Tom Wolfe

Foi-se o último dândi

Morto aos 88 anos, Tom Wolfe destilou através do jornalismo todo um olhar crítico sobre o cotidiano e os costumes da sociedade norte-americana

00:00 · 17.05.2018 por Antonio Laudenir - Repórter

Thomas Kennerly Wolfe ainda era uma criança quando deparou-se com uma maldição. Apresentado logo cedo pelos pais ao universo das artes, descobriu na escrita a força necessária para decifrar o mundo ao seu redor. No mergulho inicial pelas letras o menino de nove anos trilhou o ambicioso caminho de produzir as biografias de Napoleão Bonaparte (1769-1821) e Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Folclore ou não, eclodia após este fato uma sina que o perseguiria até os derradeiros dias de vida: Tom Wolfe, o cronista ácido do cotidiano.

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Ao longo do último meio século, o chicote do icônico jornalista e romancista estalou sem piedade nas sutilezas da sociedade norte-americana. Optando por ir bem mais além do que as aparências sugerem, encontrou a matéria-prima de seus ensaios e romances nas ruas. Com um requinte somente comparável ao alinhados ternos que vestia, abriu a tampa de um corrosivo testamento sobre o "way of life" tão próprio dos ianques.

Muito dessa trajetória de vida tornou-se popular tardiamente, justamente quando Wolfe tornou-se um romancista de sucesso com a publicação de "A Fogueira das Vaidades" (1987). Entretanto, o incêndio causado pelo escritor fora iniciado tempos antes quando inseriu no jornalismo praticado nos Estados Unidos uma visão mais subjetiva dos acontecimentos e da realidade. Na metade dos anos 1960, uma série de transformações sociais chacoalhavam os ditos "bons costumes" da Mãe América.

O mundo acabara de testemunhar o cheiro de morte advindo com a Segunda Guerra Mundial, que, de 1939 a 1945, arruinou diversas nações e aniquilou milhões de anônimos. Neste cenário de reconstrução, a contracultura tomava a dianteira como um farol questionador tanto da sociedade como de suas instituições.

Para o escritor Marc Weingarten, autor da obra "A turma que não escrevia direito: Wolfe, Thompson, Didion e a revolução do Novo Jornalismo", Wolfe e seus contemporâneos desconfiaram que as ferramentas tradicionais do jornalismo eram inadequadas para lidar com aquele turbilhão de mudanças culturais. Discussões como drogas, direitos sociais e toda uma severa crítica aos desmandos do então presidente Richard Nixon (1913-1994), alinhava-se a redescoberta dos escritores beatniks (Allan Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs) e um tipo de literatura que, na década anterior, abordou e destrinchou temas controversos.

"Tudo isso ecoou no jornalismo. Como um tradicional repórter restrito aos fatos podia ousar dar uma ordem clara e simétrica a tamanho caos? Muitos deles não podiam e não o fizeram", defende Weingarten através de sua obra. O estilo literário de Wolfe surgiu como uma navalha justamente no epicentro dessas mudanças comportamentais.

Acaso

Em 1963, encarregado de escrever sobre carros personalizados para a revista Esquire, o então repórter sofria um dessabor comum à rotina jornalística, a chamada "síndrome da página em branco", instante onde o texto do jornalista emperra e nada acontece no papel. Para driblar esse bloqueio criativo, por sugestão do editor Byron Dobell (1927 - 2017), Wolfe decidiu escrever notas apressadas sobre aquilo que testemunhara.

Livre da pressão redigiu 49 páginas e as enviou para Dobell. A reportagem acabou virando um romance curto, intitulado "The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby" (1965). O livro desfila uma apresentação prodigiosa de personagens e a multiplicidade de pontos de vista é preenchida com trechos de diálogos, descrições detalhadas, onomatopeias e muitas exclamações. Estava lançada a carreira de escritor.

Dezoito meses depois, Wolfe virou a figura central do "novo jornalismo", um gênero híbrido sob o qual se encontravam outros caras da imprensa como Hunter S. Thompson (1937-2005), Norman Mailer (1923-2007) e Truman Capote (1924-1984). Para publicações como Rolling Stone e New York Herald Tribune, escreveu crônicas sobre a cultura pop que ardia naquele instante e tratou de assuntos subterrâneos como o mercado de arte ou o LSD.

"Eles apareceram para nos contar histórias sobre nós mesmos de maneiras que nós não podíamos contar, histórias sobre como a vida estava sendo vivida nos anos 1960 e 1970 e o que aquilo tudo significava", descreve Weingarten sobre os "novos jornalistas". Assim, muito das estruturas e convenções do jornalismo seriam alteradas severamente por Wolfe, o último de uma linhagem de Dândis.

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