ENTREVISTA

´Inegável fenômeno´

00:15 · 21.09.2008
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´Literatura de Massa - Uma análise dos romances de bancas de revista´. Esse é o título da monografia de graduação em Comunicação Social defendida em julho último por Thiago Mena Barreto Viana, 23 anos, na Universidade de Fortaleza. Integrando um grupo de pesquisa sob orientação da professora Roberta Manuela, Thiago mergulhou no universo dos chamados ´romances sentimentais´ - ou romances água-com-açúcar, sem nenhum demérito para um gênero literário que, à revelia das atenções dos autores consagrados, da academia e da crítica, segue vendendo milhares de cópias e conquistando mais e mais leitores, em um inegável fenômeno editorial. Confira:

Qual foi o foco do seu trabalho sobre os chamados romances sentimentais?

Faço um levantamento histórico, desde os primeiros romances, ´O Conde de Monte Cristo´, ´Os três Mosqueteiros´, e vou mostrando como eles serviram de base pros romances modernos, ´Júlia´, ´Sabrina´ e ´Bianca´, séries que surgem em 1980, com a editora Nova Cultural, e hoje ainda são as mais lidas. Existem outras mais modernas, mas essas são as mais consumidas em forma de troca, nas bancas do Centro de Fortaleza, na praça José de Alencar, onde os livros usados são comprados por 30, 50 centavos, dependendo do estado de conservação, ou trocados um pelo outro. Hoje, essas séries não são mais produzidas em série, como antes. Existem outras, como ´Júlia Picante´ e ´Sabrina Sensual´.

Mas novos títulos seguem sendo editados...

Os livros ainda são editados. Em qualquer banca de jornal, eles vão estar lá. Mas o consumo dos romances novos é bem menor que o dos antigos, da década de 80. Os modernos não têm esse consumo todo. São mais caros, chegam a 10 reais. No Centro, as mulheres que procuram a troca são as que colecionam. A gente entrevistou mulheres que colecionavam há 20 anos. Normalmente começam na adolescência, por conta de alguma desilusão amorosa. Alguém recomenda que ela leia, como maneira de lidar com aquele problema sentimental. Esses romances surgem como uma forma de manuais, de comportamento e relacionamento amoroso.

Quais desses títulos tiveram mais sucesso, ou maior número de cópias vendidas?

Não tem um romance específico. É a coleção. ´Júlia´, ´Prisioneira do Coração´, ´Foi o Destino´. Não tem muito um grande romance. O maior de todos foi ´Os Mistérios de Paris´, de Eugene Sue, que saiu no Brasil no mesmo mês que saiu na França, na segunda metade do século XIX, e repercutiu muito no Brasil. Tanto que logo depois foi lançado ´Os Mistérios do Rio de Janeiro´. Afora ´Os Mistérios de Paris´, que foi lançado em folhetim primeiro e depois teve sua versão livresca, os demais se caracterizam pela constância das séries.

É possível traçar diferenças estéticas, características de cada uma dessas séries?

É possível. A série ´Júlia´ busca um pouco mais de amor e tem situações cômicas. ´Bianca´ é ainda mais recatada que os romances em si. Não fala muito do corpo. Quando fala no corpo, é nas mãos, as mãos da mulher, os olhos, a cor do olho, que diz muito. Azul da cor do oceano em fúria, verde como as matas selvagens. A cor do olho vai dizer muito sobre a personalidade da personagem. ´Sabrina´ já é mais em cenários exóticos, Arábia, deserto, Grécia, eles dão essas viajadas. Mas são pequenas coisas, que só as leitoras que acompanham identificam. Em outra coleção, da Barbara Cartland, a religião influencia. Teve uma mulher que disse que o pastor só deixou que ela lesse essa, porque é ainda mais recatada. Ela considerou que ´Júlia´, ´Sabrina´ e ´Bianca´ seriam pecaminosas, frente à ideologia dela. Barbara Cartland, que é ainda mais água-com-açúcar, seria ideal pra ela. Já nos anos 90 você encontra romances de transição, com mulheres que trabalham, ou que se separam do marido, por alguma coisa. Nos da década de 80 a mulher nunca trabalha; é sempre filha de alguém muito rico, ou se casa com alguém muito rico. Problemas financeiros não são problemas (risos)...

