GERARDO MELLO MOURÃO

“Estava picado pela poesia”

01:12 · 12.03.2007
O poeta cearense Gerardo Mello Mourão: candidatura ao Prêmio Nobel e desprezo pela cultura literária brasileira de 11 anos atrás
O poeta cearense Gerardo Mello Mourão: candidatura ao Prêmio Nobel e desprezo pela cultura literária brasileira de 11 anos atrás ( Adilson Vasconcelos )

A morte do poeta, escritor, jornalista e ex-deputado federal cearense Gerardo Mello Mourão, aos 90 anos, na última sexta-feira, deixa um vácuo para a literatura brasileira. Nesta edição, em homenagem ao autor de ´A Invenção do Mar´ e ´O Valete de Espadas´, republicamos uma entrevista concedida em 24 de outubro de 1996, por ocasião de sua indicação ao Troféu Sereia de Ouro, do Sistema Verdes Mares. Ainda nesta edição, um artigo do advogado e escritor José Luís Lira, autor da biografia de Gerardo Mello Mourão, a ser lançada dia 26 de abril, no Centro Cultural Oboé

O senhor nasceu em Ipueiras. Que recordações guarda de sua infância?

Nasci em Ipueiras, no pé da serra da Ibiapaba. Creio que a memória da infância é a companhia mais assídua que o ser humano carrega consigo ao longo da vida. Como Rilke, creio que ninguém se despede para sempre da própria infância. Nascer e passar a primeira infância numa pequena cidade de qualqer estado do Nordeste, é um prêmio para o resto da vida. E ter nascido em Ipueiras, é um privilégio. Pude começar ali a navegação da vida e a descoberta do mundo, marcado por uma identidade singular. Ipueiras era também um núcleo vivo de minha própria vida familiar, da história de duas famílias sertanejas que, a seu tempo, dominaram toda a serra da Ibiapaba: os Mellos e os Mourões. Formaram, desde sua chegada ao Ceará, um clã parental, que dura até hoje, inserido desde o século XVII, num tronco familiar comum, com os Feitosas, os Correia Lima, os Araújos, os Albuquerques, os Veras, os Ribeiros, os Barros, os Lopes, os Teixeiras, os Sampaios. Gente de Crateús, Nova Russas, Ipu, Tamboril, Campo Grande - hoje Guaraciaba - os Martins Chaves, os Galvões, e assim por diante. Os Mellos eram, de início, a família mais rica da serra e havia trazido à colônia fumaças da mais antiga aristocracia portuguesa. Casados entre si, Mellos e Mourões eram uma família só, viviam em armas, faziam e executavam as leis, até que o infame Oyenhausen, que a insensatez do Imperador fizera Visconde de Aracati e governador do Ceará, moveu contra eles uma guerra suja, tentando exterminá-los. Depois, o coronel José de Barros Mello, chamado “O Cascavel”, quatro vezes meu tataravô, casado com sua prima carnal, entrou em luta com o cunhado e também primo carnal, ao “valoroso” Alexandre Mourão, como o chama Gustavo Barroso. Foi uma guerra fratricida de barões da Renascença cabocla, com lances no Ceará, no Piauí, no Maranhão, na Paraíba e em Pernambuco, lembrada por nossos historiadores. Para honra nossa, a guerra desses antepassados não deitou raízes entre seus descendentes, e eu mesmo juntei ao meu os dois sobrenomes, para simbolizar a unidade de uma das mais belas histórias da fundação familiar de nossa terra. Também poderia chamar-me Barros Mello ou Ribeiro Mello, como um de mus avós, ou Mello Sampaio, como outro avô, que era sobrinho de nosso General Sampaio.

Adolescente, o senhor mudou para Minas, onde estudou em um seminário. Como processou-se a mudança? O senhor pensou mesmo em seguir a carreira religiosa? E, depois, o que o fez mudar de idéia?

Não adolescente, mas menino ainda, com 11 anos, entrei no seminário holandês dos redentoristas, em Congonhas do Campo. Aos 17 anos, tomei o hábito dos Padres de Santo Afonso, no Convento da Glória, em Juiz de Fora. Eu queria ser santo. Ainda hoje, acho, como Léon Bloy, que a única desgraça do homem sobre a terra é não ser santo. Faltou-me o heroísmo. O sacerdócio e, ainda mais, a vida monástica, exigem um heroísmo de que não fui capaz. Melhor ter saído em tempo, do que acabar amancebado como o frade apóstata Leonardo Boff e os pobres padres casados que andam por aí, casados sempre com mulheres feias e tristes.

