Artes cênicas

Grito compartilhado

Encenado neste domingo (16) no TJA, espetáculo "Barracal" propõe reflexões sobre marginalizados

00:00 · 15.09.2018 por Diego Barbosa - Repórter
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Urro de afirmação da identidade da periferia, "Barracal" busca uma construção de poética engajada, ampliando questões de luta ( Foto: Guilherme Silva )

Foi o desejo de compartilhar os escritos da autora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) que motivou a dramaturga, atriz e bailarina cearense Andreia Pires a idealizar o espetáculo "Barracal", em cartaz no Theatro José de Alencar neste domingo (16), a partir das 19h, em apresentação única. "Mesmo tendo uma obra tão importante, ela é muitas vezes esquecida pelo público devido ao background de sua história, um registro de tantas mazelas sociais do país", justifica a artista.

A vontade de conferir maior visibilidade à trajetória da escritora - um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea nacional - veio atrelada a outro ideal: a busca pela construção de uma poética capaz de ampliar os pensamentos criativos referentes a questões de luta, enfocando em matizes como desigualdade social, jovens negros, mulheres na periferia e estrutura de moradia das cidades.

Os ingredientes são herdados da obra "Quarto de despejo: Diário de uma favelada", obra mais famosa de Carolina de Jesus, publicada em 1960. Não à toa, é a narração de alguns dias descritos pela mineira no livro que dão o tom da apresentação - uma encenação musicada que une o texto documental às canções de Cartola (1908-1980).

As composições são interpretadas ao vivo, sob direção musical de Pedro Madeira, da Orquestra Popular do Nordeste.

Engajamento

A mescla da linguagem em prosa com o cancioneiro do sambista, segundo Andreia, é justificada. "Os dois possuem uma trajetória bem parecida. Eram artistas negros, pobres e só foram obter maior reconhecimento após a morte", lembra Andreia.

Além disso, a confluência entre os diferentes suportes artísticos interfere no modo de fazer um teatro que não seja representativo das questões levantadas, mas engajado nelas, inventando outras formas de compor música e teatro sem necessariamente seguir critérios outrora impostos.

"Queremos trabalhar com questões de vida, que não são distantes da arte. Até porque parte do elenco também integra a estrutura de vida que a Carolina Maria de Jesus vivenciou. A maioria são mulheres, negros e da periferia", sublinha a artista, ressaltando que o espetáculo é composto não apenas por atores, mas também cantores, músicos e bailarinos - em um total de 24 pessoas.

No palco, todos estão engajados em passar uma mensagem de afirmação do lugar da identidade do negro e do pobre na sociedade.

Reflexão

É a segunda vez que "Barracal" ganha os olhares do público na Capital. Antes, o grupo havia se apresentado no Cineteatro São Luiz, no dia 28 de julho, com uma leitura dramática do material. Agora, a encenação ganha mais corpo, recorrendo a variáveis mais abrangentes das Artes Cênicas para dialogar com as premissas que levanta.

Com o trabalho - que demandou cinco meses de preparação até atingir a estrutura atual -, a diretora destaca o desejo de todo o grupo que a peça não seja apenas um mero entretenimento, mas uma maneira de alcançar um grau de reflexão sobre importantes questões sociais que pautam a sociedade contemporânea.

"O espetáculo é um grito político porque, hoje em dia, existe muita gente alienada culturalmente. É uma forma de dar vez a quem historicamente é marginalizado pela maior parte das pessoas", afirma.

"É um privilégio, então, enquanto artista, compartilhar um trabalho como esse que se vale das experiências da vida de cada um dos integrantes para atingir um todo", completa.

Depois de passar pelo TJA, o grupo planeja circular por mais equipamentos culturais da Capital, buscando ingresso também em palcos para além dos limites cearenses. Até lá, fica a bandeira do talento e da resistência a guiar cada passo da trupe.

"Estamos perto de uma eleição, no meio de uma crise, então torna-se urgente esse desejo de compartilhar os escritos de uma pessoa que merece a atenção de todos pelo legado que deixou", finaliza Andreia.

Fique por dentro

Carolina Maria de Jesus e a força de uma narrativa

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Nascida em Sacramento, cidade do interior de Minas Gerais, Maria Carolina de Jesus mudou-se para a capital paulista em 1947, época em que surgiam as primeiras favelas na cidade. Lá, ela se fixou na favela do Canindé, zona norte de São Paulo, onde trabalhava como catadora. Ainda que com pouco estudo - cursou apenas as séries iniciais do ensino fundamental -, Maria Carolina tornou-se um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea ao reunir em casa mais de 20 cadernos com testemunhos sobre o cotidiano do lugar que morava. Um deles deu origem ao livro "Quarto de despejo: Diário de uma favelada", publicado em 1960, no qual constam relatos impressionantes sobre o dia a dia da comunidade. Um testemunho cru sobre a situação degradante em que vivia, que logo se tornou objeto de estudo de pesquisadores devido às possibilidades de pensar o cerne de problemas sociais, como a desigualdade. Após o lançamento de "Quarto de despejo", seguiram-se três edições, com um total de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países. A autora publicou ainda o romance "Pedaços de fome" e o livro "Provérbios", em 1963. Após sua morte, em 1977, foram publicados "Diário de Bitita", "Um Brasil para brasileiros", "Meu estranho diário" e "Antologia Pessoal".

Mais informações:

Espetáculo "Barracal". Neste domingo (16), às 19h, no TJA (R. Liberato Barroso, 525, Centro). Ingressos: R$ 10 (inteira). Contato: (85) 3101.2601

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