Biografias

Histórias de vida

Nas últimas três décadas, o Brasil se destaca no gênero, que bebe na fonte do jornalismo literário

00:00 · 20.03.2017 por Iracema Sales - Repórter
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O jornalista e professor Edvaldo Pereira Lima: para ele, mercado de biografias está em ascensão
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Turma de um dos cursos ministrados por Edvaldo Pereira Lima, a partir da técnica "Escrita total", desenvolvida por ele mesmo e baseada no desenvolvimento de redação espontânea. Em Fortaleza, atividade acontece em abril

A biografia - gênero literário que ganha popularidade no Brasil a partir das décadas de 1980 e 1990 - podem ser comparadas a retratos ou, ainda, espelhos, pela capacidade de propiciar a reflexão do eu de cada um no outro. "A emoção precisa estar presente na biografia", defende Edvaldo Pereira Lima, jornalista, professor e diretor do curso pioneiro de pós-graduação em Jornalismo Literário no País.

Ele considera como um dos principais desafios do escritor chegar ao equilíbrio textual, mesclando informação, clareza e subjetividade, justificando que a biografia "não é um texto cosmético". Tampouco uma narrativa vazia ou jocosa, chamando atenção para a qualidade estilística.

Para Edvaldo Lima, não importa se a história narrada seja de celebridades ou de anônimos, uma vez que a vida é única, daí fazer parte do ser humano o desejo de ter a sua trajetória registrada. "O que vemos no mercado editorial é apenas a ponta do iceberg", assinala o professor, fazendo referência ao "boom" do gênero, na atualidade, que está sendo muito bem-recebido pela indústria da cultura.

Entusiasta do gênero, que começou a ser praticado no Brasil por eruditos, especialistas ou amigos do biografado, o estudioso ministrará, pela primeira vez em Fortaleza, o workshop Narrativas Biográficas, nos dias 22 e 23 de abril. As inscrições já estão abertas pelo site edvaldopereiralima.Com.Br/Fortaleza.

Edvaldo Lima avisa que o curso é aberto a todas as pessoas que tenham interesse e vontade de escrever textos biográficos, prometendo aplicar a técnica "Escrita total", baseado no desenvolvimento de redação espontânea. Criação do próprio facilitador do workshop, o método tem como base estudos avançados da numerologia, psicologia e literatura. O objetivo é romper com os bloqueios e ajudar na interação com o outro.

Emoção

Emoção e gostar de gente são os principais elementos para a construção de uma boa história de vida, garante o professor, que afirma ser necessário entrar no mundo subjetivo da pessoa, sem perder de vista o senso crítico e a clareza, herança do jornalismo cotidiano.

Ele precisa "descobrir aquele ser humano que fica atrás da imagem pública", ensina, acrescentando ser essencial desvendar os lados sombrio e luminoso da pessoa retratada, sem esquecer o respeito.

O evento acontece durante a realização da XIII Bienal do Livro do Ceará, mas não faz parte de sua programação oficial, esclarece, identificando cinco diferentes estilos biográficos: biografia, autobiografia, narrativa de viagem, ensaio pessoal e perfil. Cada um será aprofundado na oficina.

Dividido em conhecimentos prático e teórico, o workshop destina-se a pessoas que tenham interesse em escrever histórias de vida. Edvaldo conta que seu pai, homem simples, nascido no interior da Bahia, no fim da vida, resolveu registrar sua história, preenchendo alguns cadernos.

Evolução

"As biografias não se limitam apenas às celebridades", assegura ele, festejando o crescimento e a popularização desse gênero, que exige dos criadores a capacidade de ouvir, observar e interagir com o mundo do biografado. Sem esquecer de outro ponto: saber usar as técnicas que envolvem captação, pesquisa e vários recursos das narrativas que a biografia pede.

Nascido no seio do jornalismo literário, a biografia brasileira mostra que evoluiu, livrando-se, sobretudo, dos textos personalizados, como se o autor quisesse alcançar a alma do biografado, características dos textos biográficos do século XIX, por exemplo. Emoção é outro elemento imprescindível a um biógrafo, que deve saber organizar as ideias. Entre os textos biográficos, que bebem na fonte do jornalismo literário, ele destaca a autobiografia, localizada no campo da memória e voltada ao protagonismo. Os trabalhos do gênero surgem de uma necessidade individual, ou seja, do desejo que o ser humano tem de deixar sua história registrada. Esse registro pode ser para os amigos e a família, passando ao largo do mercado editorial.

Outra vertente da biografia é o ensaio pessoal. Segundo Edvaldo, trata-se de gênero novo, com origem no jornalismo literário, que mescla aspectos ensaísticos ao texto biográfico, citando como exemplo a obra "O ano do pensamento mágico", da americana Joan Didion.

