Histórias e causos do Barão de Aquiraz - Caderno 3 - Diário do Nordeste

IMAGINÁRIO

Histórias e causos do Barão de Aquiraz

07.03.2009

Envolto em lendas, o casarão do Barão de Aquiraz sofre com falta de conservação

Gonçalo Baptista Vieira (1819 - 1896) foi um homem marcado pelas contradições do tempo em que viveu. Grande senhor de terras, foi uma das lideranças políticas do Ceará monarquista; opositor da república, era simpatizante dos abolicionistas; investiu em ferrovias que cortavam o Estado; e recebeu de Dom Pedro II o título de Barão de Aquiraz.

Mais de 100 anos após a sua morte, o Barão de Aquiraz é uma figura pouco conhecida na História do Ceará. Em Assaré, município onde manteve uma fazenda, é lembrado como um personagem bem distinta daquela que os historiadores esboçam. De líder político e empreendedor, o Barão se converteu em personagem fantástico no imaginário do povo.

Apesar da falta de conservação e do desgaste natural, o casarão da fazenda que pertenceu ao Barão de Aquiraz, na localidade de Infincado, alimenta as histórias em torno de seu antigo dono. Histórias de assombração, de fortunas enterradas, protegidas por artifícios mágicos, além de “causos” a respeito da própria crueldade do velho Barão. Na cidade, a casa grande do Barão de Aquiraz e os causos são bastante conhecidos. No entanto, um número muito pequeno teve a oportunidade de vê-la de perto. “Ela fica muito longe. A estrada pra lá é ruim, além de não ter nada. É só mato”, conta o comerciante João Palácio.

O real e o fantástico

A localidade de Infincado fica em Genezaré, distrito de Assaré, distante 24 km da sede do município. O terreno acidentado, da estrada carroçável, estende o tempo de viagem, chegando a duas horas de carro. Quando se chega em Genezaré, é preciso atravessar a área povoada, com casas, praça e capela própria. Segue-se outros 10 km até chegar ao casarão.

Casa e personagem são protagonistas e coadjuvantes de histórias fantásticas. O cenário é mesmo, mas mudam os tempos - indo de causos de quando o Barão de Aquiraz era vivo ao tempo presente, quando este sobrevive como vestígio.

Douglas Nogueira e Erisberto Gonçalves, da Associação de Jovens de Genezaré, pesquisaram sobre a história da casa e colecionaram causos. No campo da história, os dois jovens falam de um rico senhor de terras, que em seu auge financeiro, teve propriedades em Campo Sales, Potengi, Araripe e para além dos limites do Estado, em Pernambuco e no Piauí. Construído em meados do século XIX (não há uma data precisa de sua fundação), o casarão é robusto, com 72 portas, com paredes largas e estruturas em cedro. Foi erguida pelos escravos da propriedade, que moldavam as telhas nas próprias pernas.

No campo do imaginário, mantido por narrativas que passam de geração à geração, o lugar foi palco de cenas de crueldade. “Os moradores mais antigos de Genezaré contam que o Barão era um homem muito perverso. Certa vez teria feito um escravo carregar uma pedra enorme, de um córrego há quilômetros da casa. Quando ele chegou lá, caiu morto, com a pedra por cima”, conta Douglas Nogueira.

O temperamento cruel do fazendeiro reaparece quando se conta dos escravos que mandou matar. “Era um casal de negros, que tinham um caso. O Barão, que era apaixonado por ela, ficou louco quando soube e pôs fim a vida deles. Depois disso, o povo conta, que ele passou a ser assombrado pela alma dos escravos. Ouvia correntes sendo arrastadas, as redes da casa eram sacudidas. Ainda hoje tem quem diga que você ouve essas correntes à noite”, narra Erisberto Gonçalves.

Curioso a descrição da crueldade do Barão para com seus escravos. A história o registrou como simpatizante do abolicionismo. Em março de 1883, antes da abolição da escravidão no Ceará, o proprietário teria dado a carta de liberdade para seus cativos.

O descompasso entre a história oficial e aquela que a tradição oral mantém viva. Não há necessidade de comprovação, mas do funcionamento de uma narrativa, que acaba por reproduzir o imaginário e os valores de uma comunidade.

Caso emblemático é o de uma narrativa sobre a morte do Barão de Aquiraz. É Douglas Nogueira quem a reproduz: “quando ele morreu, o corpo saiu da sede da fazendo, em cortejo, com familiares e escravos da propriedade. No meio do caminho, a família encontrou dois escravos, que pediram para carregar a rede, sob ordem do cemitério. Eles partiram na frente e a família os perdeu de vista, quando encontrou foi só a rede e as madeiras. Nenhum sinal do corpo ou dos homens que iam carregando ele”. A história contradiz o que ficou registrado nos documentos do morto. Falecido em 1896, já não existiam escravos à época; e o Barão de Aquiraz morreu em sua propriedade na Capital, precisamente onde hoje se encontra o Cine São Luiz.

Outras histórias dão conta de aparições do fantasma do Barão, que indicaria onde estão escondidas botijas, dentro e fora da casa. Estas seriam protegidas por uma cobra, que ameaça devorar quem escavar no lugar errado.

Restauro

O estado físico da casa inspira preocupação. Ainda que careça do refinamento de outras construções da época, o casarão de Infincado ajuda a reconstituir o cotidiano de outros tempos. Basta observar o quarto usado como oficina de tear, o suporte para candeias e o piso, de terra batida em alguns cômodos, de tijolos, em outros.

De acordo com Marcos Salmo, secretário de Cultura de Assaré, a prefeitura tem planos para restaurar a casa. “Já tivemos conversas com a Secretaria da Cultura do Estado, para agendar um visita e fazer o levantamento técnico da construção”, explica.

A idéia é que este trabalho seja feito em Abril. “Inicialmente, vamos fazer um levantamento para fazer tombamento por lei municipal e, posteriormente, trabalhar na captação de recurso para fazer restauro”, detalha o secretário do município. Salmo garante que os cuidados com patrimônio material e imaterial são prioridades da secretaria.

Dellano Rios
Enviado a Assaré




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