Jornalismo

Instantâneos da meca hippie

Escrito por Joan Didion, "Arrastando-se para Belém", um clássico do Novo Jornalismo, chega aos 50 anos

00:00 · 26.05.2018 por Dellano Rios - Editor de Área
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A jornalista Joan Didion, 83 anos, é uma observadora arguta dos EUA. Seu clássico "Slouching towards Bethlehem/ Arrastando-se para Belém" é um registro multifacetado dos anos 1960, em um país marcado pelas contradições

No agitado maio de 1968, chegou às livrarias dos EUA "Slouching towards Bethlehem", segundo livro de Joan Didion, mas o primeiro de não-ficção. O volume reunia 20 peças (classificadas como ensaios, na edição da nova-iorquina Farrar, Straus and Giroux), publicadas entre 1961 e 1967, em periódicos jornalísticos como a revista Vogue e a dominical The New York Times Review. A maioria, incluindo o texto que deu título ao livro, havia aparecido em outra revista, a centenária The Saturday Evening Post, conhecida por suas capas feitas pelo artista Norman Rockwell (1894-1978) e pela relação estreia com a literatura.

Ensaio talvez seja uma palavra demasiado imprecisa para tratar da escrita de Joan Didion. Em seu "ensaísmo" não há nada que se assemelhe ao tipo de escrita de Susan Sontag ou James Baldwin, para citar duas referências do gênero, contemporâneos da autora. Talvez tenha sido uma forma do editor valorizar o material, que a própria Didion não tem problemas em chamar do que é: jornalismo.

A obra é um clássico do New Journalism/ Novo Jornalismo, vertente jornalística e literária que despontou no meio editorial norte-americano nos anos 1960 e ficou associada a autores como Tom Wolfe e Gay Talese. Ao enumerar os autores dessa "escola", tem-se a impressão de se tratar de um clube do bolinha. Nomes como Didion mostram que o problema é mais do recorte de quem conta a história do que a escassez de (boas) autoras. Seu "Slouching towards Bethlehem", como um mosaico, retrata a "América" em uma década efervescente, política e culturalmente, marcada por extremos e convulsões sociais. Tudo parece interessar a Joan Didion, do julgamento de uma mulher acusada de matar o marido à escola de não-violência bancada pela estrela folk Joan Baez, passando pelo astro de filmes de faroeste, John Wayne, velho e abalado por um câncer. Cada reportagem tem sua forma própria - ainda que se possa identificar recorrências, como a precisão da escrita e o costume da autora de estar presente no que narra, ainda que de forma discreta, silenciosa, fantasmática.

Apesar da relevância, o livro de Joan Didion permanece inédito no Brasil, 50 anos depois de sua aparição. Aliás, a autora foi traduzida de forma irregular no País. Assistir ao documentário "Joan Didion: The center will not hold", dirigido pelo sobrinho da autora, Griffin Dunne, para a Netflix, ajuda a entender o quão lamentável é essa lacuna.

No fim de março, o ensaio-título do livro apareceu na edição número 28 da revista Serrote, do Instituto Moreira Sales. "Arrastando-se para Belém" é ilustrado por desenhos do oitentão Victor Moscoso, artista hispano-americano ligado ao quadrinho underground dos anos 1960, conhecido por um estilo surrealista e psicodélico.

Haight-Ashbury

"Arrastando-se para Belém" tem uma montagem fragmentária, como se a autora tivesse levado consigo uma máquina Polaroid, capaz de produzir instantâneos verbais. O passeio percorrido para registrar estas imagens narrativas foi o do distrito Haight-Ashbury, em San Francisco (EUA). O ponto central da região é o cruzamento das ruas Haight e Ashbury. A imprensa norte-americana, ouriçada com a disseminação da cultura hippie, encontrou ali sua comunidade modelo. O local acabou se tornando um símbolo da contracultura.

Joan Didion entra e sai em residências, ruas, parques; escuta gurus, militantes de causas diversas, conversa com adolescentes que fugiram de casa para fazer não sabem bem o que, ouve meninas que orbitam em torno da banda Grateful Dead. De pronto, algumas cenas parecem vazias, com diálogos que não levam a lugar nenhum. Nada é por acaso naquele texto. Didion consegue registrar uma atmosfera paradoxal, às vezes crítica e inteligente, em seu confronto com o status quo e os conservadores EUA; e, em outros casos, catatônica e dispersa, em bad trips de ácido, maconha, cocaína, sexo e juventude.

Crítica

A inteligência de Joan Didion é fria e precisa. A autora faz emergir violências que, mais tarde, entornariam o caldeirão psicodélico, na ressaca sombria que foram os anos 1970 para a cultura pop. O machismo dos arranjos afetivos hippies, o abuso de menores e a idiotice de uma espécie de fundamentalismo contracultural (traduzida na famosa cena da menina de cinco anos viajando em LSD) estavam lá como alertas.

Prescinde de moralismo (que alguns colegas de New Journalism não largavam, apesar de maquiá-lo). A meca hippie, nos instantâneos de Didion, recusa-se a uma definição simplista, nem embarca no elogio fácil no qual embarcaram muitos progressistas, nem se alinha à caça às bruxas dos caretas.

Didion não fica em cima do muro. Mas é arguta o suficiente para nos fazer ver que Haight-Ashbury não é um problema em si; suas contradições têm raízes na mesma sociedade contra a qual hippies e outros personagens da contracultura se insurgiram.

Livro

Serrote 28
IMS

2018, 222 páginas
R$ 48,50

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