Ensaio

João Cabral e a educação pela pedra

00:47 · 03.08.2013
Racional e, de certa forma, desprovido de excessos e de arrebatamentos líricos, João Cabral de Melo Neto tratou sobretudo de temas relacionados ao Nordeste e aos seus marginalizados; além da metapoesia

Publicado em 1965, o livro de poemas "A educação pela pedra" pode ser caracterizado como uma obra multitemática que, a despeito disso, possui certa unidade de tratamento e de sentido: o manejo cerebral e comedido da linguagem. Isto é, apesar de nessa obra, Cabral dissertar sobre uma multiplicidade de temas, os quais vão da relação entre o mar e o canavial até um discurso em homenagem à aspirina, o manejo linguístico realizado pelo poeta brasileiro dá unidade ao livro, visto que todos os poemas da obra em questão caracterizam-se por uma rígida construção formal e certa exiguidade lírica. Assim, João Cabral dá um caráter de pedra aos vocábulos, fazendo-os duros, secos e rochosos. Com efeito, esteticamente, afasta-se de grande parte da tradição poética brasileira, a qual, sobretudo, em seus anos de Romantismo, caracterizou-se pelo exacerbado sentimentalismo.

O poema-título

O poema "A educação pela pedra" é em verso livre, bem ao gosto do Modernismo brasileiro. Com efeito, funciona como uma espécie de síntese do trabalho linguístico realizado no livro, em outras palavras, esse poema explana os principais parâmetros de composição da obra em questão: economia linguística e a parcimônia lírica. Dessa forma, ao longo das duas estrofes do poema, o eu-lírico mostrar-se-á atraído pelo pouco, pelo silêncio e pela dureza das pedras, buscando alicerçar os fundamentos de sua educação a partir destas. (Texto I)

O poema é dividido em duas partes; no primeiro movimento, que acima reproduzimos, o eu-lírico procura delinear e caracterizar a didática das pedras, ou seja, procura mostrar as bases dessa educação rochosa, buscando aprender-lhe os fundamentos e princípios. Assim, o eu-lírico elenca uma série de características dessa educação ligada às pedras: a voz impessoal, a resistência ao que flui e ao fluir e a compactação. Dessa forma, a voz presente no poema vai delineando, através do uso competente de recursos literários, como a repetição de consoantes bilabiais, as quais reforçam características ligadas à resistência e à força, a base da didática das pedras.

Segunda estrofe

Vejam-se, agora, os versos que compõem a segunda parte deste mesmo poema, que, no campo dos recursos expressivos, reforça a simetria: (Texto II)

É possível perceber certa contraposição em relação ao conteúdo vinculado no primeiro momento da composição. Essa afirmação se justifica pelo fato de que o segundo movimento do poema inicia-se pelo pronome adjetivo indefinido "outro", o qual, de certa forma, cria antagonismo com o artigo indefinido "uma", elemento iniciador do primeiro movimento. Assim, o eu-lírico nos coloca que, diferente do que se espera, os que nascem no sertão não necessitam de uma educação pela pedra, visto que esta nasce entranhada em seu pele, amalgamada em seu corpo e incorporada em sua alma.

O sertanejo falando

Assim, torna-se imperativa a observação e a análise de outro impecável poema do livro, sob o título "O sertanejo falando". Nesse poema, também de duas partes, segmentado em duas estrofes, ambas de oito versos, o eu-lírico nos descreve o falar do sertanejo, delineando e explicitando as principais características deste falar. Em relação às características estilísticas, percebemos novamente a presença do verso livre, o qual mostra, no âmbito da poesia cabralina, o quanto é possível ser formal e rigoroso mesmo quando não se segue determinado padrão canônico de metro.