As mulheres são idealizadas, como as da primeira fase de Machado de Assis?

Machado é um romancista sentimental. Quando os romances sentimentais chegam ao Brasil, passam por três fases. Primeiro, a mera transcrição dos romances franceses. Depois Napoleão proíbe a publicação. Tem um documento em que ele fala que perderia o governo se os romances circulassem livremente. Na França esses romances acabaram tendo um caráter ideológico, mostrando detalhes como os recantos de Paris, os prostíbulos, a realidade de uma Paris que ele não queria ver. Quando ele proíbe isso e os romances ficam muito água-com-açúcar, os brasileiros começam a dar temas brasileiros aos livros. Aí surge ´A Moreninha´, ´Aurélia´, ´Lucíola´, que analiso como romances sentimentais. Mas eles se destacam por usar temas nacionais, situados no Rio de Janeiro.

Nos romances sentimentais, a mulher sempre é idealizada?

Sempre. No ´Júlia´, ´Sabrina´ e ´Bianca´, elas possuem características consideradas nobres. São mulheres loiras, de pele clara, olhos delicados. O homem já é moreno, alto, bonito, sensual, o que elas imaginam que seja o príncipe. E os livros falam de coisas de fora do País. Pra elas, que lêem, é uma fonte de cultura. Se você perguntar por que elas lêem, é primeiro por isso. Através dos livros, elas sabem como se comportam essas pessoas em outros países, o que vestem, o que fazem, o que comem. Já houve séries que se passavam no Brasil, que não fizeram sucesso. Porque viram que no Brasil não era real esperar por um homem que transformasse a mulher numa lady. Se fosse real, a leitora já teria vivido aquilo ali. Coisas inverossímeis, contadas no livro, como são situadas em outros países, pode ser que sejam verdadeiras. E elas (leitoras) defendem isso ardentemente. Você acha que realmente é assim? ´Eu tenho certeza que é assim´, respondem. ´Não tá aqui escrito?´. Então os livros têm esses dois eixos, da cultura e das questões amorosas.

Quantas leitoras vocês ouviram para a pesquisa? Como foram esses depoimentos?

Foram muitas. A gente entrevista desde que começou as pesquisa, em 2006. Elas lêem esses livros nos poucos horários que têm, porque elas trabalham o dia todo. Eu ia no ônibus, já ia conversando com elas, quando via que estavam lendo. Elas gostam de conversar, em geral são muito acessíveis. Primeiro vem aquele susto, de saber que um homem tá conversando com ela sobre aquilo ali. Mas quando a gente mostra que leu, entendeu, e que não tá depreciando a leitura, e sim querendo entender, aí elas conversam abertamente. A gente entrevistou muitas, mais de 50 mulheres, e depois fechou um grupo focal com 10 mulheres, pra pesquisa que se encerra no final deste ano. Nas bancas que têm troca de livros, principalmente, elas gostam muito de conversar. É até uma ironia ser na Praça José de Alencar, de um grande romancista. Mas ali você nota que os donos de banca são conhecedores, eles leram. Sabem indicar um romance que fala de tal assunto. E a gente encontra leitoras de várias classe sociais: pedagogas, mulheres de nível superior, que gostam de ler. E tem várias comunidades no Orkut também, que a gente também aplicou questionários.

E quanto aos autores? Quem são os nomes por trás dessas obras? Também é possível distinguir características de cada autor?

Algumas mulheres, que já colecionam há mais tempo, conseguem diferenciar. Têm os autores que elas gostam. Na maior parte, quem escreve são mulheres estrangeiras, ou então são pseudônimos, como agora com a (editora) Harlequin eles usam muito, e sempre na contra-capa tem a história do autor, que é muito parecida com a história de uma mocinha de romance sentimental. ´Ela mora numa casa, à beira do mar, na Inglaterra, numa mansão cor-de-rosa...´. Isso faz as leitoras pensarem que ela tá escrevendo aquilo porque realmente viveu ali. Essa mensagem é que as editoras querem passar: uma mulher escrevendo sobre uma coisa que ela conhece.

De que forma esses romances foram evoluindo, de acordo com as mudanças da sociedade?