A paixão pela literatura e o jornalismo começou depois de sua saída do seminário...

Ao sair do seminário, fui viver com uns tios no Rio. Queriam que eu fosse oficial do Exército, e um primo, depois general, documentou minhas relações de parentesco com o general Sampaio, para certas facilidades, possíveis à época, em meu ingresso na Escola Militar. Mas a vida militar é quase tão dura como a vida de um monge. A idéia de me fazer general, como a idéia de me fazer papa, não prosperou. Eu estava picado pela literatura, pela poesia, opção, de resto, mais exigente que qualquer outra. Na contramão de seus desejos, deixei a casa dos tios, e pobre, seco e duro como um cactus, não pedi nada a ninguém. Fui procurar trabalho para sobreviver. Fui professor em vários colégios do Rio. Professor de línguas e de coisas que eu sabia. E até de coisas que eu não sabia bem. Tristão de Athayde me levou a entrar para o integralismo.

O senhor abraçou o integralismo como muitos intelectuais da época. Que análise o senhor faz daquele contexto histórico?

Minha geração foi uma geração dramática no Brasil. Dentro dela, pertenço àquele grupo que Mário Vieira de Melo, talvez o maior mestre de filosofia vivo neste País, chama, em seu livro mais recente, de “geração integralista” - na qual ele mesmo se inclui - para identificar algumas das mais importantes figuras da vida cultural brasileira dos anos 30. Era quase um adolescente, tinha 18 anos, paguei muito caro por esta opção, mas dela não me arrependo, como fez posteriormente nosso dom Hélder Câmara, dizendo candidamente que foi um erro da juventude. Não tenho de que me arrepender. Ao contrário: participei do mais fascinante grupo da inteligência do País. Não me arrependo da defesa dos valores morais e culturais que defendemos e que continuo a defender hoje, em nome da liberdade e da cultura, contra a ignorância e a imbecilidade dos carreirismos ideológicos. De resto, as ideologias, inclusive a ideologia marxista, estão mortas no mundo inteiro e só no Brasil uns intelectuais tolos ou carreiristas insistem em carregar nas costas, como o Zaratustra de Nietzsche, o cadáver insepulto do besteirol ideológico. Foi primeiro a militância política, depois o compromisso com a cultura, que me levaram à aventura do jornalismo.

O senhor foi também deputado federal por Alagoas, mas parece que não tomou gosto pela carreira política...

É. Fui deputado federal por Alagoas. Creio que até um bom deputado. Mas não creio mais na ação política de artistas e escritores. Numa visita que me fez na prisão, certa vez, com meu fraterno amigo o líder negro Abdias Nascimento, o grande e trágico romancista francês Albert Camus que me dizia: - “não se meta em atividades políticas. Nosso papel, como escritores e artistas, não é fazer a história. É sofrer a história”. Prefiro, assim, ficar sofrendo a história como testemunha. Os testemunhos do sofrimento são sempre fecundos. Mas o tempo de deputado federal foi importante para mim: conheci a bela terra das Alagoas de meu compadre Jarmelino e desse homem de bronze que se chamou Luís Oiticica. Conheci os “viventes” das Alagoas, como os chamava Graciliano Ramos, e este conhecimento meu deu uma consciência e uma ternura maior por nosso País do Nordeste.

Quem foi mais violento com a oposição: o Estado Novo de Getúlio ou a ditadura militar?

