Ensaio

Jorge de Lima: singularidades do discurso literário

Dentre os poetas da segunda geração modernista, Jorge de Lima apresenta uma escritura singular

00:00 · 04.05.2014

O grande poeta Jorge de Lima é reconhecido pelos leitores brasileiros como o poeta de várias escolas literárias, passeando e inaugurando cada uma delas. Em 1907, com seu primeiro soneto O Acendedor de Lampiões - poema parnasiano- torna-se conhecido pela imagem e fantasia elaborada num domínio das palavras.

Seus poemas intrigantes deixam uma polêmica entre os estudiosos devido à expansão dos passeios pelas estéticas literárias. Inicialmente inaugurou o parnasianismo com seu XIV Alexandrinos percorrendo pela poesia social e religiosa que o fez redescobrir o Brasil de sua infância. Inaugurou a poesia religiosa em O Tempo e Eternidade, em parceria com Murilo Mendes, predominando uma militância católica. Em Anunciação e encontro com Mira-Celi um suave catolicismo permeia os versos do poeta.

Novos rumos

Chegou ao modernismo em 1925 com o poema O Mundo do Menino Impossível, poema de versos livres, republicado em Poemas, em 1927. Foi com o poema modernista Negra Fulô que o Brasil o reconheceu e o consagrou. Em parceria com Murilo Mendes em Tempo e eternidade, sua imagem sofreu metamorfose conceitual entre os críticos. Em seu poema épico Invenção de Orfeu, de 1952, Jorge de Lima deixa um dúbio valor pela ausência de consistência interpretativa dos leitores e críticos da época. Tal obra é permeada pelo universalismo e se aproxima da poesia pura encontrada no lirismo, consoante a leitura de sonetos como o que se segue: (Texto I) É importante ressaltar que, a partir do livro "Tempo e eternidade", datado de 1931, ganha relevo, no discurso do poeta Jorge de Lima, as recorrências bíblicas, bem como os laivos de surrealismo, fazendo com que sua poesia granhe contornos de complexidade, com notas de figurativas, alegóricas com certeza, com certa predileção pelas imagens oriundas da simbologia dos mares - algas, flores aquáticas, peixes etc -, conduzindo tudo em direção a situações caóticas, numa sensação permanente de que tudo caminha para a destruição. Nesse sentido, leiam-se os versos a seguir: (Texto II)

Outra leitura

Os professores A. Medina Rodrigues, Dácio Castro e Ivan Teixeira, em Antologia da Literatura Brasileira (1979) destacam que Jorge de Lima como sendo um poeta mediúnico, numa referência ao chamado vate, possesso, energúmeno: (Texto III)

Tais considerações decorrem do fato de que, a rigor, determinados poetas passam aos leitores a impressão de que foram soprados ou ou inspirados por um gênio - o que, por certo, advém do magnetismo que se evola de seus versos, sempre em direção aos enigmas do ser.

FIQUE POR DENTRO
Notas acerca do autor e de sua obra

Em 23 de abril de 1893 em União dos Palmares, Alagoas, nasce o renomado poeta modernista Jorge Mateus de Lima. Filho de um senhor de engenho e de Delmina Simões de Mateus de Lima, viveu próximo ao quilombo de Zumbi na Serra da Barriga. Jorge de Lima iniciou seus estudos em União seguindo para o Colégio dos Irmãos Maristas, Maceió. Começou a escrever no jornal da escola publicando os próprios poemas. Aos 14 anos ficou conhecido como o poema "Acendedor de Lampiões". Seu primeiro livro, "XIV Alexandrinos", de influência parnasiana, foi publicado em 1914. Fez faculdade de medicina em Salvador, finalizando seus estudos no Rio de Janeiro. Após a formação envereda na vida política pelo Partido Republicano, em 1926. Morre no Rio de Janeiro a 15 de novembro de 1953.

Trechos

TEXTO I

Era um cavalo todo feito em lavas / recoberto de brasas e de espinhos. / Pelas tardes amenas ele vinha / e lia o mesmo livro que eu folheava. /// Depois lambia a página, e apagava / a memória dos versos mais doridos; / então a escuridão cobria o livro,

/ e o cavalo de fogo se encantava. /// Bem se sabia que ele ainda ardia / na salsugem do livro subsistido / e transformado em vagas sublevadas. /// Bem se sabia: o livro que ele lia / era a loucura do homem agoniado / em que o íncubo cavalo se nutria.

