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Jimi Hendrix: retoque de Midas

Chega às lojas a última parte da trilogia de discos inéditos de Jimi Hendrix, projetados pela família do gênio

Jimi Hendrix, em estúdio: material inédito rende álbuns até hoje ( Foto: Legacy/Sony Music )
00:00 · 12.03.2018 por Dellano Rios - Editor de área

O tempo e o som começam a correr. Parece que você pegou a música já no fim. O guitarrista solta notas desconexas, o baterista martela leve e insistentemente os pratos e o cantor murmura um lamento blueseiro - "Oh, yeah, Oh, yeah/ everything gonna be alright this mornin'" (Tudo vai ficar bem essa manhã). Mas, no instante seguinte, as notas se ordenam, a guitarra soa encorpada e alinha tudo. A canção, na verdade, acaba de começar. Nem precisava ouvir voz para saber que se trata de um registro de Jimi Hendrix. Afinal, mesmo tendo influenciado meio mundo, sua guitarra tem uma "voz" própria e inconfundível.

A música em questão é "Mannish boy" e o disco, "Both sides of the sky". Lançado na sexta-feira, 9, em formatos digitais (incluindo os serviços de streaming) e chega às lojas brasileiras, em CD, no fim da semana, dia 16. Trata-se de uma compilação póstuma, de registros do guitarrista norte-americano, feitos entre 1968 e 1970.

A canção escolhida para iniciar o "novo" disco de Jimi Hendrix, e abrir caminho como seu primeiro single, diz muito, tanto do projeto que ele integra, como do artista que ele celebra. "Mannish boy"é uma composição de Muddy Waters (1913 - 1983), figurão do blues elétrico de Chicago. A música foi regravada por meio mundo, incluindo os Rolling Stones e Buddy Guy (outro bambambã do blues), sempre de forma reverencial. Hendrix, ao contrário, envenena o som, dá mais peso à guitarra, troca agudos por graves, muda o ritmo, estende a canção e se apropria dela. No fim, deste pacote de 13 canções, o material de outros compositores ("Woodstock", de Joni Mitchell; e "Things I Used to Do", de Guitar Slim) também soa como Hendrix puro-sangue.

"Both sides of the sky" é o terceiro disco de uma trilogia, iniciada em 2010. Com os direitos do catálogo do músico desde então sob seu domínio, a família de Hendrix quis dar uma forma caprichada ao material que ele deixou antes de morrer. Artista prolífico, ele acabou deixando o suficiente para encher mais de uma dezena de trabalhos póstumos, alguns tocados por picaretas que chegaram a regravar partes e incluí-las na edição final.

Para tal, chamaram Eddie Krammer, produtor musical que serviu de engenheiro de som para Hendrix em boa parte de suas sessões. O resultado é notável. "Valleys of Neptune" (2010), "People, Hell and Angels" (2013) e este novo álbum mais bem acabados. Até os takes são melhor escolhidos, em caso de canções já aparecidas em outros lançamentos. Os retoques ajudam a polir as joias brutas que são as gravações de Hendrix.

Balanço

Há duas formas de avaliar "Both sides of the sky": como obra autônoma e como parte de uma discografia. No primeiro caso, o que se ouve é o trabalho de um músico bem acima da média, acompanhado de uma banda competente, com domínio de seu talento o suficiente para imprimir, em cada canção, sua assinatura autoral. Esteticamente, é um álbum datado para 2018, mais ao gosto dos saudosistas do que da moda.

No conjunto da discografia, "Both sides of the sky" até tem uma boa performance, mas não tem fôlego para figurar entre os melhores trabalhos do músico. Como as demais coleções de material de estúdio lançadas após a morte do guitarrista, o novo álbum fica aquém da trinca clássica lançada pelo próprio Hendrix.

Sendo direto: quem deseja mergulhar no universo do músico, investe melhor se começar pelos álbuns que ele gravou com sua banda, The Jimi Hendrix Experience: "Are You Experienced" (1967), "Axis: Bold as Love" (1967) e "Electric Ladyland" (1968). Acompanhado de uma nova formação, a Band of Gypsy, Hendrix ainda produziu o ao vivo "Band of Gypsys" (1970), mas para quem gosta de registros desta natureza, a discografia póstuma tem material até mais interessante, como as gravações completas dos shows no Fillmore East (de onde foram tiradas as seis canções do disco de 1970), a íntegra de sua performance no histórico festival de Woodstock e as gravações feitas nos estúdios da rádio britânica BBC.

Discografia

Álbuns "clássicos"

Are You Experienced (1967)

Axis: Bold as Love (1967)

Electric Ladyland (1968)

Band of Gypsys (1970)

Álbuns póstumos

The Cry of Love (1971)

Rainbow Bridge (1971)

War Heroes (1972)

Loose Ends (1974)

Crash Landing (1975)

Midnight Lightning (1975)

Nine to the Universe (1980)

Voodoo Soup (1995)

First Rays of the New Rising Sun (1997)

South Saturn Delta (1997)

Valleys of Neptune (2010)

People, Hell and Angels (2013)

Both Sides of the Sky (2018)

Álbuns Ao Vivo

BBC Sessions (1998)

Live at Woodstock (1999)

Os dois álbuns se destacam, mas a discografia ao vivo inclui 25 discos póstumos

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