A ditadura do Estado Novo foi mais monstruosa que a ditadura militar. A ditadura militar praticou violência contra pessoas. De certo modo, abertamente. A ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas foi medular, básica e científica. Violou todos os conceitos fundamentais do Direito, deu um golpe de estado pelo rádio, fechou o Congresso e outorgou uma Constituição, a chamada “polaca”. Na ditadura militar, a violência contra a pessoa humana tinha, geralmente, autores conhecidos. Na ditadura getulista, a perversidade era refinada. Eu, por exemplo, fui condenado a 30 anos de prisão, não por qualquer lei ou código, mas por um decreto do Ditador. Como eu, algumas centenas de brasileiros. Creio que não há, na história da humanidade, exemplo de pessoas condenadas por dentro. Essas mal-aventuranças estão incorporadas a certa mitologia que cerca de luzes e sombras lendárias minha história pessoal. Ainda agora, o poeta Jesus Moreno, na Espanha, ao apresentar um texto meu numa grande revista cultural, e ao situar minha obra, num excesso de entusiasmo, na mesma linhagem da obra de Dante e Ezra Pound, dizia: - como o Dante, este poeta brasileiro sofreu, por motivos políticos, o cárcere, as perseguições e o exílio.

Hoje vivemos sobre a égide da tão propalada globalização. Cientistas sociais acham que a globalização colocará fim aos Estados nacionais. O senhor acredita nessa premissa?

O tema da globalização, nos termos em que está posto, é um tema de política econômica. Como tal, não me interessa. Os economistas políticos não fazem uma nação e uma história. Quem é que se lembra do nome do ministro da Fazenda ou do governador de Yorkshire no tempo de Shakespeare? Até mesmo para datas recentes: quem sabe aí quem era ministro dos Estados Unidos ou governador do Texas e do Arizona quando Ezra Pound escrevia os “Cantos Pisanos”?

Mas assistimos, porém, a uma aguda crise no capitalismo, principalmente nos países periféricos como o Brasil. O senhor é otimista ou pessimista com relação ao nosso futuro?

Não sou otimista nem pessimista. Creio no Brasil, nas virtualidades profundas dete País que um dia mandará para o lixo da história a impostura dos tecnocratas, dos economistas, das falsas lideranças administrativas e políticas, para incorporar-se à vocação do humanismo e do heroísmo que fundaram esta Nação. Não podemos tomar consciência da Nação e de sua grandeza, enquanto não se criar aqui uma Paidéia, uma educação para o desenvolvimento do homem, sem a qual não pode haver desenvolvimento da Pólis.

E o escritor Gerardo Mello Mourão. “O Valete de Espada”, por exemplo, foi qualificado de “demoníaco” por Tristão de Athayde. O senhor escreveu também a trilogia política “I Paianers” - que inclui “O País dos Mourões”, “Peripécia de Gerardo” e “Rastro de Apolo”. Que balanço o senhor faz de sua criação literária?

Não ouso fazer o balanço de minha obra. Tenho apenas aquela certeza humilde e soberba de Keats: “I think I shall be among the english poets after my death”. “Acho que meu nome estará entre os poetas de meu tempo, depois de minha morte”.

De uma maneira geral, como o senhor analisa o atual panorama cultural brasileiro?

O panorama da literatura brasileira? Não, não vou analisar. Mas de um modo geral é pobre, chato, manipulado, uma ruminação de coisas já ditas. É pobre o chamado panorama cultural. Tão pobre que até o Fernando Henrique já disse que o Caetano Veloso é o símbolo da cultura brasileira. Por que não a Dercy Gonçalves, o “romancista” Chico Buarque, o Tiririca e outros produtos similares da imbecilidade geral?

O senhor já recebeu inúmeros prêmios, inclusive foi indicato para o Nobel de Literatura. Agora, como se sente ao receber a “Sereia de Ouro”, um troféu outorgado por seus conterrâneos?

Fui indicado para o Prêmio Nobel em moção gerada na Universidade do Estado de Nova York, endossada pela Universidade de Estocolmo, por iniciativa de seu Instituto da América Latina e por várias outras universidades, inclusive o que me enternece particularmente, a Universidade Federal do Ceará, onde por proposta do professor Teoberto Landim, recebi o título de “Doutor Honoris Causa” com a gloriosa bonificação de ser saudado por um discurso antológico do poeta Artur Eduardo Benevides. Receber grandes prêmios internacionais não me importa muito. O que me enternece mesmo é receber a láurea da Sereia de Ouro no Ceará, do Sistema Verdes Mares, das mãos de Yolanda Queiroz, como um aceno que me faz da eternidade o grande e saudoso Edson Queiroz. Esta sim, é a glória que fica, eleva, honra e consola, como queria Machado de Assis,

JOSÉ ANDERSON SANDES
Editor

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