TEXTO II

Contemplar o jardim além do odor / e a mulher silenciosa entre semblantes, / e refazê-los todos, todos antes/ que o tempo condenado os atraiçoe. / Porque eu quero, em memória refazê-los: À procura da / flor longínqua, mulher, não pertencida, face perdida / substância inexistente, móvel vida, / intercessão de nadas e cabelos. / E meus olhos ausentes me espiando / entre as coisas caducas e fugaces / a minha intercessão em outras faces. / Orfeu, para conhecer teu espetáculo, / em que queres senhor, que eu me transforme, / ou me forme de novo, em que outro oráculo?

TEXTO III

...Pois seu corpo servia de instrunnto aos deuses ou demônios que se utilizavam dele e produziam uma fala simbólica e bonita. Isto já foi explicado por Platão , e é por isso que ele não gostava dos poetas. Achava que os poetas não sabiam o que falavam, mas eram tomados pelas Musas, e, pirados, só poderiam ser prejudiciais numa socieade democrática.TEXTO I

Era um cavalo todo feito em lavas / recoberto de brasas e de espinhos. / Pelas tardes amenas ele vinha / e lia o mesmo livro que eu folheava. /// Depois lambia a página, e apagava / a memória dos versos mais doridos; / então a escuridão cobria o livro,

/ e o cavalo de fogo se encantava. /// Bem se sabia que ele ainda ardia / na salsugem do livro subsistido / e transformado em vagas sublevadas. /// Bem se sabia: o livro que ele lia / era a loucura do homem agoniado / em que o íncubo cavalo se nutria.

TEXTO II

Contemplar o jardim além do odor / e a mulher silenciosa entre semblantes, / e refazê-los todos, todos antes/ que o tempo condenado os atraiçoe. / Porque eu quero, em memória refazê-los: À procura da / flor longínqua, mulher, não pertencida, face perdida / substância inexistente, móvel vida, / intercessão de nadas e cabelos. / E meus olhos ausentes me espiando / entre as coisas caducas e fugaces / a minha intercessão em outras faces. / Orfeu, para conhecer teu espetáculo, / em que queres senhor, que eu me transforme, / ou me forme de novo, em que outro oráculo?

TEXTO III

...Pois seu corpo servia de instrunnto aos deuses ou demônios que se utilizavam dele e produziam uma fala simbólica e bonita. Isto já foi explicado por Platão , e é por isso que ele não gostava dos poetas. Achava que os poetas não sabiam o que falavam, mas eram tomados pelas Musas, e, pirados, só poderiam ser prejudiciais numa socieade democrática.TEXTO I

Era um cavalo todo feito em lavas / recoberto de brasas e de espinhos. / Pelas tardes amenas ele vinha / e lia o mesmo livro que eu folheava. /// Depois lambia a página, e apagava / a memória dos versos mais doridos; / então a escuridão cobria o livro,

/ e o cavalo de fogo se encantava. /// Bem se sabia que ele ainda ardia / na salsugem do livro subsistido / e transformado em vagas sublevadas. /// Bem se sabia: o livro que ele lia / era a loucura do homem agoniado / em que o íncubo cavalo se nutria.

TEXTO II

Contemplar o jardim além do odor / e a mulher silenciosa entre semblantes, / e refazê-los todos, todos antes/ que o tempo condenado os atraiçoe. / Porque eu quero, em memória refazê-los: À procura da / flor longínqua, mulher, não pertencida, face perdida / substância inexistente, móvel vida, / intercessão de nadas e cabelos. / E meus olhos ausentes me espiando / entre as coisas caducas e fugaces / a minha intercessão em outras faces. / Orfeu, para conhecer teu espetáculo, / em que queres senhor, que eu me transforme, / ou me forme de novo, em que outro oráculo?

TEXTO III

...Pois seu corpo servia de instrunnto aos deuses ou demônios que se utilizavam dele e produziam uma fala simbólica e bonita. Isto já foi explicado por Platão , e é por isso que ele não gostava dos poetas. Achava que os poetas não sabiam o que falavam, mas eram tomados pelas Musas, e, pirados, só poderiam ser prejudiciais numa socieade democrática.

Do Curso de Letras da Uece

 

Anastácia Helena Ribeiro
Especial para o ler*

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