Memória

Heranças do Pixinguinha

Projeto estimulou a criação de ações similares Brasil afora, como o Projeto Luiz Assunção, em Fortaleza

00:00 · 05.08.2017
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Formação atual do Quinteto Agreste, "revelado" nos anos 80 em Fortaleza pelo projeto Luiz Assunção

Ao longo de seu trajeto, o Projeto Pixinguinha, que reuniu nos palcos espalhados em cidades de diferentes regiões brasileiras, nomes como Cartola, Elza Soares, João Donato, Carlos Lyra, Leny Andrade, Tito Madi, Jackson do Pandeiro e Radamés Gnattali, entre outros, serviu de modelo para iniciativas locais.

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O jornalista e crítico musical, Luciano Almeida Filho, que fez parte da segunda geração do Pixinguinha, chama a atenção para esse aspecto, lembrando dos projetos "Bec Seis e Meia" e "Luiz Assunção", realizados entre as décadas de 1970 e 1990, em Fortaleza.

O Luiz Assunção, que tinha como palco a Praça José de Alencar, começou no fim da década de 1970, aos moldes do projeto carioca "Seis e meia". A ação era patrocinada pela Prefeitura de Fortaleza, na gestão Lúcio Alcântara. A ideia era atrair trabalhadores e estudantes quando voltavam para casa, no comecinho da noite.

Já o "Bec Seis e Meia" era realizado no anexo do Theatro José de Alencar. Os artistas cantavam em cima de um caminhão, sendo uma das principais atrações o "Quinteto Agreste". Também passaram pelo palco improvisado Abidoral Jamacaru, Calé Alencar, Cristiano Pinho, Eugênio Leandro, César Barreto, Bernardo Neto, entre outros artistas.

Em várias cidades do País foram desenvolvidas ações similares: Projeto Moqueca (Vitória), Segunda Musicais (Salvador) e Show da Tarde (Belo Horizonte), durante os anos 1970 e 80. Em âmbito nacional, o Pixinguinha funcionou como precursor do "Rumos Itaú Cultural - Música", tendo como semelhança principal a criação de espaços para a circulação da música brasileira de diferentes regiões.

Influência

Sucesso nos seus primeiros anos, o Pixinguinha obteve êxito na formação de plateia, como foi verificado na primeira fase. A segunda, porém, não obteve resultado semelhante, faltando divulgação e circulação, como na década de 1990.

Para continuar sobrevivendo, nos anos 1980, foi necessário firmar parcerias com os Estados, via secretarias ou fundações de cultura. Luciano Almeida fala com carinho sobre o Pixinguinha, confessando que pelo projeto descobriu e desde então passou a ser fã da cantora Leny Andrade.

"Fui a algumas edições nos anos 1980. A gente saía do colégio, pegava o ônibus e ia para o Theatro José de Alencar", conta. Para o jornalista, a formação de plateia constituía ponto positivo do projeto, em comparação, por exemplo, à política cultural desenvolvida tanto pelo governo estadual como federal hoje, resumida a editais e leis de incentivos culturais e mecenato.

Atualmente, a iniciativa que mais se aproxima da gênese do Pixinguinha é o "Palco Giratório", compara Luciano, esclarecendo ser uma parceria público-privada, que tem à frente o Serviço Social do Comércio (Sesc).

A ênfase do Palco Giratório é na linguagem cênica ficando as ações musicais mais restritas. O jornalista ressente-se de uma de uma política cultural sólida e que disponha de garantia por parte dos governos, refletindo diretamente nas ações - que começam a sofrer efeitos de descontinuidade.

"Os projetos não têm regularidade, ficando à mercê da disponibilidade de verba", critica. Em Fortaleza, ele cita como exemplo a Mostra de Música Petrúcio Maia, que não dispõe sequer de data certa para ser realizada.

Causos

O Pixinguinha deu oportunidade ao público brasileiro das mais diferentes regiões, cidades e níveis sociocultural e econômico, de conhecer novos talentos e assistir a apresentações de artistas consagrados.

"Assisti a shows de artistas que nunca tinham vindo a Fortaleza", enfatiza Luciano. A lista inclui nomes como Arrigo Barnabé, Vanda Bastos e Itamar Assunção, acompanhado pela banda Isca de Polícia, representantes do movimento musical conhecido com "Vanguarda Paulista".

A memória musical do jornalista não deixa passar nenhum detalhe, relembrando inclusive a polêmica em torno do show do Biquíni Cavadão, nos anos 1980. O grupo não teve autorização para tocar no Theatro José de Alencar por tocar rock. O show aconteceu, então, no antigo Clube do América, na Avenida do Manuel, mesmo local que a banda 14 Bis fez a sua apresentação, pelo mesmo motivo.

O Pixinguinha serviu também, argumenta o crítico musical, para divulgar novos talentos locais, que abriam os shows das atrações convidadas. Os grupos Trem do Futuro, Bodega e Quinteto Agreste foram alguns, bem como cantores e instrumentistas, a exemplo de Eugênio Leandro e Pantico. Atualmente, o Projeto Duetos segue esse modelo, ao juntar atrações nacionais com artistas locais.

Luciano atenta ainda para outro aspecto: a formação de produtores culturais. Em Fortaleza, alguns hoje atuantes integraram as plateias do Pixinguinha nos anos 1970 e 80.

Estrutura

O pesquisador Sean Stroud assinala que o Pixinguinha ajudou a melhorar a infraestrutura dos palcos, inspirando a remodelação de teatros em cidades como Maceió, Porto Alegre e Brasília. Em São Paulo, levou à construção de um grande teatro especificamente para espetáculos musicais.

Os anos iniciais do projeto coincidiram com um massivo ressurgimento do interesse em música popular brasileira no País. "Apesar de o novo foco na música nacional ser amplamente devido a uma decisão das gravadoras de promover a música brasileira, artistas importantes como Simone e Djavan que fizeram parte desse boom tiveram sua exposição inicial ao público participando dos shows organizados pelo projeto".

Outro mérito do Pixinguinha foi o desenvolvimento da música instrumental brasileira, além de trazer à cena artistas antigos e aproximá-los dos novos talentos, caso de Jackson do Pandeiro, Moreira da Silva, entre outros.

O ano de 2004 marcou o retorno do Pixinguinha, que sobreviveu até 2009. No início deste ano, o ex-ministro da Cultura, Roberto Freire, prometeu retomar o projeto, na ocasião da festa dos seus 40 anos de criação. O Caderno 3 entrou em contato com a Funarte, que não quis falar sobre o assunto. (IS)

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