Poesia

Infância aos 95 anos

05:17 · 19.12.2011
( )
Versos simples de linguagem delirante parecem ser a maneira que o poeta encontrou para perpetuar sua juventude
Versos simples de linguagem delirante parecem ser a maneira que o poeta encontrou para perpetuar sua juventude ( )
Um dos maiores poetas brasileiros vivos, o cuiabano Manoel de Barros completa, hoje, 95 anos. O escritor comemora uma das décadas mais ativas de sua criação poética

O peso da idade parece não afetar o gênio da raça que, aos 95 anos de idade, vive uma das fases mais ativas de sua poesia. Versos simples de linguagem delirante, como ele mesmo ensina, parecem ser a maneira que o poeta que só teve infância encontrou para perpetuar sua juventude e o frescor de uma escrita que teima em não ser classificada, que bebe da fonte exuberante do Pantanal, mas que traz consigo uma originalidade quase autóctone, dando importância às coisas inúteis e plenitude ao abandono.

A maneira original e cativante de lidar com a linguagem dos versos de Manoel de Barros, imersos na paisagem do Pantanal e na oralidade de seu povo, é comparada à escrita de Guimarães Rosa em originalidade e dá margem às mais diversas tentativas de entendimento. Com quase 30 livros publicados, 11 deles somente na última década, Manoel de Barros é hoje o escritor que mais vende livros no Brasil, no gênero poesia.

O reconhecimento tardio é fruto de uma busca pelo isolamento dos grandes centros. O poeta vive desde os anos 1960 em sua propriedade rural no Mato Grosso do Sul, sem frequentar meios literários, recusando-se a gravar entrevistas e dedicando a maior parte do seu tempo ao ócio criativo, observando e inspirando-se nas paisagens do Pantanal e na maneira simples de seus personagens.

Entre as histórias do imaginário em torno de sua figura, está a de que Carlos Drummond de Andrade teria recusado o epíteto de maior poeta brasileiro vivo em favor de Manoel de Barros. Apesar de ter ganho prêmios literários na década de 1960, com os livros "Gramática expositiva do chão" e "Compêndio para uso dos pássaros", a sua popularização só veio no final da década de 1980, quando Millôr Fernandes chama atenção para sua obra. Em 1989, ele é agraciado por importantes prêmios literários, incluindo o Prêmio Jabuti, na categoria poesia, com o livro "O guardador de águas".

Nascido em Cuiabá (MS), em 19 de dezembro de 1916, Manoel Wenceslau Leite de Barros tem formação acadêmica em Direito. Publicou seu primeiro livro em 1937, os "Poemas concebidos sem pecado", em uma tiragem artesanal de apenas 20 exemplares. Foi em sua fazenda no Pantanal, no entanto, onde ele escreveu suas principais publicações. No pequeno escritório batizado de "Lugar de ser inútil", ele desenvolve o manoelês, que como o próprio define, "é a língua dos bocós e dos idiotas, que cria um universo tão absurdo quanto palpável".

Com versos como "O esplendor da manhã não se abre com faca" e "Os objetos sem função tem apego pelo abandono", Manoel de Barros constrói sua linguagem - enquadrada por críticos como pertencente ao Modernismo brasileiro, com elementos das vanguardas europeias do início do século XX, da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Entre os principais livros, além dos já citados, estão "O livro das ignorãças" (1993), "O fazedor de amanhecer" (2001), que lhe rendeu mais um Prêmio Jabuti, e "Poemas rupestres", além da trilogia "Memórias Inventadas", com a I, II e III Infância.

Documentário

A despeito de sua aversão por aparecer em vídeo, em 2010 foi lançado o documentário "Só dez por cento é mentira", do diretor Pedro Cézar. A obra entra no universo poético de Manoel de Barros e registra depoimentos preciosos do poeta e das figuras que permeiam sua obra. "Depois de 10 anos, consegui que minha fazenda desse renda para eu ficar à toa. Ficar à toa é ficar à disposição da poesia. Então, eu comprei o ócio. Ai que eu pude ser o vagabundo profissional como sou agora", diz Manoel, entre risadas, em seu primeiro depoimento.

Pedro passou alguns dias tentando convencer o poeta a falar, que recusava alegando que o seu ser biológico era sem graça. "Quem vem buscar registro de sua vida ou saber fatos da sua biografia sai de mãos vazias, mas de imaginação cheia", comenta Cézar.

O filme traz por diversas vezes o poeta divagando sobre sua própria poesia, quebrando alguns mitos criados em torno de sua figura e apresentando alguns dos personagens e ambientes que permeiam seus escritos. "Eu sou o poeta da palavra. E ninguém quer entender isso. E pouca gente que entender isso. Que eu não sou poeta de paisagem, não sou poeta ecológico, não quero fazer folclore, não quero expressar costume, não sou historiador. Eu sou poeta. Poeta é você quem inventa. Eu invento o meu pantanal", reclama.

Personagens

Parte dos poemas de Barros vem da inspiração de três dos personagens mais recorrentes em seus livros: o filho, João de Barros, com quem Manoel costumava anotar suas conversas quando o mesmo era criança; e dois antigos trabalhadores de sua fazenda, Toinho, que traz o linguajar próprio do pantaneiro e Bernardo, um funcionário mudo, cujo único som que emitia era a imitação das barcas que chegavam à Cuiabá. Os três, justifica Manoel, erram na gramática, mas acertam em poesia.

Bernardo foi adotado nos livros por Manoel como uma espécie de alterego, a quem atribui toda espécie de pensamento e devaneio poético. A Bernardo, o escritor dedicou também sua publicação mais recente, "Escritos em verbal de ave" (2011), que traz entre os versos a notícia da morte de seu ex-funcionário, adornado com desenhos do autor em uma montagem arrojada com páginas dobradas em que é possível abrir o livro em uma só folha. "A minha poesia é inventada, mas é absolutamente verdade. Se eu dissesse que fui ali na padaria e comprei o pão é uma mentira. Eu tô aqui, não fui na padaria, não comprei o pão. Mas a invenção é uma coisa profunda. É uma coisa que serve para aumentar o mundo", elucida.

Livro-poema
Escritos em verbal de ave
Manoel de Barros
Leya
2011
14 páginas
R$ 34,90

FÁBIO MARQUES
REPÓRTER

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.