PSICANÁLISE

Fundamentos do tratamento psicanalítico

10:45 · 03.10.2010
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Um dos mais importantes nomes da Psicanálise Brasileira, o psicanalista e médico psiquiatra Marco Antonio Coutinho Jorge lança o, tão esperado por seus leitores, segundo volume dos Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan, onde se dedica às tramas conceituais que embasam a clínica psicanalítica

Ao final da introdução do seu novo livro, Marco Antonio Coutinho Jorge nos relembra que "Como dizia Lacan, o psicanalista sério não se reconhece pelo rosto sisudo e postura fechada, mas pelo fato de que faz série, isto é, insiste com seu desejo numa determinada direção, retirando dele sua garantia subjetiva". Eu diria que, não apenas, o seu novo livro sobre a clínica da fantasia faz série ao seu primeiro, garantido o seu lugar na transmissão da psicanálise no Brasil, como ele mesmo, pelo direcionamento do seu desejo vem fazendo série ao longo de sua trajetória como psicanalista, tanto pelas análises que tem empreendido em seu percurso, como pela transferência de trabalho que tem despertado em colegas de diversos estados do país, as quais se edificam em torno do estudo de Freud com Lacan.

Tal traço encontra-se presente nesse seu novo livro e se dá a ver através da elegância estilística com que transmite, de forma simples e informada, questões extremamente complexas envolvidas no tratamento das neuroses, perversões e psicoses. Dentre elas, merece destaque a dimensão traumática do real, em relação à qual se erguem a fantasia, o sonho, o delírio e a imaginação.

Essas são as formas diferenciais com que contam os humanos para lidar com o osso de suas existências e que apresentam em comum a proteção desses contra o sem sentido. Esse livro, agora dedicado à clínica da fantasia, visa de uma forma geral, investigar "uma das mais antigas questões postas por Freud:o que seria de nós sem o amor?" A relação entre o desejo, a fantasia, o amor e o gozo é abordada, assim, em sua enlace com o sofrimento psíquico e o seu tratamento.

Tem por fio condutor a importância da descoberta freudiana acerca do papel exercido pela fantasia em nossa realidade psíquica e de seu desdobramento ao longo de sua obra, bem como na retomada que faz dela Jacques Lacan, ao propor, no segundo momento de seu ensino, à luz de seu conceito de objeto a, que o tratamento psicanalítico conduza à travessia da fantasia que aprisiona o desejo do neurótico, o livro se divide, então, em três partes.

A primeira delas é dedicada aos nexos entre fantasia e pulsão sexual, esta entendida como a primeira subversão freudiana que possibilitou o desenvolvimento do que o autor aí chama de "O ciclo da fantasia", que se iniciaria em 1906, e sucederia o "Ciclo do inconsciente", ocorrido, segundo ele, entre 1900 e 1905, com a progressiva formalização do conceito de inconsciente. Segundo a teia argumentativa desse capítulo, o ciclo da fantasia se prolongaria até 1911 e seria responsável pelo início de um novo ciclo, denominado de "Ciclo da técnica", onde Freud teria colhido as consequências do desenvolvimento do conceito de fantasia para fundamentar a técnica psicanalítica, na qual ocupa um lugar fundamental seus artigos sobre o início e a condução da cura analítica e sobre o papel nela desempenhado pela transferência. São trabalhadas, ainda, como sintoma e fantasia se entrecruzam e sobre os dois polos da fantasia, que por sua vez engendram, assim, a discussão acerca da relação entre amor e gozo.

Na segunda parte do livro, o autor traça os impactos da " segunda subversão freudiana", qual seja, a descoberta da pulsão de morte e suas tácitas e estranhas relações com os obstáculos que se erguem à cura analítica. Tal conduziria a uma renovação da técnica analítica por Freud, devido aos acréscimos produzidos em relação à construção da fantasia. A relação entre amor e morte são magistralmente tratados nessa parte, além da relação entre pulsão de morte, masoquismo e gozo.

Fechando o livro, fala do despertar do sentido, o qual nos levaria a despertar para o real, para o sem sentido. Com isso, nos leva a pensar sobre a importância clínica do efeito de sentido real, ao qual Lacan se refere no terceiro momento do seu ensino, prolongando a reflexão sobre a cura para além da travessia da fantasia, para além dos efeitos de sentido simbólico e imaginário.

Todos esses tópicos, essenciais ao entendimento clínico, o autor nos apresenta, fazendo-se valer de sua rica experiência clínica, bem como de sua sensibilidade cultura literária e estética, a qual refaz e renova constantemente o direcionamento de seu desejo e a sua série.

LAÉRIA FONTENELE
COLABORADORA*
* Psicanalista e Professora da UFC

PSICANÁLISE
A Clínica da Fantasia
Marco Antonio Coutinho Jorge

ZAHAR
2010
292 PÁGINAS
R$ 39,90

Psicanálise, Freud, Lacan, clínica da fantasia

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