URBANIDADE

Já dizia o Profeta...

01:33 · 21.05.2009
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A trajetória de José Datrino, o Profeta Gentileza, ganha as páginas do livro ´Univvverrsso Gentileza´, que Leonardo Guelman lança hoje no Centro Dragão do Mar

Profeta, poeta, hippie, pensador popular ou simplesmente pirado? Bom, hoje em dia, com sua disposição em provar que ´gentileza gera gentileza´, José Datrino, ou melhor, o Profeta Gentileza (1917-1996), continuaria sendo visto como excêntrico demais para os padrões sociais vigentes. No entanto, se considerarmos sua experiência de vida pelo viés de seus singelos ensinamentos, amplificados pela mística que ela acumulou nos últimos anos, pode ser que ele se desfizesse um pouco de seu carma maldito, e pudesse ser compreendido ou ao menos lido, ouvido, consultado como uma espécie de oráculo de seu tempo, a exemplo do que se deu com outros mestres da lucidez, de Gandhi a Artur Bispo do Rosário, passando pelo mítico Quixote, como não? Todos identificados com a paz e a criação. Todos, profetas da gentil sabedoria dos que sabem pertencer a uma espécie ainda com salvação. É este personagem do planeta que o filósofo Leonardo Guelman resgata no livro ´Univvverrsso Gentileza´, cujo lançamento acontece hoje, com direito a palestra sua e a exibição do curta ´Gentileza´, de Dado Amaral e Vinicius Reis.

O Profeta que costumava imprimir suas palavras de sabedoria (e aparente non-sense) por cartazes e pelas ruas do Rio, também pregou em vários estados, inclusive no Ceará, em 1982 e 1988, quando sobrevivia com os 1700 cruzados de sua aposentadoria como pequeno empresário, havia sido preso e taxado de louco pela família, mas se manteve fiel às vozes que o estimulavam a falar em uma nova condição para o ser humano. Aqui e acolá, até se referia a um comunismo espiritual. ´Capitalismo vem de capeta´, apregoava com sua indumentária imaculadamente branca, de palavras e desenhos bordados, vasta barba e cabeleira, ao melhor estilo dos antigos visionários bíblicos, além de uma tábua onde escrevia suas profecias, paramentada com cataventos: ´pra refrescar a cuca´.

´Procuro entender o sentido de um profeta nos dias de hoje, isso se dá na percepção da denúncia de uma crise das relações sociais. Em cima dessa crise, ele lança uma alternativa calcada na importância da gentileza”. Leonardo investiga o Quixote da Avenida Brasil com profundidade, analisa sua construção plástica, poética, profética.

Revelação e Livro Urbano

Paulista de Cafelândia, José Datrino (1917-1996) deixou a família para se tornar mensageiro da paz, no início dos anos 60. Haveria até uma marca dramática: a morte da mulher e dos cinco filhos no trágico incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói, em 1961. “Na verdade, sua família não morreu, mas seis dias depois, dirigindo um caminhão, ele teve sua revelação em Nova Iguaçu. Essa é apenas uma das lendas que cercam Gentileza. No terreno do circo, comparado por ele ao mundo, Gentileza com pregou por quatro anos, criando o “Paraíso do Gentileza”.

E assim continuou por 35 anos. Guelman reúne iconografias e relatos, como os escritos murais legados pelo poeta - desde os anos 80, em verde, amarelo, azul e branco - pelo poeta nas 56 pilastras do viaduto do Caju, início da Avenida Brasil a caminho da rodoviária Novo Rio. Seu Livro Urbano, patrimônio cultural dos cariocas. “Este é um livro pro mundo que tem que ter uma salvaguarda”. Nesta narrativa urbana, acrescenta Leonardo, Gentileza revela uma síntese de seu universo. “O texto tem uma lógica até pedagógica, próxima dos relatos populares. Ele chegava ao público com estes versos. Se era um hippie, era um hippie às avessas, bastante moralista. Desde os 12 anos, ele já tinha recebido sinais de que receberia uma missão. Dizia-se a terceira pessoa da santíssima trindade”, diz o pesquisador, que manteve contato com Gentileza desde 1992, para a produção de um vídeo e que concluiu seu mestrado em Filosofia em torno de Gentileza, orientado pelo teólogo Leonardo Boff.

TRANSDISCIPLINARIDADE

Filosofia e arte A pesquisa de Leonardo Guelman sobre Gentileza começou em 1992, para a produção de um vídeo sobre o Profeta do Rio. Cinco anos depois, o arquiteto e filósofo carioca concluiu dissertação de mestrado em Filosofia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Hoje professor do Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense, ele coordena, desde 1999, o Movimento Rio com Gentileza. Seu objetivo é perpetuar a mensagem de amor do Profeta, agora através de seu livro. Ainda na UFF, Leonardo cursa Doutorado em Literatura Comparada, agora tendo como objeto, segundo ele, o sertão como paradigma universal brasileiro, a religiosidade como grande forjadora da identidade brasileira, a partir da literatura. ´O sertão é a imagem do homem diante do mundo´, diz o pesquisador que investigará de Ariano Suassuna a Guimarães Rosa.

GENTILEZA

Marisa Monte

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca
Nós que passamos apressados

Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza
Por isso eu pergunto
A você no mundo
Se é mais inteligente

O livro ou a sabedoria
O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta

ENSAIO

Univvverrsso Gentileza


R$ 48
302 PÁGINAS
2009
MUNDO DAS IDÉIAS

Leonardo Guelman

Lançamento hoje, às 19h, no auditório do Espaço Mix do Centro Dragão do Mar, com exibição do curta ´Gentileza´, de Dado Amaral e Vinicius Reis, seguida de palestra.

HENRIQUE NUNES
Repórter

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