Disco

Gaúchos com sotaque italiano

O quarteto Selton (RS) consolida carreira na Itália ao lançar seu novo álbum, "Manifesto Tropicale"

O quarteto Selton: para o novo disco, eles mantiveram a parceria com o engenheiro de som Tommaso Colliva, com quem trabalham desde 2010
00:00 · 03.01.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

No primeiro semestre de 2016, quando os gaúchos da Selton passaram pelo Brasil, embora já carregassem um prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte, em 2013), sua trajetória talvez chamasse mais atenção do público brasileiro do que a própria música. A banda do Rio Grande do Sul começou a se apresentar em Barcelona, na Espanha, e hoje vive em Milão, Itália.

Esse quadro mudou com o lançamento do ótimo "Loreto Paradiso" (2016). O disco teve bom feedback da crítica nacional e ajudou a consolidar os gaúchos no circuito musical italiano. No "país da bota", eles são contratados pela multinacional Universal Music e souberam aproveitar bem o suporte da empresa para ganhar espaço na Europa. O single "Voglia di Infinito", incluso na edição italiana de "Loreto", foi um dos trunfos da Selton nesse movimento.

Em 2017, com repertório cantado predominantemente em italiano, os gaúchos lançaram "Manifesto Tropicale". O título do novo álbum faz referência ao misto de gêneros musicais e referências da cultura brasileira e universal, presente na sonoridade da Selton.

Para a produção de "Manifesto Tropicale", Daniel Plentz (voz, bateria, programações), Eduardo Stein Dechtiar (baixo, voz), Ramiro Levy (guitarra, voz) e Ricardo Fischmann (guitarra, voz) mantiveram a parceria com o engenheiro de som Tommaso Colliva (Muse, Damon Albarn, Franz Ferdinand), produtor dos discos da banda desde o lançamento do álbum homônimo, em 2010.

Os gaúchos querem realizar turnê no Brasil em 2018, mas por enquanto não confirmam datas. Para a Selton, a prioridade da carreira, sobretudo após a repercussão de "Loreto Paradiso", é a Itália. Pelo país europeu, a banda começou uma turnê em novembro passado, apresentando-se em cidades como Roma, Bolonha, Parma, Florença, Turim e Pádua.

capaClimas

Logo na primeira faixa, "Terraferma", o ouvinte se depara com uma atmosfera mais introspectivo em relação à disposição de "Loreto Paradiso" e sua sonoridade festiva. A própria musicalidade do sotaque italiano, idioma predominante no álbum, ajuda a fechar o clima. No entanto, a faixa também evidencia o traquejo da Selton para acertar canções com intenso apelo melódico e prontas para fisgar atenção dos ouvintes (como aqueles discos para se ouvir com fone e cantar a fim de passar o tempo).

"Luna in Riviera", que ganhou clipe com cara de trilha de balada chique, já dialoga mais com a sonoridade dançante do disco anterior. E, de certa forma, situa a Selton num molde de "world music", dado o apelo universal do som dos gaúchos. É um dos destaques do novo repertório.

"Sampleando Devendra" mistura português, espanhol e italiano. A terceira faixa do álbum soa mais orgânica e menos pasteurizada em relação à produção musical da maioria das canções da Selton (traço comum aos artistas que passam pelas mãos de produtores muito experientes).

É possível imaginar essa organicidade caso a banda se soltasse mais e se permitisse apostar em uma sonoridade rústica (como se ensaia nesta faixa, graças à força das percussões), combinada às boas melodias.

"Cuoricinici", outra que ganhou clipe, consegue equilibrar bem o apelo de canção e a estrutura de trilha sonora. "Jael", mais introspectiva, fala de saudade e mostra como a Selton, mesmo quando opta pela balada, ainda soa excessivamente "brilhosa". A faixa não deixa de ser uma canção bonita, mas o excesso de produção prejudica a sutileza da composição em si.

Visão

"Tupi or not Tupi" já traz um clima pesado e dançante, com a cara da dita "world music". É curioso como o quarteto gaúcho direciona um olhar com certa distância sobre a cultura brasileira, como se fossem gringos percebendo o Brasil. A faixa transparece essa abordagem, através de citação direta ao "Manifesto Antropofágico" de Oswald de Andrade (1890- 1954).

"Bem Devagar", como já explicita o título, é uma canção malemolente, que repete uma estrutura comum ao restante do álbum: sim, a sonoridade de "Manifesto Tropicale" tem uma roupagem menos festiva que a do disco anterior, mas as composições permitem um amplo espaço de experimentação amplo para as letras. Os gaúchos misturam idiomas e repetem versos, à medida do efeito pop buscado pela produção.

"Lunedi" e "Avoar" (esta traz clima de vinheta, um ponto fora da curva no repertório), por fim, atestam a compilação regular, sem grandes destaques e que pode fazer o ouvinte mais atento ao trabalho dos gaúchos sentir saudades de "Loreto Paradiso".

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