Grandes formações, pequenos recursos

Para além das limitações da atual crise econômica, as orquestras do Ceará sobrevivem em um cenário desvalorizado. Maestros e músicos apontam saídas através da educação e de mais investimentos na cultura

00:00 · 17.06.2017 por Felipe Gurgel - Repórter

A crise econômica que serve de pretexto para cortes e perdas de direitos, na atual rotina do trabalhador brasileiro, não é exatamente uma novidade na Cultura. O setor segue, no País, sempre em crise, contando com baixos orçamentos e projetos - de pequeno a grande porte - em eternas pelejas na relação com o poder público.

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Olhando para a situação das orquestras do Estado do Ceará, o quadro é ainda mais delicado: o recurso público, quando chega, é pouco para a necessidade de amplas formações de músicos. Além disso, a falta de uma cultura local, que favoreça a sustentabilidade das formações, também dificulta a caminhada.

Há 19 anos na ativa, a Orquestra Filarmônica do Ceará segue regida pelo maestro Gladson Carvalho (56). A formação básica é subdividida em três categorias: o quinteto de cordas, quinteto de sopros e o de metais. Esse grupo de 15 músicos, mais um músico sincronista, além do maestro, é a base. Segundo Gladson, em entrevista por telefone, a Orquestra contabiliza mais de 40 DVDs gravados, seis álbuns, além de figurar no livro "Uma Vida, Um Destino" (Editora Realce, 2009), sobre os 10 primeiros anos do projeto (1998-2008).

Com discurso muito incisivo a respeito da falta de valorização das orquestras no Estado, Gladson Carvalho exemplifica como é difícil captar recursos. A Filarmônica teve projeto aprovado pela Secretaria da Cultura do Estado (Secult), através da lei do Mecenato (para conseguir dinheiro junto às empresas, via renúncia fiscal), mas até então nenhuma empresa apoiou. "A gente não consegue captar, por falta de visão (dos empresários). Eles sequer sabem o que é direito (uma orquestra)", pontua o maestro.

Vivendo da bilheteria dos espetáculos e de doações, a Filarmônica tenta emplacar um programa de sócios-contribuintes para gerar um modelo de sustentabilidade. A sede dos ensaios já foi na antiga residência do maestro, na Parquelândia, por falta de recursos.

"Quem se associar, paga R$ 30 por mês. Dá um real por dia. Tento sensibilizar a população para doar. Com esse dinheiro, de uns dois mil sócios, mais uma sede própria, já daria uma vida nova para a orquestra. Sobre a sede, os gestores (públicos) já estão cientes da demanda. Queremos trabalhar com formação nesse espaço", situa Gladson Carvalho.

Ele frisa que ainda luta, nesse sentido, pela formação de jovens músicos. "A minha geração já foi. Estamos sem líderes. E a cultura jogada a qualquer coisa", critica o maestro, destacando que não quer passar uma impressão de "coitadinho", mas de alguém que reivindica dignidade para as orquestras e a música local.

Em números, ele coloca que um patamar mais digno para uma orquestra contar com a dedicação de seus músicos seria pagar, por mês, de R$ 4 a 5 mil por músico, e R$ 20 mil para o maestro. "Isso aqui no Nordeste", observa. Ao mencionar o caso da Paraíba (ele foi maestro da Sinfônica Jovem e criou a Orquestra de Violões do Estado), Gladson enfatiza que falta vontade política para o sustento das orquestras no Ceará.

"O Ceará não tem essa tradição, nem a vontade política. Converso com todos os gestores: estadual, municipal. No Revéillon de 2015 para 2016, ganhamos um cachê de R$ 30 mil para se apresentar. E esse dinheiro durou três meses, mantendo a orquestra", conta.

Iniciativa privada

Segundo o maestro, o que acaba ajudando as orquestras e a cena da música local é, também, a resistência de profissionais liberais ligados à cultura. "O artista às vezes é um romântico tardio, e a gente precisa as vezes de gente mais pé no chão", observa, sobre o papel desses parceiros.

Gladson recapitula que a precariedade que envolve as condições de trabalho das orquestras cearenses é o lugar comum do mercado de música local. "A gente tem músicos no Ceará de alto nível. Mas vivemos quase como pedintes, tocando por R$ 100, R$ 200, para pagar aluguel, luz. É uma vergonha para qualquer autoridade cultural do Estado. A música de concerto não existe mais: o que existe é uma resistência de cinco, seis pessoas teimando em fazer uma coisa séria", percebe o maestro.

Popular

Uma das saídas para a formação de plateia (e, consequentemente, de sustentabilidade do projeto) é trabalhar com repertórios da música popular. No próximo dia 22, por exemplo, a Orquestra Filarmônica do Ceará apresentará versões do cancioneiro de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira no Theatro José de Alencar (Centro).

Em parceria com grupos experimentados em cada repertório escolhido, a formação já tocou Legião Urbana, Queen, Roberto Carlos, Iron Maiden, U2, Alcione, entre outros nomes de maior visibilidade.

"Fazendo um diálogo com esses repertórios populares, o pessoal canta muito. E isso aí salvou a Filarmônica, para entrar renda e pagar os músicos", destaca Gladson Carvalho, ponderando que não é uma questão de pôr a música clássica de lado.

O maestro sugere longa vida à Filarmônica cearense, embora ele se mostre saturado dos mesmos percalços. "Eu morrendo hoje, teria três, quatro pessoas formadas por mim para assumir a Orquestra. É um projeto para o resto da vida", vislumbra.

Mais informações:

Espetáculo da Orquestra Filarmônica do Ceará, com repertório de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Na próxima quinta (22), às 19h30, no Theatro José de Alencar (R. Liberato Barroso, 525, Centro).

Ingressos: R$ 30 (inteira).

Contato: (85) 3101.2583

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