Além do perfil, desenvolvido no jornalismo biográfico com inspiração nas narrativas de viagem. "Vejo com bons olhos a produção de biografias, sobretudo de celebridades ou pessoas anônimas, porque remetem a um contexto social e cultural de determinado momento", analisa.

Bons biógrafos

Na opinião do autor, o Brasil possui bons biográficos - para ele, um dos melhores da atualidade é Fernando Morais. Edvaldo elogia a biografia que o colega escreveu sobre Paulo Coelho, intitulada "O mago".

A escrita de Morais nasce no seio do jornalismo, mais precisamente no Jornal da Tarde, nos anos 1960, "e vai evoluindo como biógrafo", atesta Edvaldo, fazendo menção ao jornalismo literário, que aos poucos foi se adaptando até se consolidar na arte de escrever sobre vidas.

O professor lamenta a recessão econômica, que atingiu em cheio o mercado editorial brasileiro. "Antes da crise as editoras investiram muito no gênero", reconhece. Vertente do jornalismo literário, a biografia não se opõe ao jornalismo feito no coditiano, marcado pelo texto conciso, enxuto, claro, e que não dispensa o lide.

No geral, esse tipo de jornalismo ajuda o biógrafo na produção do texto, e deve primar pela clareza. No entanto, é preciso saber incorporar elementos do jornalismo literário, para não cair na pieguice.

O ponto de partida é a curiosidade, matéria-prima do trabalho de um bom biógrafo. A curiosidade vem associada à necessidade de conhecer uma vida na sua totalidade. O autor não pode esquecer que sua história poderá servir de espelho para outros, que se projetarão na mesma, por isso precisa ser bem contada. Ao se projetar em outras histórias, o ser humano descobre sobre ele mesmo, acredita.

A individualidade representa questão a ser investigada, já que toda vida é uma história única a ser contada. Também considera como algo inerente às pessoas, o desejo de saber sobre a história do outro, por isso, qualquer texto biográfico tem duas faces, resume ele.

Heróis

A estrutura do texto biográfico segue a jornada do herói, fazendo junção entre os estudos da mitologia e a psicologia profunda, conceito criado por Carl Jung, sendo adaptado para a comunicação de massa. Edvaldo exemplifica com o filme "Lion - uma jornada para casa", de Garth Davis, que explora a jornada do herói.

O professor atenta para a dimensão histórica e humana percebida na estruturação dessas narrativas, que se reportam a temas universais com reflexos no inconsciente. Nesse aspecto, a vida dos santos também entram na elaboração. Elas demonstram a vontade de contar histórias de vida.

O jornalista coloca o gênero no campo de uma necessidade do ser humano, materializada em frases como "minha vida daria um livro".

Preço

No início de 2013, artistas e biógrafos iniciaram uma querela, que só terminou em 2015, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a publicação de biografias autorizadas ou não.

As acusações vinham dos dois lados. Enquanto artistas acusavam os biógrafos de ganharem uma "fortuna" às custas de suas histórias (caso rara no minguado mercado editorial brasileiro, que geralmente apresenta números modestos), autores reclamavam da ausência de liberdade de expressão.

Entre os que apoiavam o grupo "Procure Saber" estavam: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Djavan. "Não há mais restrição legal", festeja Edvaldo Lima, chamando de atitude medieval a proibição de biografias, num país democrático.

Para o professor, esse é o preço que a celebridade paga por ser uma pessoa pública, tornando sua vida objeto de interesse não apenas dela, mas da sociedade. Não querer ser biografada é um direito dela, mas existe o interesse público.

"É o preço pago pela fama", reitera, considerando, no mínimo, contraditório o artista procurar a imprensa quando o fato lhe interessa. Impedir a publicação é um absurdo, completa ele. "Nos EUA, cada celebridade desperta interesse de vários escritores", diz. Admite a existência de biografias com interesse puramente mercantilista, mas há muito trabalho sério também.

O mercado editorial brasileiro da biografia está em ascensão. O professor aponta Alberto Dines como um dos primeiros jornalistas a se aventurar pelo terreno das narrativas biográficas. "A popularização aconteceu graças a esses pioneiros, quase todos jornalistas, contribuindo para elevar a qualidade do texto, que além de claro tem que ser envolvente", recomenda.

Mais informações:

Workshop Narrativas Biográficas, com o professor Edvaldo Pereira Lima. Dias 22 e 23 de abril, no HG Office - sobreloja 1 (Av. Senador Virgílio Távora, 999, Meireles). Inscrições: edvaldopereiralima.Com.Br/Fortaleza. Contato: (85) 99610.9329

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