Ensaio

Florbela Espanca: discurso da mágoa

00:00 · 23.02.2014

Em “O Livro de Mágoas”, Florbela Espanca a ponta os elementos-chave de sua tessitura poética: a dor, a mágoa, a solidão

Toda a obra do Livro O Livro das Mágoas revela a subjetividade e o universo da dor da autora. Para isso, o eu poético se identifica com elementos da natureza: "lua", "sol", "mar". Tudo no livro identifica a criação poética com os sentimentos da autora, o que pode ser lido em "Desejos vãos" ( Texto I)

Leitura do poema

O lirismo da dor sugere nos sonetos uma imagem de profunda tristeza, um desejo imenso de ser outra coisa e não ela mesma. Na primeira estrofe o eu lírico revela um desejo de ser uma pessoa diferente: "Eu queria ser o Mar de altivo porte". Ele repete isso diversas vezes dando aos elementos da natureza características humanas, como em: "Que ri e canta".  Esse desejo pode ser uma tentativa de fugir de se mesmo, das suas fragilidades e defeitos, busca então nessas figuras algo que lhe falta. Mas, em seguida, percebe que tais fortalezas também sucumbem, dos versos 9 em diante é possível identificar que as características que antes eram enaltecidas caem por terra diante de suas fragilidades, cada uma delas demonstram suas fraquezas: "Mas o Mar também chora de tristeza .../As árvores também, como quem reza,/Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!". Os versos finais conotam a desesperança e decepção de crer que seria possível achar forças em elementos mais fortes e a percepção de que os mesmos também sofrem. O soneto com doze sílabas possui rimas pobres, talvez característica decorrente da inexperiência da autora, sendo essa sua primeira publicação, traço que com certeza foi superado ao longo dos anos.

Outra visão

Há, como se vê nessa poesia inaugural, uma ascendência do mundo masculino sobre a mulher, e nesse contexto, a dor - dote exclusivamente feminino. A dor no texto de Florbela não só se refere à dor de amar, mas percebe-se no texto da autora a dor de não ser o que deseja, de reconhecer sua incapacidade, e sua inexperiência quanto ao início de sua trajetória como escritora. Adentrando em um universo totalmente masculino, sua caminhada não iria ser fácil, precisaria romper muitos paradigmas. Em "A Maior Tortura", a ânsia do eu lírico por se tornar uma grande poetisa, como os grandes poetas que admirava.( Texto II)

Leitura do poema

É inegável a mistura entre a vida, os sentimentos, e as emoções da autora com a sua obra. Nos versos 2, 3 e 4 da primeira estrofe expressam o estado de espírito e identificam nos termos "chorar convulsa", "sombra fugidia", termos esses bem mórbidos e comuns nas poesias do livro. Florbela conseguiu cruzar sua estética literária  entre as tendências do lirismo do século passado com os autores, que admirava, como Júlio Dantas, Guerra Junqueiro, Antero de Figueiredo, José Duro e António Nobre e a  renovação com a tradição poética. Ela mesma se considerava conservadora, é notável seu apego por manter a estrutura dos sonetos.

Quanto aos aspectos formais do poema, pode-se afirmar que apresenta simetria métrica: todos os quatorze versos possuem o mesmo número de sílabas poéticas (doze), quanto as rimas: as duas primeiras estrofes seguem a sequencia ABBA, interpoladas, portanto, no primeiro e quarto versos e emparelhadas no segundo e no terceiro versos, e os dois últimos tercetos seguem a sequencia de CDC. Eles ainda possuem musicalidade, com metrificação exata, com uso de assonância, sobretudo da letra "i", como fica evidente nos primeiros dois versos da primeira estrofe.

Do Curso de Letras da Uece

Emanuele Silva de Sousa
Colaboradora*

Trechos
TEXTO I

Eu queria ser o Mar de altivo porte/Que ri e canta, a vastidão imensa!/Eu queria ser a Pedra que não pensa,/A pedra do caminho, rude e forte!///Eu queria ser o Sol, a luz imensa,/O bem do que é humilde e não tem sorte!/Eu queria ser a árvore tosca e densa/Que ri do mundo vão e até a morte!///Mas o Mar também chora de tristeza .../As árvores também, como quem reza,/Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!///E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,/Tem lágrimas de sangue na agonia!/E as Pedras ... Essas ... Pisa-as toda a gente! ...

TEXTO II

Na vida, para mim, não há deleite./Ando a chorar convulsa noite e dia .../E não tenho uma sombra fugidia/Onde poise a cabeça, onde me deite!///E nem flor de lilás tenho que enfeite/A minha atroz, imensa nostalgia! .../A minha pobre Mãe tão branca e fria/Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!///Poeta, eu sou um cardo desprezado,/A urze que se pisa sob os pés./Sou, como tu, um riso desgraçado!///Mas a minha tortura inda é maior:/Não ser poeta assim como tu és/Para gritar num verso a minha Dor! ...

FIQUE POR DENTRO
Aspectos gerais da autora e da obra

A autora Florbela de Alma da Conceição Espanca é filha de Antónia da Conceição Lobo e de João Marya Espanca, e nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894 em Vila Viçosa, no Alentejo. Florbela ingressou no Liceu Masculino André de Gouveia em Évora, onde permaneceu até 1912. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso de Direito. Desde então foi acostumada a enfrentar o universo masculino, pois ela é uma das únicas a ter seu nome vinculado ao mundo da arte moderna, uma prática também sob o domínio masculino na época. Publicou dois livros em vida, "O Livro das Mágoas" (1919) e "Livro de "Sóror Saudade" (1923). Na véspera de seu livro "Charneca em Flor" ser publicado, em 08 de dezembro de 1930, Florbela suicidou-se em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário.

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