Os romances seguem essas mudanças, mas bem devagarzinho. Muitas vezes, com paliativos. Muitas mulheres não aceitam o fato de a personagem não casar com o primeiro namorado, de não sentir amor à primeira vista. Tem um romance, de 1980, que invertia tudo: o homem que era virgem, e a mulher era viúva. E não teve muita venda, porque destoava do padrão. Essas exceções são bem raras. O público tem um gosto próprio.

As telenovelas, por exemplo, não concorrem com esses livros? Ainda há espaço para eles, mesmo com quatro novelas diárias na Globo?

As novelas são continuações históricas dos romances. Eles surgem nos folhetins nos jornais, passam pros livros, depois pro rádio, pro cinema e pra telenovela brasileira, seguindo a mesma estrutura. Os romances novos trazem a estrutura básica, mas com elementos novos, como o sexo, muito mais descritivo. Tanto que quando a gente entrevistava os homens, perguntava por que liam, eles diziam que pela descrição do ato sexual. Era como se fosse uma Playboy, mas de texto. Os romances modernos já têm até a capa diferente, mais apimentada, parece mais uma fotografia. Se vir a década de 80, a capa é mais uma pintura. E os novos já têm ato sexual no primeiro capítulo. O homem e a mulher mostram o corpo. Ela descreve o corpo masculino, o que não acontecia. Só se descrevia o feminino. E se antes pra ela o homem era nobre, muito rico, hoje ele tem que ser o amante. O amor agora tá sendo pensado como amor paixão. Existem vários tipos, mas esse é o mais presente. Se o homem também não for um ardente na cama, não tem como o amor continuar.

A mulher tem essa exigência, mesmo no romance sentimental?

Mas depois que tem relação com ele, vai viver com ele a vida toda. Pode até ter relações sexuais antes do casamento, mas vai inevitavelmente casar com ele depois. É exigido desse romance que o homem tenha uma maturidade sexual muito grande. Ele vai ensiná-la nas artes da cama, enquanto ela vai ensiná-lo nas artes do amor. Ambos vêm de uma desilusão amorosa muito grande, e vão curar um ao outro.

E o que a leitura desses livros representa pra elas, de acordo com as mulheres pesquisadas?

Pra elas, é o momento de lazer, de fugir de certa forma da realidade de dona-de-casa, de trabalhadora, de mãe. Muitas têm uma relação complicada no casamento. O marido não é o ideal. Os filhos não são os ideais. No romance, é. Então é a forma de extravasar, de fugir dessa realidade em que se encontram e ir pra uma realidade mais doce. Por isso são chamados romances água-com-açúcar.

A expressão não é considerada pejorativa?

Eles são chamados assim. O fato de ser pejorativo ou não depende do contexto em que essa expressão vai estar.

E a discussão sobre serem literatura menor, subliteratura?

Na pesquisa a gente discute isso. Se é literatura, se é subliteratura, paraliteratura. É literatura! Essas outras denominações são uma discussão de antigamente, uma discussão já caduca, de quando tinha os pensadores da alta literatura. Hoje já tem uma discussão acadêmica que entende que é literatura, porque não seria possível separar o que é cultura do que não é. Não se pode negar o modo de vida de uma sociedade, inclusive a literatura. Os livros refletem as necessidades da sociedade naquele período. São um fenômeno cultural inegável; por mais que uma parte das elites culturais ainda os olhem com uma certa reserva.

A que outras conclusões a pesquisa chegou?

Outra discussão acadêmica é o conceito de amor nos romances sentimentais. Eles usam um tipo específico de amor, que é esse amor sentimental. Um sentimento específico, pra um público específico. Há também análise das capas, de cenários, personagens, das transformações históricas, dos romances como uma maneira de se controlar a crise social, como a crise do capitalismo, dos abismos sociais. Eles não vão criar soluções concretas, mas criam uma imagem que se pode ter alguma solução. E qual seria a solução? O amor. Se hoje existem assassinatos brutais, é porque não existe o amor. Acabam dizendo que o amor é o método. Toda a mensagem dos romances é essa: o amor é o método pra resolver todo e qualquer tipo de problema social. Até mesmo o econômico, através do casamento com alguém rico.

DALWTON MOURA
Repórter


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