Música

Jobim por Caymmi

No ano em que Tom Jobim completaria 90 anos, Danilo Caymmi lança disco com canções do maestro

Danilo Caymmi celebra a música de Tom Jobim em 11 canções ( Foto: Fabiane de Paula )
00:00 · 21.03.2017

O enlace afetivo iniciou-se ali, em 1964, quando Danilo Caymmi - na altura de seus 15 anos de idade - visitou Tom Jobim, à época recém-chegado dos Estados Unidos. Estava acompanhado do pai, Dorival Caymmi, e dos irmãos Nana e Dori. Portava flauta e poucas expectativas para o encontro, que resultaria no disco "Caymmi visita Tom e leva seus filhos Nana, Dori e Danilo", lançado naquele ano e relançado em 2008.

"Era estudante e estava mais preocupado com a prova de Química que faria no outro dia do que com qualquer outra coisa", confessou o músico, em tom irreverente, ao Caderno 3, por meio de um diálogo face a face, em que se pôde perceber a efervescência que as palavras ditas ressoavam nos sentimentos externados pelo músico.

Mesmo com a aparente desatenção para com o projeto, algo mudou no jovem Danilo - o rebento mais novo de Dorival - quando ele conferiu, de perto, o talento que fazia de Tom o artista já tão amplamente reconhecido naquele tempo. Fez-lhe volver um olhar mais apurado para a música. Jobim, não à toa, foi o primeiro que o incentivou a não apenas tocar, mas a cantar.

Nota-se que é um sentimento de gratidão pelo mestre que move o disco "Danilo Caymmi canta Tom Jobim", lançado no último mês de janeiro, período dos mais nobres: se vivo, Jobim completaria 90 anos. E é em tom de homenagem, no melhor estilo "de amigo para amigo", que o trabalho chega junto ao público.

Ao todo, 11 canções do celebrado maestro carioca são interpretadas de modo íntimo, pessoal, resultado de um processo imersivo por parte de Danilo. Imersivo porque familiar: são as músicas mais queridas de pessoas como seu pai e sua mãe que integram o registro, sobrando espaço para que lembranças da infância e da juventude - tempo este em que foi um dos membros da "Banda Nova", capitaneada por Jobim - aflorem, ganhem corpo, organismo musical.

Estética

Iniciando o processo de gravação do disco descompromissadamente, Danilo conta que foi a partir de um maior contato com o músico Flávio Mendes - produtor musical do CD - que surgiram as primeiras sementes do que viria a ser o projeto.

"Ele conhece o meu olhar, a minha respiração, sabe quando ela está diferente, quando pode alterar o tom de uma interpretação", detalha. Pormenores que conferem um peso maior ao produto final, já acabado.

Na audição, o que prevalece é uma estética minimalista de condução e arranjo das faixas. Sem instrumentos como contrabaixo e bateria, a equipe técnica prima pelo investimento em flautas e violoncelo, tornando orgânica a produção. A voz de Danilo, então, impera, embora não apenas ela.

O músico convidou a cantora americana Stacey Kent para acompanhá-lo numa das faixas, escolhida, inclusive, por ela (sendo, portanto, a única que Danilo não escolheu): "Estrada do Sol", composição assinada por Tom Jobim e Dolores Duran. "Não costumo ouvir muita música em casa, mas, quando escuto, são as da Stacey. Acho-a talentosíssima e fiquei muito feliz pela parceria", comemora o intérprete.

Repertório

Quanto ao repertório, há de se sublinhar que ele obedece a verve subjetiva firmada desde o começo do projeto, não havendo espaço, portanto, para os principais sucessos de Tom Jobim. No lugar deles, entram em audição composições outras, que se aproximam de memórias guardadas por Danilo.

"Bonita" - uma das preferidas de sua mãe, Stella Maris - inicia o disco, sendo logo seguida pela clássica "Ela é Carioca" e "Por causa de você", um eficiente preâmbulo sonoro. Stacey Kent e seu esposo, Jim Tomlinson, surgem na faixa após, "Estrada do Sol", antecipando os versinhos "Tem pena de mim / Ouve só meus ais / Que eu não posso mais / Tem pena de mim", próprias de "Chora Coração".

E o passeio segue, culminando com "Derradeira Primavera", estabelecendo, até lá, uma poderosa conexão entre músico e ouvinte: vai unindo os corações e soerguendo memórias que, decerto, ganharão novos tons a partir da escuta atenta do trabalho.

Turnê

Um fato que Danilo comemora é a questão da amplitude que o disco - com apenas um pouco mais de um mês de lançamento - está ganhando mundo afora, entrando em playlists na Europa e integrando a programação de rádios na Espanha e na Holanda.

Segundo ele, "é uma dimensão grande que o CD está tendo. E creio que isso se deve muito pelo fato de eu ter entendido o poder da força da interpretação e sua capacidade de chegar junto das pessoas".

Especialmente sobre isso de estar mais próximo do público, o músico adianta que brevemente iniciará uma turnê do projeto, começando por Fortaleza. Nos shows, ele pretende ir mesclando as faixas selecionadas para o disco e os maiores sucessos de Jobim, caso de "Garota de Ipanema", por exemplo.

Quanto ao motivo para a escolha da capital alencarina, o componente "intimidade" entra de novo em destaque. "Tenho muitos amigos aqui no Ceará. E queria sair do eixo Rio-São Paulo-Curitiba", desabafa. "É, inclusive, uma boa oportunidade para mim de conhecer a qualidade dos músicos daqui, que, pelo que já vi, fazem um trabalho de altíssima qualidade", reitera.

Danilo Caymmi é todo alegria e poesia. Teria herdado esse jeito de prosa também de Tom Jobim? Fica a questão e, com o CD em mãos, fica a escuta.

Disco

Danilo Caymmi canta Tom Jobim

Danilo Caymmi

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Universal Music

2017, 11 faixas

R$ 29,90

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