Ensaio

Jáder de Carvalho: um homem entre o fogo e a água

01:25 · 22.12.2012

Conhecer um escritor é conhecer o tempo em que viveu, as cidades que habitou, os valores que defendeu, a estética que elaborou; enfim, é um homem e seu estar-no-mundo. Dentro dessa perspectiva literária e social, faz-se hoje urgente e imprescindível reconhecer a importância e excelência da obra de Jáder de Carvalho dentro da literatura cearense

Mais conhecido pela sua posição combativa no jornalismo e pelos romances de denúncia, Jáder de Carvalho, na multiplicidade de funções que acumulou (advogado, professor, jornalista, sociólogo, escritor), foi uma das figuras mais atuantes na cena literária e político-social cearense. Entretanto, sua obra, apesar da evidente qualidade, adormece num desconhecimento geral. São poucas as reedições e menor ainda o investimento em estudos que procuram analisar a feitura e contribuição de obra tão relevante e multifacetada. Boa parte de seus livros estão esgotados, com edições ainda da primeira metade do século XX, muitas delas só encontradas no setor de obras raras da Biblioteca Pública Meneses Pimentel e no acervo da Academia Cearense de Letras.

A obra

Famoso pelo romance Aldeota e pelo livro de poesia Terra bárbara, é na verdade escritor de obra vasta. Dentro da sua produção narrativa, outros romances merecem destaque (A criança vive, Eu quero o sol) e novas perspectivas podem ser guias de leitura da sua poesia (Delírio da solidão, Poemas inesperados, Menino só, Alma em trovas, Cantos da morte, Rua da minha vida etc.). Nestes livros encontramos um poeta maduro, invadido pela saudade que a memória desperta ("Estar só não é ler ou escrever sozinho: é pensar com saudade"). Além dos poemas dedicados às mulheres, que são em grande número, encontramos uma obra sedimentada nos percursos de formação do homem, suas vivências na serra e na cidade e as aprendizagens que cada experiência oferece. Transformar essa travessia dos anos em poesia é sua grande arte. Daí a facilidade com que ele parte do sertão, com sua natureza e tipos específicos ("Sertão longe de mim: não existo"), envereda por temas políticos e sociais ("manchei as ruas e praças com o sangue vermelho das minhas veias e das minhas artérias") e deságua na velhice cheia de histórias para contar e reviver ("Ah, no fundo da minha memória/ escuto os meus passos cautelosos,/ dentro da noite, pelo corredor").

Uma singularidade

Outro dado importante a salientar na vida do escritor é a sua permanência no Ceará, decisão contrária a de muitos de seus pares. Sabemos que a tradição que forma a literatura cearense é feita de migrantes: muitos deles, sobretudo os mais famosos, construíram um percurso literário fora do Estado, única forma de se destacar num país continental, cujo centro de produção artística estava muito longe de nós. Assim, partiram Alencar, Adolfo Caminha e Antônio Sales, entre outros. Jáder, não. Ele permaneceu no confronto das ideias aqui mesmo, sabedor de que era necessária sua intervenção nas questões políticas que reinavam em Fortaleza nas décadas de 50 e 60 ("Eu poeta sem viagens pelo mundo/ mas poeta do meu povo"). O mundo, para Jáder, cabia na sua poesia: "Tenho toda a geografia dentro/ da minh´alma". Se a cidade ganhou com sua permanência, sua obra, entretanto, perdeu em divulgação e reconhecimento nacionais. Daí talvez a explicação para o desconhecimento fora do Ceará. O único crítico de alcance nacional que a ele se referiu foi Paulo Rónai, que prefacia seu livro Terra bárbara e elogia o dom da sua escrita: "A arte do poeta nos envolve, desarma e arrebata".

Leituras

No Ceará, Sânzio de Azevedo, Batista de Lima e Pedro Lyra dedicaram um olhar mais demorado sobre a obra do escritor, elogiando sobretudo a sua verve telúrica, sertaneja ou compromissada socialmente. Há que se destacar hoje uma retomada da sua obra romanesca em estudos acadêmicos, como os dos professores Tiago Coutinho e Ana Maria Teixeira e da sua presença nos meios jornalísticos, caso da obra de João A. Montenegro.

