Música

Fim da trama: acervo de música virtual sai do ar amanhã

23:46 · 29.03.2013
Após nove anos online, o Trama Virtual será tirado do ar. O site possui quase 80 mil artistas cadastrados

Enquanto a indústria da música batia cabeça com o mp3 e a pirataria na internet, em meados dos anos 2000, artistas independentes no Brasil ganhavam sua primeira ferramenta de divulgação e distribuição online: a Trama Virtual. Após cerca de nove anos na rede, os responsáveis anunciaram o fim. A partir da próxima segunda-feira, quase uma década de música brasileira estará perdida na internet. Fora da rede ou pulverizada em meio aos muitos sites pessoais e páginas em redes sociais.

Geração Trama Virtual: Selvagens à Procura de Lei e Móveis Coloniais de Acaju


O encerramento do projeto foi anunciado com um breve recado que permanece no portal: "O site Trama Virtual sairá do ar no dia 31/03/2013". Desde o início do mês, o site havia desabilitado sua opção de download remunerado, em que artistas recebiam por músicas suas baixadas por usuários. O fim do projeto, retira da web um acervo de 205.368 músicas e 78.735 páginas de artistas cadastrados.

Um acervo precioso da nova música brasileira. Funcionando como uma espécie de revista e comunidade de artistas na rede, a plataforma concentra páginas de apresentações dos músicos ou bandas, com a opção de disponibilizar suas músicas online.

Criada em 2004, pela gravadora Trama, a Trama Virtual antecipou no Brasil um fenômeno de amplitude global com o uso de ferramentas como o MySpace. Idealizado pelos produtores Carlos Eduardo Miranda e João Marcello Bôscoli, o site vinha perdendo espaço para utilitários como Youtube, iTunes, o Facebook, que ampliaram o leque de opções e modificaram a maneira do público acessar e descobrir música na internet. O próprio MySpace, que chegou a ser a principal ferramenta de divulgação de artistas no mundo, vem perdendo um terreno considerável.

Divulgação

"Nós aderimos logo no início. A gente estava inserido no contexto da distribuição online de música. Desde 2003, no nosso site, já disponibilizávamos o primeiro EP. Tinha até arte gráfica para baixar. E a Trama Virtual foi algo que reforçou isso. Quando ela nasce, ela atrai o olhar do público e dos próprios artistas", recorda Fabrício Ofuji, integrante da banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. O trabalho de divulgação do grupo sempre esteve voltado para a internet. Até hoje, estão em primeiro na lista dos mais baixados do site. A página do grupo no Trama Virtual, reforça Fabrício, abriu portas para que ficassem conhecidos nacionalmente. "A gente meio que foi crescendo junto, a banda e o site. Lembro que, logo no início, teve um concurso e acabamos em terceiro lugar geral e o primeiro em votação popular. Em 2006, outro concurso relacionado ao Trama, participamos, ganhamos e fizemos uma apresentação com a Maria Rita, em São Paulo", ilustra.

As bandas Selvagens à Procura de Lei (no topo) e Móveis Coloniais de Acaju estão entre os artistas disponíveis para download no acervo da Trama Virtual

Entre as investidas de ampliação do projeto, foram criadas ferramentas como o já citado "Download Remunerado", o "Álbum Virtual", em que o site bancava o lançamento de discos de artistas como Tom Zé, Nasi, Otto e até clássicos como "Elis & Tom", lançado em 1974 por Elis Regina, que eram postos para download gratuito, alguns por tempo limitado; também foi criada a TV Trama, com transmissão online ao vivo.

"Da nossa parte, o que era proposto pela Trama, a gente participava e tinha êxito. Com o download remunerado a gente teve um ganho considerável. Participamos de um programa que chegaram a ter no Multishow. Aquilo aconteceu no momento que o Móveis estava muito ativo nos festival e isso convergiu para que, em 2009, lançássemos nosso álbum virtual", detalha.

Em tempos de Facebook quase que monopolizando a atenção dos usuários e ferramentas auxiliares como o Soundcloud, ou o YouTube sendo utilizado para abrigar músicas, ainda assim, a Trama Virtual é vista como uma ferramenta relevante na divulgação de grupos em início de carreira.

"A Trama tem a vantagem de seu uma ferramenta mais restrita. Mais fácil de seu trabalho ser visto pelo público que se interessava. Toda semana, colocavam o top 40, destacavam também as bandas que colocaram músicas novas", explica Gabriel Aragão, músico do grupo cearense Selvagens à Procura de Lei.

Eles começaram a utilizar o Trama Virtual em 2010, para a publicação do primeiro EP. "Na época rolava MySpace, Orkut. Mas a Trama, para as bandas brasileiras era o melhor. Porque rolava uma interação muito maior", diz. O grupo chegou a ser destaque do site por duas vezes e fizeram participação na TV Trama, em São Paulo. "A experiência foi irada. Com a Trama, conseguimos chegar a pessoas de fora do Estado. Principalmente em São Paulo. Quando o episódio do TV Trama estava ao vivo, nós acompanhamos o número de seguidores do Twitter subindo", diz.

A decisão de fechar a Trama Virtual pegou muitos de surpresa. Se já não era necessária ao público e ao músicos em meio ao novo leque de opções internet, talvez o tempo dirá. "Vale a pena saber e chamar a atenção que esse projeto foi concebido pioneiramente no Brasil. As próximas plataformas também podem surgir daqui", aposta Fabrício, do Móveis Coloniais.

Mais informãções:

Todo o acervo da Trama Virtual pode ser acessado, gratuitamente, até amanhã pelo site www,tramavirtual.com.br

FÁBIO MARQUES
REPÓRTER

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