Fantasia de papel crepom - Caderno 3 - Diario do Nordeste

TEATRO

Fantasia de papel crepom

11.10.2008

Referência na cena local, o ator, autor e diretor Marcelo Costa traz da infância sua paixão pelo teatro

Lá se vão 60 anos, oito meses e 11 dias desde que a funcionária pública Maria Telina de Farias e o comerciante Samuel Costa inauguraram sua prole. Nascia então, no sítio Oiteiro da pequena cidade de Redenção, cerca de 63 Km distante de Fortaleza, o menino Marcelo Farias Costa. “Menino que nada. Eu nunca fui criança. Já nasci com 25 anos”, brinca o ator, autor e diretor, liderança da cena local desde os anos 1970, quando encabeçara a criação de coletivos como a Cooperativa de Teatro e Artes e o ainda atuante Grupo Balaio. Sem filhos e com os poucos sobrinhos já todos bem crescidos, o veterano é pedofóbico assumido. “Tenho aversão a crianças. Digo sempre que não gosto delas. E o melhor é que sou correspondido: elas também não gostam de mim”, confessa.

Ansioso pelo futuro e um tanto descrente com o presente, Marcelo Costa tem com o passado uma relação de muito zelo. “Tenho muito respeito pelo passado, mas não tenho saudade de nada”, afirma. Fã de filmes antigos, leitor assíduo de romances e peças clássicas, o ator e diretor não convive, porém, com nenhuma nostalgia de seus tempos de meninice. “Definitivamente, não me reconheço na criança que fui. Minha infância é como se fosse uma roupa que ficou apertada e não me cabe mais. Quando paro para pensar na minha infância, me assusto com as lembranças das minhas atitudes, com as minhas opiniões. Eu fui uma criança muito solitária. Nunca fui infeliz. Brinquei muito, me diverti muito, mas também sofri muito por ser só, por não saber me comunicar com as pessoas. Foi o teatro que me libertou”, considera.

Mais velho entre oito irmãos, Marcelo Costa fez do teatro o recurso necessário para romper os limites de sua própria casa. “O teatro me colocou no mundo”, diz. “Não fosse o teatro, teria continuado vivendo isolado. Antes disso, só tinha duas opções: ou era o catecismo e a Igreja ou era o futebol. Eu era um completo perna-de-pau. Quando muito, ficava no gol. Mas, quase sempre, eu ficava era no banco”, completa. Assim, o menino Marcelo desandou a “brincar de ator”. “Teatro, para mim, foi algo natural. Procurei o teatro de forma espontânea, como se tivesse com sede e procurasse água para beber. Eu não planejei ser ator, nunca fiz um curso. Encontrei no teatro uma chance de sobreviver”, revela.

Brincadeiras dramáticas

Ainda em Redenção, não faltavam no cotidiano de Marcelo Costa as pecinhas de improviso. “Era tudo brincadeira. Não me lembro onde aprendia aquelas coisas, acho que de folclore, mas a gente o tempo todo ficava improvisando numerosinhos cantados, os dramas populares”, comenta. Para além da tradição, promoveu até concurso de miss com as meninas da vizinhança. Também lá, ele conheceu o teatro oficial: de palco e texto. “Redenção possuía uma vida cultural intensa, apesar de ser uma cidade pequena. Tinha um teatrinho lá ligado ao Círculo de Operários Católicos. Foi ali que conheci o Jota Cabral, que viria a ser primeiro diretor anos depois, quando me mudei para Fortaleza, e meus primeiros ídolos. Charlene Girão, que fazia a Madalena em ‘O Mártir do Calvário’, uma figura histórica do teatro cearense, ainda hoje é minha grande diva”, destaca Marcelo Costa.

Já deixando as calças curtas, o futuro ator, autor e diretor mudara de cenário. “Fortaleza nunca foi uma cidade estranha para mim. Minha família vinha sempre aqui. Isso, talvez tenha contribuído para aumentar a minha vontade de sair de Redenção. É como se o que eu queria para minha vida não estivesse, não coubesse, ali”, observa. Assim, Marcelo Costa fez do convívio diário com Fortaleza o meio para se aprofundar no fazer teatral. Primeiro, aproveitando as proximidades de sua nova morada — a referencial Rua Barão de Aratanha, 162 — conquistou uma vaguinha na trupe do veterano Jota Cabral. “Um homem analfabeto, sem nenhuma instrução formal, mas absolutamente genial”, lembra seu eterno pupilo. Dali em diante, o menino nunca mais parara. “Minha vida só adquire importância com o teatro. Eu nasci quando estreei como ator”, fecha questão. Quer no palco, ou desejando ocupá-lo, foi renascendo a cada montagem. É fato: no teatro, a infância percorre a vida inteira.

MAGELA LIMA
Repórter

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