Por isso, relembrar Jáder de Carvalho tem neste mês de dezembro um motivo especial. Dia 29, comemora-se mais um aniversário do Príncipe dos Poetas, nascido em 1901. Do rapaz da Serra que parte para Fortaleza ao poeta maduro em que se transformou, foram muitas as vivências do escritor. As mais marcantes são as do final da vida quando, viúvo, com os filhos já casados, o poeta lamenta a solidão, que dá o tom de seus últimos poemas, talvez a mesma solidão em que o encontramos hoje. (Texto I)

Retirar o poeta dessa ´imagem nevoenta do passado´ representa bem a tarefa que vivenciamos hoje em relação a Jáder e à memória da nossa cidade. Por isso uma reflexão se impõe: o passado, instância viva e móvel, precisa ser constantemente atualizado para que clarifique e redimensione o presente, realocando discussões a fim de que os dispositivos que formam este mesmo presente possam ser reavaliados. Daí a importância de ler Jáder de Carvalho hoje: ele é a história viva do Ceará e da sua literatura, escritor cujas atuação e obra formam um painel da nossa sociedade e produção artística. Por isso, não podemos aceitá-lo como um escritor do século XX adormecido em edições esgotadas ou visto somente como pivô de querelas políticas. Ele é um ser que se mantém vivo pelas palavras que disseminou em vários discursos, sobretudo o poético, no qual deixou as marcas mais fecundas.

Assim, entre o fogo das palavras e ações incendiárias e a água da fonte da sua poesia, insinua-se um homem fundamental na nossa literatura. Por isso, transcrevo a seguir um relato de amizade, o encontro que mantenho com esse escritor há mais de 20 anos e procuro revelar os percursos, nem sempre felizes, que atravesso na busca de estudar seus textos.

Em busca da fonte

Minha história com Jáder de Carvalho data da época em que, estudante do curso de Letras da UECE, fui buscá-lo em sua casa, na Rua Agapito dos Santos, para receber uma homenagem do CA de Letras, do qual era patrono. Já era um senhor idoso, com mais de 80 anos (ele morreria logo depois dessa visita, em agosto de 1985), simpático e disposto. Num Fiat azul celeste denominado ´caixão de anjo´ pelos meus amigos, conduzi o escritor até o Centro de Humanidades, no bairro de Fátima, para que participasse das homenagens que lhe seriam feitas. Ocupada com a organização do evento, sinceramente não me lembro muito do que ele falou. Só sei que, finalizada a conversação com os alunos, fui deixá-lo em casa de volta e perdi uma ótima oportunidade de conhecer mais profundamente o escritor.

Trechos

TEXTO I

A vida, ao fim da viagem, / É feita de ausências. / Mas não se deixa de andar, / Embora o caminho não engane, / Não esconda mistérios. /// A saudade fecha as pálpebras / E, mão de pluma, / Abre diante de nós / A imagem nevoenta do passado.

FIQUE POR DENTRO

Um breve retrato do escritor

O ficcionista e poeta Jáder de Carvalho nasceu em Quixadá, aos 29 de dezembro de 1901 e faleceu em Fortaleza, aos 7 de agosto de 1985. Exerceu as atividades de professor, jornalista e advogado. Em sua obra, a terra e a tradição falam mais alto, uma vez que vivenciou como poucos a tragédia do sertão nordestino e a de seu povo: a seca, o êxodo rural, o latifúndio, a enxada, o voto, o coronelismo e a miséria social. Foi perseguido pela ditadura Vargas e por esta preso entre os anos de 1943 e 1945. Foi um dos mais importantes intelectuais de seu tempo. Ocupou na Academia Cearense de Letras a cadeira nº 14. Em 1974, com a morte de Cruz Filho, foi eleito Príncipe dos Poetas Cearenses.


SARAH DIVA DA SILVA IPIRANGA
COLABORADORA*
Professora Adjunta de Literatura Comparada da Uece

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