Imagens do sertão - Caderno 3 - Diário do Nordeste

FOTOGRAFIA E CINEMA

Imagens do sertão

22.08.2005

Francisco Sousa
Celebrar o “Dia do Folclore” com uma programação diferenciada, refletindo sobre o Nordeste e suas idiossincrasias. Esta é a proposta do projeto “Imagens do Sertão - Fotografia e Cinema”, que tem início hoje e prossegue até quarta-feira, dia 24, no Museu do Ceará. Neste período, sempre às 17h, serão exibidos documentários produzidos pelo fotógrafo Thomaz Farkas, que têm o semi-árido como foco investigativo. Uma exposição homônima do fotógrafo Francisco Sousa complementa a iniciativa do Museu

Húngaro radicado no Brasil na década de 20, Thomaz Farkas integrou o movimento fotoclubista de São Paulo, nos anos 40. O contato com a nova geração de cineastas da década 60, no entanto, lhe serviu de motivação para um novo empreendimento: realizar uma série de documentários com o objetivo de desbravar o Brasil então desconhecido. Para a tarefa, o fotógrafo e produtor contou com um time de profissionais talentosos: Geraldo Sarno, Sérgio Muniz, Maurice Capovilla. Paulo Gil Soares, Lauro e Eduardo Escorel, e Guido Araújo, entre outros nomes.

No total, foram concluídos 39 filmes - destes, um único longa-metragem, “Certas Palavras”, documentário sobre o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda. As produções foram realizadas em dois ciclos: o primeiro, entre 1964 e 1965; o segundo e mais prolífico, de 1967 a 1970, do qual são pinçados quase todos os vídeos que compõe a mostra “Imagens do Sertão”, em cartaz a partir de hoje, no Museu do Ceará. A única exceção é o média-metragem “Memória do Cangaço”, de Paulo Gil Soares, filmado em 1965, que apresenta uma visão desmistificada do fenômeno, através de entrevistas com ex-cangaceiros.

A curadoria da mostra ficou sob a responsabilidade da professora Meize Regina Lucas, do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), que estudou a filmatografia da chamada “Caravana Farkas” em seu doutorado. “Embora tenha sido utilizado na década de 90, o rótulo caravana se consagrou. Ele serve para enfatizar não apenas os documentários, mas as viagens de desbravamento para realizá-los, o empreendimento do grupo liderado por Farkas”, esclarece Meize.

Segundo a historiadora, o grande mérito da caravana é ter centrado suas lentes nos Brasis ainda desconhecidos, carentes de um olhar atento, menos povoado de preconceitos. “Esta foi a única experiência deste gênero de que temos notícia: vários realizadores dispersos pelo país, realizando documentários simultaneamente. E são produções ousadas para a época, que flagram não apenas as distâncias geográficas entre os muitos brasis, mas também as culturais. No caso nordestino, ajudam a desmontar muitos dos estereótipos atribuídos à Região”, ressalta Meize.

Hoje, às 17h, serão exibidos, “Jornal do Sertão” e “O Engenho”, ambos dirigidos por Geraldo Sarno. O primeiro tem o universo do cordel como objeto de reflexão; o segundo, documenta um engenho diferente - fincado no agreste e, não, na Zona da Mata. Após as exibições, às 17h30, a professora Meize Regina ministrará a palestra “As formas de ver - Imagens do sertão na Caravana Farkas”.

Amanhã, a programação continua com os vídeos “Os Imaginários”, documentário sobre os artesãos que esculpem figuras religiosas no sertão, e “Viva Cariri”, que retrata os dramas cotidianos de Juazeiro do Norte. Os dois foram dirigidos por Sarno. Na quarta, a mostra se encerra com “A Mão do Homem”, filme sobre a produção artesanal do interior da Paraíba, e “Memória do Cangaço” - ambos assinados por Paulo Gil Soares.

Uma exposição fotográfica, também batizada de “Imagens do Sertão”, complementa a iniciativa do Museu do Ceará. Ao todo são 22 fotos, captadas pela sensibilidade do fotógrafo paraense Francisco Sousa, que nos últimos dois anos tem acompanhado o professor Gilmar de Carvalho, do Departamento de Comunicação Social da UFC, em pesquisas pelo interior cearense. “Quis retratar a simplicidade do povo, o ambiente onde estão inseridos. É um trabalho jornalístico e documental: buscamos os detalhes que não são evidentes, mas que fazem parte do cotidiano do sertão”, destaca Sousa.

No total, a dupla já visitou 140 municípios - na última viagem, realizada em julho e com destino ao Vale do Jaguaribe, foram percorrido 3,5 mil quilômetros. “Busco sobretudo captar os tipos humanos de cada lugar, extrair um perfil. Curioso é que, embora eu more no Ceará há somente seis anos, creio que conheço o Estado melhor do que o Pará”, diz Sousa.

SERVIÇO: “Imagens do Sertão - Fotografia e Cinema”, de hoje a quarta-feira, no Museu do Ceará, a partir das 17h. Endereço: Rua São Paulo, 51, Centro. Apresentação dos documentários: “Jornal do Sertão”, “O Engenho”, “Os Imaginários”, “Viva Cariri”; “A Mão do Homem” e “Memória do Cangaço”, realizados durante a “Caravana Farkas”. E abertura da exposição fotográfica “Imagens do Sertão”, com fotos de Francisco Sousa.




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