Ensaio

Interrogações na poesia de Mário Quintana

00:08 · 27.07.2013
Em Apontamentos de História Sobrenatural, escrito sob a égide da humilde grandeza, o poeta traduz em versos as coisas simples do cotidiano

O poema "Data" é composto por duas estrofes, cada uma com três versos livres e rimas brancas, traços característicos da poesia de Quintana: (Texto I).

Mario Quintana refere-se ao cotidiano no poema "Data" descrevendo cenas que possibilita inúmeras interpretações, sobre tudo pela forma como o poema é construído. Data é uma marca cronológica do tempo, no poema essa marca é fixada, sendo a data é revelada, 13 de janeiro.

Singularidades

Coincidentemente, é o poema de abertura do livro Apontamentos de História Sobrenatural, podendo ser interpretando, nesse sentido como o dia em que o poeta inicia nova fase, um novo acontecimento, podendo tratar-se de um divisor de águas, ainda que trazendo, subjacente a ideia contrária, já que para algo se iniciar, é necessário que alguma coisa chegue ao fim.

Recursos expressivos

Ainda quanto à estrutura do poema, podemos perceber que as duas estrofes se organizam em um formato de escada, porém, a sensação é de que essas duas escadas estão propiciando uma descida, como se o tempo fosse medido em ordem decrescente.

Como se o poeta desejasse chegar àquela data e contasse os dias. Ademais, percebemos ainda que há em cada verso, a demarcação cronológica, como se cada verso representasse uma cena e uma sequência temporais, e num sentido gradativo o último verso de cada estrofe é sempre maior, como se horizonte estivesse sempre a se espraiar.

Das estrofes

Na segunda e última estrofe o primeiro verso é composto pela palavra Perto que por si já traduz semanticamente a ideia de proximidade que se enfatiza pela forma (tamanho do verso), dando sequência ao esperado dia, 13 de janeiro, que pode ter sido data especial para o poeta ou no mínimo bastante desejada. O poema "Ritmo" é composto por quatro estrofes com quatro versos e apresenta aliterações, repetições de expressões compõem alguns versos: (Texto II).

Leitura do poema

Este poema "Ritmo" apresenta um refrão em cada uma das três primeiras estrofes, carregando-o de musicalidade. Chama atenção para a dinâmica da vida.

As repetições que acontecem em torno do poema aludem para acontecimentos distintos, porém simultâneos, que observados pelo poeta gera uma orquestra de harmonia sinestésica, em que cada componente em seus movimentos repetitivos cumpre a sua obrigação. Contudo, ele harmoniza os fatos por seus pontos comuns: a mulher varre o cisco, a menininha escova os dentes, a lavadeira bate a roupa. Todos estão livrando-se da sujeira acumulada. Podemos perceber que se trata de eventos matinais e costumeiros, afazeres do dia a dia, rotina.

Estratégias

O poeta antes descrever os movimentos das atividades realizadas classifica os sujeitos: varredeira, menininha e lavadeira. Se pensarmos bem, podemos chegar à conclusão que pode se tratar de coisas simultâneas que acontecem em um mesmo espaço. Explicando: em uma casa enquanto a empregada (varredeira) varre a menininha (filha dos patrões) escova os dentes. Porém essa conclusão não se aplica quando pensamos na lavadeira, pois, o bater a roupa remete mais a mulher campo. Na última estrofe verificamos que o desenrolar de toda a corda faz referência ao fim dos afazeres, quando o mundo gira imóvel como um pião, ainda que pião lembre empregado e por sua vez trabalho, a palavra imóvel, torna claro o fim das atividades diárias. O estilo de Mário Quintana é um fazer poesia sobre as coisas simples, enxergá-las pela lente da beleza.

Efeitos contrastantes

"O Adolescente" é um poema composto por seis estrofes, sendo duas com apenas um verso e quatro com três versos: (Texto III).

Neste poema, Quintana fala do ser adolescente e inicia o poema confrontando as palavras belo e medo relacionando-as à vida. A vida é bela, mas causa medo. O medo de que fala é o perigo que se encontra nas esquinas, o risco a que os adolescentes se expõem pela avidez de viver, sem limites, se permitindo a tudo. Mas é também o medo de quem já viveu, já passou pela adolescência e conhece as armadilhas do mundo, isso fica claro a partir da penúltima estrofe quando se prenuncia o conselho dado na estrofe do desfecho do poema.

