Espaço Cultural Unifor

Heranças da imigração no mundo dos negócios

02:38 · 09.03.2012
Imagem de Nami Jafet...
Imagem de Nami Jafet... ( )
... em exposição na Unifor
... em exposição na Unifor ( )
Objetos pessoais do empresário libanês
Objetos pessoais do empresário libanês ( )
( Fotos: Rodrigo Carvalho )

Destaque de "Pioneiros e empreendedores", o libanês Nami Jafet mudou a maneira de fazer comércio no Brasil

Nem só de negros, índios e colonizadores fez-se o Brasil. Na equação da constituição populacional, uma variante basilar foi a presença dos imigrantes de diversos países que trouxeram uma multiplicidade de aspectos culturais, desde outras línguas até maneiras de comer, vestir-se, rezar e, claro, trabalhar.

Um desses imigrantes é destaque da exposição itinerante "Pioneiros & Empreendedores", derivada da série de livros homônima do professor Jacques Marcovitch, atualmente em cartaz na Universidade de Fortaleza (Unifor).

Embora fosse o mais velho da prole, o libanês Nami Jafet chegou ao Brasil somente após o irmão, Benjamin, estabelecer-se como comerciante na Rua 25 de Março, na capital paulista - graças ao dinheiro poupado ao longo dos três anos em que trabalhou como mascate.

Tendo se destacado várias vezes durante a vida estudantil e acadêmica, Nami formou-se na Universidade Americana de Beirute, à época chamada Colégio Protestante Sírio, um dos empreendimento culturais mais importantes nos países árabes. Sucedeu o pai como diretor de uma escola e levava vida financeiramente estável, embora modesta, em seu país natal.

Mas por uma conjuntura de fatores políticos e econômicos (sabe-se, por exemplo, que teve problemas com a censura no Líbano, pelas ideias inovadoras no campo da educação), decidiu migrar para o Brasil, onde tomou as rédeas da Nami Jafet & Irmãos.

Inicialmente minúscula, em pouco tempo a loja precisou de mais espaço e mudou de endereço. A prosperidade nos negócios levou Nami a atuar como importador. Ao longo de sua atuação, impingiu profundas mudanças nas práticas comerciais vigentes - entre elas, a adoção de vendas a crédito, alta rotatividade no estoque, promoção de liquidações, reinvestimento dos lucros nos próprios negócios, entre outras. Por tais inovações, hoje é apontado como pioneiro em certa forma de comércio varejista.

Em seu livro, Marcovitch ressalta a estratégia de entendimento com os mascates adotada por Nami e outros comerciantes libaneses e sítios daquela região do Centro paulista, no sentido de incrementar o sistema de distribuição das mercadorias e ultrapassar os concorrentes. Fosse oferecendo crédito, sugestões de roteiros de viagens ou até um período de trabalho na loja para recém-chegados, Nami solidificava sua rede de mascates e garantia maior alcance das vendas Brasil afora.

Para garantir que os mesmos não desapareceriam sem prestar contas, recorria à origem em comum - em longas conversas, discorria acerca das relações existentes entre as famílias dos mascates e as mais conhecidas do Líbano ou da Síria. Ninguém ousaria dar calote para envergonhar parentes.

O domínio da língua árabe e das especificidades da cortesia cultural também ajudaram os Jafet a solidificar a confiança como base de seus negócios - aspecto fundamental em época quando cadastro bancário ainda não era algo disseminado - e sua posição como líder da colônia sírio-libanesa.

Sobre o assunto, discorreu entusiasmadamente em seu livro "Ensaios e Discursos", escrito em árabe e traduzido para publicação no Brasil (e um dos objetos exibidos na exposição). A repercussão de suas ideias na comunidade trouxe-lhe muitos amigos, que lhe confiavam as economias para envio à terra natal. Pelo serviço, os Jafet cobravam uma porcentagem.

O dinheiro ajudou na construção da tecelagem da família, em Ipiranga, o início de muitas incursões em outros campos de negócios, desde mineração e metalúrgica até transportes.

Nesse ínterim, os Jafet tornaram-se bastante próximos de Getúlio Vargas e sua gestão. O suicídio do presidente e os constantes atritos com a oposição, aliados à incapacidade da família de incorporar inovações tecnológicas a algumas de suas empresas, aceleraram sua decadência empresarial. O legado para o mundo dos negócios, porém, permanece.

Mais informações

Pioneiros & Empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil. Até 13 de maio, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). De terça a sexta, das 8h às 18h; sábados e domingos, de 10h às 18h. Entrada gratuita. Contato: (85) 3477.3319

ADRIANA MARTINS
REPÓRTER

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.