Hip hop de Leste a Oeste - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Música

Hip hop de Leste a Oeste

04.08.2004

Divulgação

Sempre é bom ouvir falar de um selo fonográfico autenticamente cearense. Se ele vem dar voz à crescente produção musical mantida, na marra, na periferia dessa nossa Capital de tantas discrepâncias, então, essa iniciativa merece um louvor extra. Quando essa intenção vem reforçada por uma proposta ética e artística comum a bairros afastados entre si, dá para perceber que esse projeto ganha contornos ainda mais abrangentes. Se é assim entre os grupos de hip hop que se espalham pela cidade com o incentivo de organizações não-governamentais, o que dizer quando esse movimento literalmente atravessa alguns pontos cardeais da cidade, em projetos de inclusão social tocados somente com a garra e a união de seus protagonistas? Reforçando a incontestável força deste gênero que se espalhou dos guetos norte-americanos para o mundo, os grupos Plano B (da Costa Leste da cidade, que envolve bairros como Conjunto São Pedro, Castelo Encantado, Varjota e Serviluz) e Brigada Sonora de Rua (da Costa Oeste do Santo Inácio, Bairro Éllery, Álvaro Weyne e Morro do Moinho) estão lançando o álbum “De Costa a Costa”, o primeiro do selo DuNego Records, mostrando muita versatilidade sonora para disparar seus apelos à paz e à conscientização, unindo o rap a linguagens como o brega, o funk e o soul, sem deixar de investir no mercado do hip hop

Pouca gente se dá conta - pelo menos uma considerável fatia de nossas elite e classe média: além, sobre e por trás de uma avenida chamada Leste-Oeste, Fortaleza possui diversas comunidades, pouco prestigiadas pelos poderes públicos, que há mais de uma década passaram a expressar sua histórica condição de marginalização através do rap e do hip hop. Um grito acelerado, quase ininteligível, de revolta e indignação, contra esta cidade que mais uma vez tem, nestas eleições, a chance de honrar seu passado de combate às injustiças sociais e políticas. É atravessando transversalmente a Leste-Oeste que uma parte considerável dos protagonistas do movimento hip hop da cidade se reuniu no álbum-projeto “De Costa a Costa”.

Como as mais legítimas cantorias e cordéis de qualquer parte do Nordeste, o hip hop cumpre, atualmente, o anseio que há algumas décadas coube também ao que se convencionou chamar “canções de protesto”. Uma necessidade permanente, diante de uma sociedade que pouco modifica padrões ideológicos tão arcaicos como os dos personagens de um Adolfo Caminha ou tantas outras narrativas literárias que expressaram as deficiências sócio-culturais de nossa sociedade, inclusive em virtude de sua má formação, decorrente dos permanentes deslocamentos populacionais do interior para esta tão frágil Fortaleza: da prosa de José de Alencar, Rachel de Queiroz e Luciano Barreira, à poética de um Jáder de Carvalho, entre outros.

Enfim, Fortaleza e estes ainda tão desprestigiados cronistas e bardos do hip hop têm hoje uma ligação indissolúvel. Só não vê quem não quer. Um envolvimento quase atávico, se considerarmos a intimidade ancestral do nosso povo com o poder do ritmo, da rima e da indignação. Assim, ainda sem contar com uma representatividade de toda a sua extensão, a cidade comporta este “De Costa a Costa”, que por si mesmo carrega um fator simbólico, emblemático: se nossos principais eventos de lazer e turismo passam sempre por nosso litoral da fantasia, é também “de costa a costa” que a periferia demonstra o seu vínculo contra uma realidade que não pode mais ser camuflada pelos delírios da real maresia. Uma demonstração, enfim, da força latente do povo alencarino. Mas vamos ao disco.

“De Costa a Costa” une, portanto, o Plano B, uma nova rota de conscientização e de diversas influências sonoras traçada por “manos” da Costa Leste como os MCs Gabriel Don Loco e Júnior D, e a Brigada Sonora de Rua, da outra ponta, produzida há quatro anos pelo carioca-cearense Nego Gallo e pelos MCs Preto B, Preto Manu e Leo C e por outros moradores de algumas das áreas mais discriminadas da cidade, como o DJ Flip, que é do “sertão” do Conjunto Ceará. Um projeto poético-musical que luta pelo respeito, pela cidadania, sem fugir da realidade nas temáticas e no vernáculo e de outras linguagens sonoras que fazem parte do seu dia-a-dia.

