Homenagem

Eterno trovador

02:28 · 21.11.2011
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O sambista carioca Nélson Cavaquinho completou 100 anos no último mês de outubro. O compositor que cantava as tragédias cotidianas e o efêmero da vida nos deixou um belo e importante legado

Numa triste sexta-feira, dia 18 de fevereiro de 1986, pouco depois de ver sua escola de samba do coração, a Mangueira, vencer o carnaval daquele ano, Nélson Cavaquinho partia com seu lirismo rouco de tantas madrugadas. Era chegado o momento de aflorar seu canto por outras paragens.

Poeta da vida, homem fiel aos seus sentimentos e à sua gente simples dos morros cariocas, Nélson Cavaquinho, se vivo, teria completado um século de existência no último dia 29. Ele conseguia unir organicamente, num mesmo corpo, música e poesia.

Apelido e parcerias

Um encontro aninhado pela inspiração nos acontecimentos diários, vistos pelo olhar melancólico de alguém que seguia botequins afora sua sina de trovador andarilho. Fazendo ressoar canções que falavam de morte, dor, tristeza e destino, para celebrar a beleza da vida.

Nascido na rua Mariz e Barros, mas criado no bairro da Lapa (RJ), Nélson e a música sempre foram velhos amigos. As influências vieram do pai, tocador de tuba da Polícia Militar, de um tio violonista e das noites enluaradas de cantoria com os amigos boêmios.

Segundo o jornalista e pesquisador da Música Popular Brasileira (MPB), José Ramos Tinhorão, a razão do apelido "Cavaquinho" é porque, no início da década de 1920, o menino Nélson, tendo fabricado com as próprias mãos um cavaquinho de brinquedo, com madeira de caixas de charutos e cordas de barbante, encantou-se de tal maneira pelos sons fingidos que lhe soavam na imaginação, que, tempos depois, passaria ao cavaquinho de verdade.

"Seria ligado ao cavaquinho e, portanto, fazendo jus ao apelido, que o frequentador de rodas de choro Nélson Antônio da Silva continuaria até meados da década de 30, quando a nova condição de cavalariano da Polícia Militar (o compositor casou e seu pai lhe arrumou esse emprego), em rondas pela cidade, levou-o a tomar conhecimento do reduto de samba da Mangueira", destaca Tinhorão.

Lá o sambista descobriu um mundo de possibilidades para seu espírito livre e criador. Ele conheceu músicos (alguns futuros parceiros) de grande importância, como Cartola, Zé da Zilda e Carlos Cachaça. Foi com este, aliás, que compôs seu primeiro grande samba, "Entre a Cruz e a Espada": "não sei o que faço/ Na cruz eu vejo a imagem de Nosso Senhor/ E na espada eu vejo a tua imagem/ Quero disputar teu amor/ Mas me falta coragem".

Outro grande parceiro de Cavaquinho foi o compositor Guilherme de Brito. Esse encontro foi fundamental para a obra dos dois e iniciou uma amizade profunda. A parceria fez com que os sambas de Nélson cada vez mais falassem de seus assuntos preferidos: mulheres, flores e morte. Rendendo-nos clássicos como "A Flor e o Espinho" ("tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor"); e "Quando eu me chamar saudade" ("se alguém quiser fazer por mim/ Que faça agora/ Me dê as flores em vida/ O carinho, a mão amiga").

Reconhecimento

Na década de 1950, o trabalho da dupla começou a ser gravado com mais intensidade, mas ainda não era o sucesso. O reconhecimento viria somente nos anos 1960 e 1970. Em 1965, Nara Leão gravou "Pranto de Poeta", que rendeu a Cavaquinho convites para tocar em diversos shows. Sua fama, então, ultrapassou as fronteiras da noite carioca. O sambista também teve várias músicas suas gravadas por outros intérpretes de sucesso: Paulinho da Viola ("Duas Horas da Manhã), Chico Buarque ("Cuidado com a Outra"), Clara Nunes ("Minha festa" e "Palhaço"), além de Beth Carvalho, Elis Regina e Elizeth Cardoso, entre outros.

Na esteira dessa valorização, o sambista gravou na década de 70 três LPs, incluindo o de depoimento, além de participar de mais três dedicados à sua obra. Já no cinema, ele atuou em alguns filmes, onde sempre aparecia num bar, com o violão, bebendo e cantando: seu próprio papel na vida. Foi assim nos longas "O Casal", dirigido por Daniel Filho em 1975, e "Muito Prazer", de David Neves, em 1979. Mas seu grande momento foi o curta "Nelson Cavaquinho", que Leon Hirszman filmou em 1970, com Nelson circulando com os amigos pela Mangueira e "batendo samba", como ele dizia.

A voz negra, rouca e ácida. O toque rústico do violão. As cordas graves conduzindo a harmonia das melodias chorosas de contornos incomuns. O velho hábito de tocar seu violão na vertical, que o levava a encostar o rosto apaixonadamente no instrumento. As imagens e resoluções poéticas insólitas. Todas essas características se combinam na produção de Nelson Cavaquinho, compondo um todo indissociável. Conferindo a esse eterno trovador lugar especial entre os artistas mais importantes da música brasileira.

Discografia

1970- Depoimento do Poeta (Discos Castelinho)

1972- Nelson Cavaquinho - série documento (RCA Victor)

1973- Nelson Cavaquinho (Odeon)

1985- As Flores em Vida (Gravadora Eldorado)

ANA CECÍLIA SOARES
REPÓRTER

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