cinema

Helio Jaguaribe na tela

00:00 · 10.09.2018 por Naief Haddad - Folhapress
Hélio Jaguaribe
"Tudo É Irrelevante", documentário sobre Hélio Jaguaribe, dirigido por sua filha Izabel Jaguaribe, reconstitui momentos da trajetória intelectual e faz panorama de seu pensamento do cientista social; atuação política fica em segundo plano

Nascido há 95 anos, Helio Jaguaribe tem feito incursões pelas ciências sociais, pela filosofia, pela história, pelas relações internacionais. É um enciclopedista, como diz um amigo em cena do recém-lançado "Tudo É Irrelevante".

Dirigido por Izabel Jaguaribe, uma das filhas de Helio, e Ernesto Baldan, o documentário começa pelas implacáveis observações do intelectual carioca em torno da metafísica.

"O homem é um momento fugaz entre o nada que precede seu nascimento e o nada que se segue à sua morte".

Apesar da clareza e da assertividade, reflexões como essa não bastam para fazer cinema. Os diretores usam outros meios para desenvolver o filme, mais um ensaio ou um recorte biográfico do que uma cinebiografia convencional.

Intervenções

A narração de Fernanda Montenegro faz a ligação entre comentários de Jaguaribe e de amigos.

As imagens de todos aparecem combinadas com intervenções sobre fotos, ilustrações e vídeos, uma aposta bem-sucedida da direção de arte assinada por Baldan e Indio San.

O recurso ajuda a diluir o efeito monocórdio da sucessão dos depoimentos, mas, ainda assim, o longa-metragem ganharia com seleção mais rigorosa das declarações.

Além das observações do próprio Jaguaribe, os mais valiosos depoimentos são do diplomata e filósofo Sérgio Paulo Rouanet. É ele quem faz referência ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb) como a "mais formidável máquina de pensar que o Brasil já teve".

Projeto

Criado em 1955, o Iseb foi o centro teórico do nacional-desenvolvimentismo, projeto que estimulava a industrialização do País. Como um dos principais nomes do Iseb, Jaguaribe exerceu influência sobre o governo Juscelino Kubitschek (1956-1961).

Em nenhuma outra época como nesses anos 1950, o sociólogo carioca assumiu tão fortemente o papel de intelectual público, aquele que, nas suas palavras, "procura contribuir para o aperfeiçoamento da sociedade".

O filme não aborda a participação de Jaguaribe como secretário de Ciência e Tecnologia do governo Collor (1990 - 1992), talvez porque os diretores não a julguem relevante, talvez porque tenham optado por manter o documentário longe do vespeiro da política brasileira recente. É uma pena porque o intelectual público se constitui como tal ao, entre outras coisas, correr os riscos do exercício do poder.

Mas a omissão não chega a macular o filme, uma boa porta de entrada para o conjunto de ideias e ações de Helio Jaguaribe.

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