LANÇAMENTO

Experimentação na música negra

Com sonoridade que transita entre o urbano e a tradição, Dani Nega e Craca entregam álbum rico e de resistência

00:00 · 11.07.2018 por Paloma Franca Amorim - Folhapress
Dani Nega e Craca
Dani Nega e Craca: toadas rítmicas da cultura popular e arranjos eletrônicos ( Foto: Nadja Kouchi )

Na faixa "Casa de James" do disco "O Desmanche", mais recente produção da dupla Dani Nega e Craca, fala-se em um espaço onde se revelaram os primeiros passos pela música de maneira comunitária. Na canção (com participação de Graça Cunha e Nanny Soul), propõe-se o despertar de uma memória afetiva de vivências que estabelecem os referenciais primeiros da relação entre música e identidade, música e resistência, música e militância e, finalmente, música e saudade.

A faixa seria o território de aprendizado da narradora que se desloca ao longo das nove canções do álbum, representada na voz da cantora, atriz e compositora Dani Nega.

"O Desmanche", assim, é apresentado sob esse diapasão da memória da cultura negra em trânsito entre centro e periferia, embrião de expressões estéticas que permeiam o imaginário paulistano. A proposta convoca ao resgate de narrativas estéticas urbanas e rurais negras. "Boi Navegador" tem o coro de Martinha Soares, Naloana Lima e Naruna Costa, integrantes das Clarianas, grupo paulistano que investiga sonoridades populares brasileiras.

Colaborações

Outras parcerias importantes compõem "O Desmanche". Em "Peito Meu", Luedji Luna faz um duo com Dani Nega, criando um bonito contraste entre seu timbre agudo melodioso e o rap de Nega. Em "Saravá Xangô", é a vez de Juçara Marçal e Sandra X. A composição envolve uma sobreposição de texturas percussivas africanas e efeitos eletrônicos.

A trajetória memorial de "O Desmanche" abrange argumentos poéticos e políticos, na medida em que se manifesta enquanto força musical antirracista pelo entrelaçamento do lirismo, evocado em muitas faixas pelas toadas rítmicas da cultura popular nordestina, nortista e afro- religiosa, em uma abordagem eletrônica demarcada sobretudo pelos beats do DJ Craca.

O disco parece apresentar a celebração do ato experimental na música negra que, constituída por tantas influências, cria espaços de metáforas potentes sobre a complexa e diversa negritude social brasileira.

 

DISCO Dani Nega e Craca

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