Jardim de Valença - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Tributo a Rosinha

Jardim de Valença

03.02.2005

Divulgação

Um arrepio. Vários. A obra da violonista, compositora e pesquisadora Rosinha de Valença, revisitada e saudada com todo o sentimento. A musicista fluminense, falecida no ano passado, recebe seu primeiro tributo, através de uma iniciativa da amiga, admiradora e fiel escudeira, Maria Bethânia.

Dividindo a produção deste “Namorando a Rosa” com Miúcha, outra divalenciana de sempre, Bethânia revela ao grande público esta violonista admirada até mesmo pela nata da Bossa Nova.

Com as duas, ou melhor, as três, outros admiradores que não pensaram duas vezes em aceitar o convite do selo Quitanda, de Bethânia, para este brasileiríssimo e esplendoroso namoro musical: Chico Buarque, Bebel Gilberto, Dona Ivone Lara, Alcione, Martinho da Vila, Joanna, Caetano Veloso, Célia Vaz, Turíbio Santos, Hermeto Pascoal, Victor Biglione, Jaime Alem, Trio Madeira Brasil, Yamandú Costa...

A música de Rosinha de Valença alvoroça, percorre a alma dos músicos, tomados de uma chama que alguns talvez julgassem esquecida. “Rosa, só me deste alegria, ouvindo seu violão, dia e noite, noite e dia”, improvisa Dona Ivone Lara antes de reverenciá-la ainda com os clássicos versos de “Sonho Meu”, música que Bethânia conheceu no mesmo dia que a sambista, na casa de Rosinha.

Há outros encantos plantados e regados para embelezar ainda mais este jardim: “Prelúdio da Rosa”, de Turíbio, e “Mais uma Rosa”, a mais docemente espinhosa composição para o álbum, com o piano de Hermeto Pascoal chamando o violão e a viola de Jaime Alem para o infinito.

Admiradoras do álbum “Cheiro de mato”, que Rosinha lançara em 1976, Bethânia e Miúcha trataram de reverenciar a amiga com sua própria participação: é Rosinha quem toca o clássico choro de Waldir Azevedo, “Pedacinhos do céu”, em gravação daquele mesmo álbum de que as duas haviam já convocado “Cabocla Jurema” - hino popular resgatado por Rosinha - no álbum “Brasileirinho”, que Bethânia lançou no ano passado e que foi belamente citado em seu recente espetáculo no Centro de Convenções Edson Queiroz. Recriações que já deveriam ter garantido à violonista o seu lugar sagrado em nosso universo musical. Bethânia fala de sua homenagem, no material de imprensa: “Era um idéia antiga. O que eu achei mais bonito foi o encantamento de cada um em participar do projeto. É um disco amoroso. Como disse Dona Ivone, um disco para chorar de alegria. Por isso pedi a Gringo Cardia que fizesse uma capa alegre, cheia de cores”.

Capa e encarte, em tons vibrantes, como este tributo-agradecimento. Bethânia teve em Rosinha a diretora musical de um de seus primeiros grandes espetáculos, “Comigo me Desavim”, em 67. Elas gostavam de dizer-se caipiras, embora suas musicalidades sempre rompessem esta fronteira. Por isso mesmo, esse clima interiorano, mais emotivo, mas não propriamente melancólico, não prevalece em todo o “Namorando a Rosa”. Embora, em entrevistas, Bethânia enfatize que Rosinha preferisse as modinhas de viola a seus apuros vanguardistas e que esta foi sua intenção, reverenciá-la através de um estética cabocla, brejeira, talvez antecipada no “Brasileirinho”.

Em qualquer linguagem, a musicalidade de Rosinha se sobressai: desde o chorinho de Waldir Azevedo, sem os créditos dos músicos que a acompanham, a técnica apurada da violonista é evidente, mesmo que naturalmente ela abrande o ímpeto do cavaquinista, quase transformando o choro em um lamento. Ainda antes da meio deslocada - e pouco interiorana - “Sonho Meu”, apesar de todo o carinho de Dona Ivone Lara e da participação da idealizadora do projeto, Rosinha comparece em duas letras da sua porção matuta: “Os grilos são astros”, nas vozes de Chico Buarque e Bebel Gilberto, em dueto brejeirinho, e “Usina de Prata”, na primeira participação de Bethânia, enaltecendo, com requinte, a poesia e a postura violonística mais sertaneja da amiga. A faixa também estava em “Cheiro de Mato”.

Depois, o violão canta em “Rosinha, essa menina”, choro de Paulinho da Viola, dos anos 70, aqui interpretado por Yamandú Costa, Marcelo Gonçalves e Zé Paulo Becker, além do bandolim de Ronaldo, os três últimos componentes do Trio Madeira Brasil. Outro momento que destoa um pouco da linguagem eminentemente rural atribuída ao tributo. Mais do que a faixa-seguinte, aberta pelos acordes da guitarra inquieta, ainda que semi-acústica, de Victor Biglione. Apenas um belo contra-ponto à perfor-mance “dobrada” de Alcione em outra letra das mais brejeiras de Rosinha, “Interior”, que Bethânia gravara no “Álibi”, em 78...

Mas, e o blues “Pro amor de Amsterdam”, velha parceria, novamente levada por Martinho da Vila, agora com arranjos e violões de Célia Vaz? “Dos contrastes do meu belo Rio aflito/ao invés de um samba/mando um blues pra você”... Entre as fragrâncias de alcances distantes deste jardim encantado, de Valença para o mundo, dois momentos de puro embevecimento: um mais elaborado, feito por um violonista seu contemporâneo, Turíbio Santos, “Prelúdio da Rosa”, e outro mais bucólico, “Chuá, Chuá”, clássico de Ary Pavão e Pedro de Sá Pereira, recriado nas vozes de Joanna e Bethânia, ao violão de Jaime Alem, outro tema que estava no “Cheiro de Mato”.

Agora, não há como dizer que o canto de Miúcha possa ser definido como rural, mesmo entre o violão de Alem e mesmo falando em “folha da laranjeira” e “gota de sereno”, em “Meus zelos”, música de Rosinha de Valença também de seu álbum de 76. Mas outra homenagem está prestada por aquela mana de Chico por Rosinha convidada para a sua primeira turnê nacional, no início dos anos 70. A erudição de Turíbio é complementada pela composição de Hermeto Pascoal, que desliza seu piano entre as cordas e percussões igualmente experimentais em “Mais uma Rosa”. Ponto para a Rosinha inovadora.

No final, Bethânia encontra-se com a “Madrinha Lua”, de Rosinha, entre Miúcha e Célia Vaz, no coro, e a viola de 12 de Jaime Alem. Foi a primeira música que ela escolheu para cantar no tributo. Talvez ainda pelo clima de “Brasileirinho”, mas o certo é que ela realmente solta seu vozeirão bem à vontade. Depois, faz a segunda inusitada “dupla caipira” do álbum, após Chico e sua sobrinha: com Caetano Veloso, ela canta “A Pescaria”, dos baianos Wilson Ribeiro Pimentel e Conceição Alves Pereira. “Escolhi esta música por causa das pescarias com Rosinha, o radinho ligado tocando música sertaneja. A isca era um pedaço de queijo”. Peixe da cidade grande tem essas astutezas.

SERVIÇO: Namorando a Rosa - Tributo à compositora e violonista Rosinha de Valença. Lançamento: Quitanda. 13 faixas, com letras. Preço médio: R$30,00.

Henrique Nunes

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