Dessa forma, para os objetivos de nossa análise, novamente dividiremos o poema em dois momentos, à maneira do autor: (Texto III)

Nesse primeiro movimento do poema, há a descrição da maneira de falar do sertanejo. Com efeito, através de uma requintada metáfora poética, na qual sentidos relacionados às pedras são transportados para a fala do sertanejo, o eu-lírico descreve as principais características da linguagem do homem do sertão. Dessa forma, o eu-lírico delineia, a partir das peculiaridades linguísticas do sertanejo, os principais nuances de sua personalidade, visto que, na esfera do poema, este tipo social é visto como uma "árvore pedrenta", a qual não cabe usufruir de outra linguagem senão a das pedras.

O outro movimento

Nesse segundo movimento do poema, é possível notar que uma explicação da forma de falar do sertanejo, isto é, dos motivos que o fazem falar de maneira econômica, parcimoniosa e paulatina. (Texto IV)

Com efeito, o eu-lírico diz-nos que, em virtude das "palavras de pedras", as quais ulceram a boca, o homem do sertão fala de forma dolorosa, à força; dessa maneira, cada palavra é pronunciada como se machucasse o corpo do homem que as pronuncia. Ademais, essas características ulcerosas impelem o sertanejo a falar de forma pausada, porquanto, para pronunciar os vocábulos, faz-se necessário antes confeitá-los, deixá-los minimamente palatáveis, próprios à comunicação, ato que leva à lentidão. Na obra em poética em questão, João Cabral procurou educar-se a partir do idioma pedra e, consequentemente, do falar do sertanejo. Assim, incorporou a lentidão, a parcimônia e o antissentimentalismo em sua poesia.

FIQUE POR DENTRO

Um breve retrato do autor e de sua obra

João Cabral de Melo neto (PE, 1920; RJ, 1999) despreza o lirismo tradicional, com sua musicalidade fácil e seu exagero metafórico, concebendo a poesia como uma lenta e sofrida pesquisa de expressão: uma vez escrita, a palavra é retomada, em novas sugestões, até a exaustão das imagens. Busca a palavra objetiva, exata: o geometrismo da linguagem adapta-se à aridez do solo nordestino. Em Morte e Vida Severina (aqui, o tom lírico se atrela à denúncia social), narra a trajetória de um sertanejo, Severino, que abandona o agreste, expulso da terra pela seca, rumo ao litoral, encontrando, nesse percurso, apenas miséria e morte. Seu universo poético assenta-se em três temáticas básicas: o Nordeste (retirantes, tradições, folclore, os engenhos, os cemitérios); a Espanha (paisagens, com destaque aos pontos comuns com o Nordeste brasileiro) e a Arte (a pintura de Miró, de Picasso, a metapoesia)

Trechos

Texto I


Uma educação pela pedra: por lições;/para aprender da pedra, frequentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal/(pela de dicção ela começa as aulas)./A lição de moral, sua resistência fria/ao que flui e a fluir, a ser maleada;/ a de poética, sua carnadura concreta;/ a de economia, seu adensar-se compacta:/ lições da pedra (de fora para dentro,/ cartilha muda), para quem soletrá-la./

Texto II

Outra educação pela pedra: no sertão/ (de dentro para fora, e pré-didática)./No sertão a pedra não sabe lecionar,/ e se lecionasse, não ensinaria nada/ lá não se aprende a pedra: lá a pedra,/Uma pedra de nascença, entranha a alma.

Texto III

A fala a nível do sertanejo engana:/ as palavras dele vêm como rebuçadas/ ( palavras confeito, pílula), na glace/ de uma entonação lise, de adocicada./ Enquanto que sob ela, dura e endurece/ o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,/dessa árvore pedrenta ( o sertanejo)/ incapaz de não se expressar em pedra.

Texto IV

Daí porque o sertanejo fala pouco:/ as palavras de pedra ulceram a boca/ e no idioma pedra se fala doloroso;/o natural desse idioma se fala a força./Daí também porque ele fala devagar:/tem de pegar as palavras com cuidado,/confeitá-las na língua, rebuçá-las; pois toma tempo todo esse trabalho.

MARCO ANTÔNIO VASCONCELOS
COLABORADOR*

*Do Curso de Letras da Uece

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