente tentativa moralizadora.

Goffman utiliza a metáfora do teatro para definir a comunicação identidária: os participantes estão engajados em um evento comunicativo de ação social; assumem o papel de atores sociais e acabam por criar um efeito dramático para manejar a apresentação do seu ser. A comunicação será o momento de construção e projeção para desejáveis versões de identidades. Essas versões serão sucessivas performances que se direcionaram a uma audiência específica. Assim, é apresentado o drama a um público do qual irá desencadear uma audiência; esta é dinâmica, pois mais de um personagem aparece, juntamente com outras linguagens (verbal ou não verbal)

Mãe: tragédia burguesa

A peça "Mãe", de José de Alencar, constitui-se de quatro atos que culminam para o fim trágico. O objetivo da apresentação e análise é entender quais os elementos utilizados por Alencar para tecer sua pintura sobre a moralidade burguesa em relação ao escravismo. A peça foi encenada em 1960, mas antes de sua estreia, ele havia publicado um artigo que praticamente estabelece uma plataforma para o teatro Realista no Brasil: além da adoção de modelos franceses, são postas, ainda, algumas ideias a respeito do drama.

A trama

Logo no primeiro ato, as personagens são apresentadas, bem como quase todo o conflito principal. O senhor Gomes, pai Da jovem Elisa, endividado, recebe a visita do oficial de justiça Vicente e do cobrador de impostos Peixoto que lhe traz os documentos financeiros a serem pagos. Gomes não tem dinheiro, e o problema vai tornar-se ainda mais grave. Peixoto diz que o documento foi falsificado e acusa Gomes como o responsável, diz-lhe que irá retornar às quatro horas para resgatar a dívida e, caso ela não seja paga, irá à polícia. Gomes, que é inocente, ameaça se matar com um vidro de veneno, por conta da vergonha pública.. Ele não tinha como provar sua inocência e tal acusação iria desonrar sua família. A filha Elisa, então, preocupada com o pai entra em pânico.

No desenvolver da trama, Elisa e Jorge declaram-se apaixonados um pelo outro, mesmo estando cientes das dificuldades do pai de Elisa, que impedem a união do casal no momento. Jorge é o personagem principal, o herói trágico. Ele é um jovem bom e trabalhador, estudante de Medicina e professor de piano da moça. Ainda no primeiro ato é apresentada à escrava Joana que mora com Jorge. Foi ela quem criou Jorge quando o padrinho que cuidava dele faleceu. Ela também presta serviços caridosamente a Elisa. Joana é a maior incentivadora do casamento dos jovens, que ruborizam todas as vezes que ela toca no assunto.

Outro andamento

No segundo ato, Joana recebe Doutor Lima na casa de Jorge. O Doutor é um antigo amigo do Jorge e uma espécie de raisonneur da peça. Esse termo é uma adoção que José de Alencar faz dos modelos teatrais franceses.

O raisonneur é um personagem que serve como porta-voz do autor. É um instrumento para desmontar o mecanismo social da época. Um comentarista de ação que critica moralmente os personagens.

Jorge acredita que o Doutor Lima é o responsável por pagar sua educação, o que é feito por Joana, sua escrava, que se revela sua mãe natural. Ela pede, no entanto, para que o Doutor jamais declare a alguém tal fato, pois teme envergonhar o jovem. Jorge chega e após saudar a volta de Lima, diz que irá concretizar um antigo desejo e entrega uma carta de alforria a Joana, que a rejeita, acaba por guardá-la quando Jorge alega que, mesmo livre, a escrava pode continuar com ele, morando com ele e próxima para cuidar dele.

O moço fica sabendo das dificuldades de Gomes e propõe a ajudá-lo, mediante um adiantamento financeiro do Doutor Lima, que sai às pressas para buscar seu dinheiro, ainda preso nos trâmites de desembarque da viagem que fez. Como o Doutor demora, pois só consegue o dinheiro para o outro dia, Jorge sai na tentativa de empenhar os móveis de sua própria casa e conseguir a quantia necessária para ajudar Gomes.

O jovem recebe na sua casa o cobrador de impostos Peixoto sem saber que ele havia ameaçado Gomes. O cobrador vai a sua casa para tratar da penhora dos bens de Jorge. Não sendo suficiente a quantia para honrar as dívidas do pai de Elisa, o usurário Peixoto propõe a Jorge que empenhe sua escrava. O moço horroriza-se com a ideia, mas revela a Joana que já havia feito um negócio semelhante anteriormente. Ela se apressa em ajudar a realizar os desejos do jovem e rasga a carta de alforria, propondo-se a ser escrava de Peixoto.

O epílogo

Jorge, sem ver saída para o caso de Gomes, aceita a proposta de Peixoto, na condição de resgatar Joana no dia seguinte com o dinheiro do Doutor Lima. O moço consegue então sanar os débitos de Gomes, mas condói-se ao ver Peixoto maltratando Joana. Quando Jorge paga a dívida de Gomes, ele vai a casa do moço com Elisa para agradecer, e Jorge aproveita a deixa e com a ajuda de Lima pede Elisa em casamento e o seu pai de imediato aceita. No dia seguinte Joana foge da casa de Peixoto, para prepara a refeição matinal de Jorge.

O Doutor Lima, já no quarto e último ato, aparece com o dinheiro, mas ao saber que, Jorge havia empenhado Joana para obter o pagamento um dia antes, até às quatro horas, como prometera o cobrador, diz escandalizado "Tu vendeste tua mãe" (ALENCAR, s/d, p. 201). Joana foge envergonhada nesse momento.

Nesse momento, Gomes desfaz o casamento; e Jorge o critica dizendo que se não fosse a escrava Gomes estaria morto. Mas o vidro de veneno foi roubado de sua casa por Elisa que o entregou a Jorge para que ele se desfizesse dele. Joana, então, encontra o vidro e diz ao rapaz que vai guardá-lo.

Todos, depois da revelação de que Joana é mãe de Jorge, saem à procura de Joana, que ao ser encontrada, está agonizando, pois havia tomado o veneno de Gomes. Joana, ainda na beira da morte, nega que seja mãe de Jorge, mesmo com ele pedindo para que o chame de filho ao menos uma vez. Joana morre nos braços de Elisa. Gomes encerra a cena dizendo que Joana abençoou a santa união dos jovens.

LUANA DA PONTE AGUIAR & STÉPHANIE MARIA DE ASSIS FERREIRA
COLABORADORAS

Do Curso de Letras da Uece

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