Ensaio

Florbela Espanca: a voz da resignação e a inércia espiritual

00:23 · 06.07.2013
Aos 90 anos, Livro de Sóror Saudade, de Florbela Espanca, ainda ecoa os labirintos poéticos de um eu-feminino

O lirismo amoroso lapida sonetos cuja imagem do eu equilibra-se entre a funda tristeza de um ser desenganado pelas armadilhas desse sentimento e, paradoxalmente, a ânsia de tê-lo reconstruído por suas forças inexplicáveis e pelo sonho de torná-lo infinito. A poética da desventura amorosa alinha-se notavelmente nos versos do poema "Inconstância" (Texto I)

Leitura do poema

Em meio a um sonho de edificar o seu "castelo de luz", alegoria para o amor, a primeira estrofe revela um eu lírico consciente de uma dolorosa certeza: pediu "à Vida mais do que ela dava". Assim, a revelação do eu parece promover uma sublimação entre tal consciência e a mentira do outro (não especificada), que talvez seja uma resposta-fuga, por não estar a par do mesmo sonho e por não se identificar com sua natureza, sedenta por encontrar nele algo além de suas possibilidades. Em seguida, a ebulição das sensações da perda toca o devaneio reflexivo, por meio dos versos 2 e 3 da segunda estrofe - que continuam a identificar o sentimento amoroso como algo iluminado, o "sol", astro que dá "luz" e aquece a "Vida" mas se vai com as "trevas" -, evocando a lembrança de quem "vai fugindo", com a escolha das sugestões sinestésicas e sensuais de beijos ardentes. Imagem imediatamente desfeita, no verso final do quarteto, por outra lembrança exclamativamente aterradora: outros sóis já haviam seguido o mesmo movimento de negação. O eu lírico, a partir disso, volta-se para si mesmo, confessando mais de suas agruras amorosas, agora demonstrando resignação diante do fato de que sempre um amor vinha "a apagar-se e outro a acender", lançando-o na imprecisão sensorial de um caminho pouco iluminado, a "bruma". Na estrofe final, embora haja um retorno ao amor inicial do poema, mantém-se a postura resignada em relação a ele. No entanto, a sede de iluminação faz com que comece a haver, no céu de seu mundo, a presença de dois sóis (amores): um que está partindo, e outro que está nascendo. Isso não significa, porém, felicidade, posto que sua consciência acaba por concluir que também esse irá se apagar, só não sabe "quando".

Um detalhe do plano formal chama a atenção: a inconstância não esteve apenas no plano lírico do eu. Embora o soneto seja naturalmente decassílabo; precisou do recurso da acomodação para sê-lo. É o que se verifica no verso 1, da primeira estrofe; no 3, da terceira; e no 1, da quarta que, por uma metrificação tradicional, possuiriam nove sílabas poéticas.

Um eu indiferente

No estudo crítico sobre a obra de Florbela Espanca, publicado no livro Sonetos (Bertrand Brasil, 1995), o poeta e ensaísta José Régio (1901-1969), assim se referiu à poetisa alentejana (Texto II):

Negar a influência que o espírito do artista, com suas emoções e sua própria vida, exerce sobre seu fazer poético seria desvencilhar por completo autor e obra, mesmo considerando ser a poesia fingimento, na medida em que é uma refração emocional, e que o abismo entre o eu lírico e o autor pode se revelar profundo. A biografia de Florbela apresenta uma sem-número de acontecimentos que ajudam a explicar sua poética contraditória, exibida por seu eu lírico. A mesma voz que sofre e se resigna, revela, em alguns poemas, uma triste indiferença em relação à desventura, como se evidencia em "Ódio?" (Texto III)

A não-linearidade do discurso amoroso é prova dos movimentos a que se submete. Aí está a manifestação poética de uma vida contraditória, repleta de reveses. Os estados de alma da poetisa, confirmada por seus biógrafos e por seu diário, migram da vida para a obra e revelam mais que um simples fingir, embora isso não seja negado de todo. "Ódio?" é uma resposta indiferente a uma situação de dor, deixando inferir uma espécie de saudade orgulhosa, inércia espiritual. O terceiro e o quarto versos da segunda estrofe expressam bem este estado, revelado pelo "olhar", que espelha as vozes da alma, aqui identificado como de "monja, trágico, gelado". Monja bem se enquadra à figura da sóror enclausurada, que possui desejos, mas demonstra resignação e frieza diante dos fatos, embora, em seu ser, revele-se trágico, já que esta voz sonha, e ao sonhar sofre, demonstrando impassibilidade, pelo menos aparente, com a própria visão de ver o próprio amor "doutra, bem distante", sem "mágoa" e sem "saudade".

