Lançamento

Fim às cegas

O músico e produtor Gui Amabis (SP) lança seu quarto álbum, "Miopia", e fecha um ciclo em sua carreira autoral

00:00 · 13.06.2018 por Felipe Gurgel - Repórter
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Gui Amabis chega ao quarto disco de sua carreira solo, sucessor de "Ruivo em Sangue" ( FOTO: JÚLIA BRAGA/DIV. )

A assinatura do músico Gui Amabis (SP) normalmente aparece em produções robustas no cenário da música brasileira. Produtor de artistas como a cantora Céu (em seus primeiros discos) e de trilhas sonoras diversas (a exemplo da música criada para a série "Psi", da HBO), Gui partiu de uma inspiração minimalista, básica, antes de elaborar seu novo álbum, "Miopia".

Recém lançado nas plataformas digitais, "Miopia" foi mobilizado a partir da primeira composição de Gui Amabis. A faixa-título já tinha sido gravada pelo projeto Sonantes (no álbum "Sonantes", 2008) e, no novo trabalho, surge no encerramento do repertório, em um formato mínimo de voz e violão.

"A original era um bolero. Daí decidi gravá-la com violão e voz livre. É uma música que gosto muito. Defini ela para o disco, e fui fazendo as outras músicas. Todo o disco tem essa ideia do quanto que a gente vê, de como a gente se adapta, de acordo com a nossa visão, para ganhar a vida, sobreviver", reflete o músico.

Para "Miopia", Gui Amabis decidiu gravar canções, para além das que assina a autoria sozinho, como "O inimigo dorme", de Siba (PE), e "Contravento", parceria com o baiano Lucas Santtana. "Conheço o Siba desde 2007, quando ele trabalhava com (o produtor) Beto Villares. No (projeto) Sonantes, ele cantou uma música minha, o 'Toque de coito'", situa.

Sobre Lucas Santtana, Gui fala que a parceria "tinha muito a ver com a ideia de imagem". "É uma música imagética e que traz essa questão da visão. Gostava de cantá-la no violão. E as outras seis, inéditas, fiz também em relação a esse conceito (da miopia)", complementa.

Gui Amabis coloca que o novo disco fecha um ciclo. "Miopia" é o quarto álbum da sequência que envolve "Memórias Luso/Africanas" (2011), "Trabalhos Carnívoros" (2012) e "Ruivo em Sangue" (2015, com o qual ele fez show pela última vez em Fortaleza, há um ano, no Mambembe).

"É como se fosse um resumo de todos os outros três na parte sonora. Do som que a gente vem experimentando desde o primeiro disco. Queria que o 'Miopia' visitasse um pouco de tudo, por isso tem a primeira música que eu fiz. É como se fosse um TCC dos outros discos (risos)", detalha Gui.

Formação

Até a gravação deste quarto álbum, Gui Amabis mantinha uma formação de apoio com os músicos Régis Damasceno (violão), Dustan Gallas (guitarra), Samuel Fraga (bateria) e Richard Ribeiro (vibrafone). Para os shows de lançamento de "Miopia", ele já começa a experimentar outro formato. A princípio, a nova banda contará com Régis, Bruno Serroni (cello) e Maria Beraldo (clarinete e clarone). "O núcleo é esse, mas vai variar de acordo com a situação. Posso fazer show eu e o Régis, eu e a Maria, enfim. Meu som poderia ser mais acessível, mas não é bem visto para os festivais. É mais aceito para teatros, etc", situa Gui.

O músico recapitula que a experiência de tocar acompanhado só de Régis Damasceno, na turnê do disco passado (a exemplo do show no Mambembe), ajudou-lhe a perceber nuances, no próprio som, que passavam despercebidas com a banda completa.

"(Na turnê do disco anterior) consegui levar a banda só pra Belo Horizonte (MG). Curitiba (PR) fui sozinho. E para o Nordeste é sempre bem difícil levar banda. Daí veio essa ideia (de enxugar a formação de apoio) e me ouvir melhor no palco. Além de gostar de explorar outras coisas", observa Gui Amabis.

Faixas

A tensão da faixa de abertura do disco, "Ar Condicionado", lembra o universo criativo de Gui Amabis, compositor de trilhas sonoras e de "climas" distintos para alinhar música e imagem. "Miopia" tem sequência com "Espírito Acrobático", faixa que conta com a participação da cantora Juçara Marçal (Metá Metá).

A canção "Mais um Whiskey" consolida um tom melancólico para o início do álbum e estabelece, sem querer, um paralelo com outro lançamento recente do cenário da MPB (o disco "Bílis Negra", do pianista João Leão/SP).

Parceria com o baiano Lucas Santtana (autor do bom "Modo Avião", lançado ano passado), "Contravento" segue em tom similar, mas vai se soltando aos poucos e a sonoridade pende para um arranjo mais balançado, embora a voz de Gui garanta o apelo soturno das composições.

Drama

A dramática "Todos os Dias" traz um recado que poderia ser direcionado às atuais discussões nas redes sociais ("Trago no peito tudo, menos o rancor/ Rancor é coisa do diabo"), embora não seja essa a inspiração. "Para Mujica" é inspirada em uma fala do ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica, sobre se dividir entre a aquisição de bens materiais e viver afetivamente.

"Quase um vinho bom", parceria com Julia Valiengo, reúne as vozes de Tulipa Ruiz e Rosa (filha de Gui com a cantora Céu). A faixa confere, ao destoar do clima melancólico, frescor à sequência do álbum.

"O inimigo dorme", composição do pernambucano Siba, retoma a melancolia. Por fim, a faixa-título finaliza a sequência e mergulha fundo nesse pesar. Carregada por uma bela melodia, a canção é um ponto fora da curva do álbum e, por sua curta duração, deixa o ouvinte com aquela sensação de quando se termina um filme de um modo intenso e abrupto.

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