Do efêmero

Ao dizer que a vida é nova e anda nua, alerta para a suscetibilidade dos jovens, pois, o risco é maior para quem não tem defesa. Somente a maturidade dará revestimento, a proteção e a imunidade. É preciso então, segundo o poeta que se tenha muita cautela para não ser tragado pelo mal travestido pelo prazer da liberdade. Os desejos podem se tornar uma alma letal quando não se tem a percepção do perigo a que eles podem conduzir.

Um poema

O poema "Interrogações" é composto por uma única estrofe com seis versos onde percebemos que do terceiro ao quinto verso há uma gradação decrescente das sílabas poéticas: (Texto IV).

Este poema conforme o título, Interrogações, alude aos questionamentos do mundo. Não existem respostas absolutas para tudo ou mesmo para nada, tudo depende de como as coisas são vistas, e são vistas de diferentes formas.

Para não discordar de qualquer resposta o autor prefere dizer que cada verso é uma pergunta do poeta - busque uma resposta -, que no mundo em que se admitem certas razões e se busca saber pelo que não se sabe ainda, sobretudo quanto aos porquês da existência, a resposta pode está até na crença. Cada sujeito é livre para formular suas respostas, tentar convencer-se, aceitar ou não as respostas impostas. O fato é que Quintana deixa claro que toda resposta é também uma pergunta, o mundo não precisa de certezas.

Não aponta para o conformismo religioso que digere que demanda todos os questionamentos à luz clérica do Cristianismo. Deus que é resposta para tudo, segundo a tradição cristã, na visão do poeta, Ele também questiona tudo em seu discurso.

Mário Quintana é, antes de tudo, um poeta que encanta o leitor pelo manuseio das palavras que, através das estranhas alianças que elas estabelecem umas com as outras, atingem o estado poético.

Trechos

TEXTO I

Duas laranjas / Um copo d´água ao lado / As moedinhas da luz em torno /// Perto / A folhinha marca 13 de janeiro.

TEXTO II

Na porta / a varredeira varre o cisco / varre o cisco / varre o cisco /// Na pia / a menininha escova os dentes / escova os dentes / escova os dentes /// No arroio / a lavadeira bate a roupa / bate a roupa / bate a roupa /// até que enfim / se desenrola / toda a corda / e o mundo gira imóvel como um pião!

TEXTO III

A vida é tão bela que chega a dar medo. /// Não o medo que paralisa e gela, / estátua súbita, / mas /// esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz / o jovem felino seguir para a frente farejando o vento / ao sair, a primeira vez, da gruta. /// Medo que ofusca: luz! /// Cumplicemente, / as folhas contam-te um segredo / velho como o mundo: /// Adolescente, olha! A vida é nova... / A vida é nova e anda nua / - vestida apenas com o teu desejo!

TEXTO IV

Nenhuma pergunta demanda resposta. / Cada verso é uma pergunta do poeta. / E as estrelas... / as flores... / o mundo... / são perguntas de Deus.

FIQUE POR DENTRO

Um breve retrato do poeta e de sua escritura

Mário Quintana nasceu em Porto Alegre no ano de 1906 e morreu nessa mesma cidade em 1994. Ainda que haja vivenciado a época modernista, cultivou uma poesia atemporal, mesmo tocado por certo sentimento de transcendentalismo; extremamente lírico, é o poeta das coisas pequenas, da subjetividade, do retrato interior; dos bichos e dos seres abandonados. Vestiu de novos tons o soneto e revigorou o poema em prosa. Sua dicção é vincadamente pessoal, fugindo, completamente, ao formalismo e à racionalidade que caracterizaram o discurso de muitos de seus contemporâneos. Escreveu A rua dos cataventos, Sapato florido, O aprendiz de feiticeiro, Espelho mágico e Baú de espantos.

ANTONIO EZEQUIEL DO NASCIMENTO
COLABORADOR*

*Do Curso de Letras da Uece

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