As faixas vêm assinadas e executadas pelos dois grupos, com algumas participações especiais. “Nossa alma” abre o álbum. É um rap com samplers de levadas bregas-latinas, nos teclados e nos “metais” (Ave, Genival Santos!), que protesta contra o a indiferença social e o controle das mentes, proclamando: “Tipo A, brisa mostra ao cego a aurora/A esperança na sela do sol lá fora/É o instinto do som que instiga ou acalma/De costa a costa, nossa área, nossa alma”.

Também falando da amargura cotidiana no litoral “sem sal” de todo dia, “Morrer de sede” tem o rap sustentando versos-expressos que pintam cenários como: “Do jeito que dá, né?/Ó, o nego corre/todo dia nessa vida um pouco se morre/quando a dor num cabe na estrofe e eu vou pro mar/ me perco dentro de mim e deixo o olhar se encontrar no azul sem fim/volta e meia o nego volta ao jardim/pra desabafar/às rosas vou me queixar/no stress, Cartola em canção me consola e daqui de cima o Nego filma a vela azul do veleiro”. E a pulsação do soul dando um fôlego quando Mário Soul capricha no suingue: “Até quando eu vou ter que segurar/a sede loca em frente a esse mar/Ô vida dura de se encarar/eu juro que vou lutar/enquanto o sangue pulsar nessa veia”...

E assim o grupo envereda pela fusão do hip hop com outras sonoridades, às vezes mais brasileiras do que costumamos ver no “rap nacional”. Sempre tentando convencer que “a violência parte da desinformação”, como aponta Nego Gallo, mas sem deixar de falar nela como no funkão “Assim é”. O drum´n´bass comparece com mais força em “Sangre o quanto sangre”, que também reflete sobre as causas e conseqüências das distorções deste “mundão”. Tem também uma espécie de samba-reggae, na levada cheia de moral da Costa Oeste em “Pra agradecer”. A moçada da Costa Leste responde sem cerimônias com o dance-hall romântico-social de “Nada além”, novamente com Mario Soul aliviando o clima. E no fim, “Me odeie ou Miame”, um funk mais ao estilo carioca, mas sem perder a identidade com o rap e com as “áreas” locais: “O som é funk, mas é sem enxame/A gang é a favela, então é sem sangue”.

É tanta sonoridade e poesia, a mil por hora, que a turma ia mandar logo dois discos. Não deu, pelas questões de sempre. “A diferença da gente em relação ao hip hop de outros lugares pode estar mais na forma de encarar a musicalidade do hip hop, envolvendo elementos da malandragem, da latinidade, mais suingue, na hora de mostrar a realidade da costa”, sugere Don Loco que se reúne com o pessoal da Costa Oeste desde o ano passado.

O que implicou também no contato com a Zulu Nation, uma espécie de código de princípios que deu origem ao melhor que há no funk carioca, em sua identificação com o rap, na cartilha estabelecida por African Bambaatta, há cerca de 30 anos. “É a raiz do hip hop, que prega letras engajadas, mas positivas. Quem nos trouxe essa informação foi o Nego Gallo e o pessoal da Costa Oeste”. Gallo acrescenta: “o rap é a música mais popular do mundo, por isso mesmo a gente acredita que pode unir esse lado político, que ele traz naturalmente, com o lado comercial, sem problemas”. Flip complementa: “a gente tenta acabar com esse mito de que o rap é mais um protesto do que um gênero musical”.

Portanto, esse conjunto de informações abriu mão de um engajamento político mais partidário, em favor de um hip hop mais identificado com as suas perspectivas estéticas e com as relações pessoais dos integrantes dos grupos - que não deixam de envolver problemáticas sociais bastante criticadas, de costa a costa. E assim o DuNego Records vai expandindo seu movimento anti-doutrinário de hip hop independente, além das “costas”, com grupos como Elemento Suspeito, de Maracanaú; Sertão Rap MC´s, do Acaracuzinho; Tafyllas, do Castelão, e Fuzzy, do Pantanal. E ainda há muito por desbravar, sem controles e sem perder a indignação.

Henrique Nunes

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