Quanto a alguns aspectos formais do poema, é lícito afirmar que apresenta simetria métrica: todos os seus quatorze versos possuem o mesmo número de sílabas poéticas (dez), configurando-se como um poema decassílabo, forma predominante em Florbela Espanca. Quanto às rimas: as duas primeiras estrofes seguem a sequência ABBA, interpoladas, portanto, no primeiro e no quarto verso, e emparelhadas no segundo e no terceiro; e os dois últimos tercetos exibem a sequência CCD.

Pode-se apontá-las, também, como do tipo consoante, já que há identidade, e m todas elas, entre consoantes e vogais; são, ainda, rimas graves, todas formadas por paroxítonas; e do ponto de vista gramatical, mesclam-se entre rimas pobres e rimas ricas, pois ocorrem entre palavras da mesma classe gramatical (pranto/ Santo) e de classe distintas (infinda/ainda). A musicalidade dos versos, além de contar com a metrificação exata, também conta com o uso de assonância, sobretudo na letra "o", como fica mais evidente no terceiro verso da primeira estrofe.

Trechos

TEXTO I

Procurei o amor que me mentiu. /Pedi à Vida mais do que ela dava. /Eterna sonhadora edificava/Meu castelo de luz que me caiu!///Tanto clarão nas trevas refulgiu, /E tanto beijo a boca me queimava!/E era o sol que os longes deslumbrava/Igual a tanto sol que me fugiu!///Passei a vida a amar e a esquecer.../Um sol a apagar-se e outro a acender/Nas brumas dos atalhos por onde ando...///E este amor que assim me vai fugindo/É igual a outro amor que vai surgindo,/Que há de partir também... nem eu sei quando...

TEXTO II

a obra de Florbela é a expressão poética de um caso humano. Decerto para a infelicidade de sua vida terrena, mas glória de seu nome e glória da poesia portuguesa. Florbela viveu a fundo esses estados quer de depressão, quer de exaltação, quer de concentração em si mesma, quer de dispersão em tudo, que na sua poesia tingem tão vibrante expressão.

TEXTO III

Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto, /Se tanto bem lhe quis no meu passado, /Se o encontrei depois de o ter sonhado, /Se à vida assim roubei todo o encanto, ///Que importa se mentiu? E se hoje o pranto/Turva o meu triste olhar, marmorizado,/Olhar de monja, trágico, gelado /Com um soturno e enorme Campo Santo!///Nunca mais o amar já é bastante!/Quero senti-lo doutra, bem distante,/Como se fora meu, calma e serena!///Ódio seria em mim saudade infinda, /Mágoa de o ter perdido, amor ainda!/Ódio por Ele? Não... não vale a pena...

FIQUE POR DENTRO

Um breve retrato da autora e de sua obra poética

Florbela de Alma da Conceição Espanca nasceu em 08 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, vila portuguesa, no Distrito de Évora, região do Alentejo. Datam dos anos de 1903 e 1904 seus primeiros poemas. Foi estudante do Liceu Masculino André de Gouveia em Évora, onde permaneceu até 1912. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso de Direito e uma das raras a ter o nome vinculado à arte poética, prática então sob o domínio masculino. Hoje, aqui e alhures, os seus versos são festejados em várias partes do mundo, o que não ocorreu enquanto estava viva, tempo em que foi praticamente ignorada pela crítica e pelo público. Os dois livros que publicou, em vida, foram "O Livro das Mágoas" (1919) e "Livro de "Sóror Saudade" (1923). Às vésperas da publicação de seu livro "Charneca em Flor", em 08 dezembro de 1930, Florbela pôs fim à sua vida, aos 36 anos.

TEÓFILO LEITE BEVILÁQUA
COLABORADOR*

*Do Curso de Letras da Uece

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