HISTÓRIA

Especulações em torno das horas obscuras

00:23 · 06.07.2013
A reconstrução da História históricos tem se constituído uma das marcas da literatura pós-moderna

Manuel Bandeira disse em poesia que duas vezes se morre: primeiramente, na carne; depois, no nome. Tal, evidentemente, não acontece com os que, de maneira positiva ou terrivelmente negativa, por caminhos certos ou tortos, inscreveram, de modo definitivo, o seu nome na História. Por conta disso, se há Copérnico, Darwin e Freud, não deixam, por outro lado, de haver também composições como Hitler e Mussolini. Este último, deposto aos 25 de julho de 1943, empós um longo tempo encarnando a imagem do poder absoluto na Itália, sofreu a bancarrota definitiva quando, aos 28 de abril de 1945, foi sumariamente julgado pelos dirigentes do Movimento Insurrecional Milanês e condenado ao fuzilamento.

Detalhe da capa do livro "Os Últimos Dias de Mussolini", de Pierre Milza. O autor enumera várias versões para as últimas 72 horas da vida do ditador italiano tão somente para questioná-las

Neste livro, o autor reconstrói os dias que antecederam à "eliminação do Duce, de sua amante, Clara Petacci, e de cerca de quinze dirigentes da República de Salô", ressaltando que, a rigor, o fuzilamento dos protagonistas representa tão somente o clímax de uma tragédia que envolveria o povo italiano: a guerra civil.

O objetivo

O autor, no prólogo deste seu livro, deixa claro ao leitor de que, em verdade, o seu intento não é o de, por um viés ou outro, trazer mais versões às versões que, de há muito, especulam os últimos dias de tantos ditadores. Caso não consiga - o que deixa bem explícito - as respostas definitivas às questões levantadas pela execução do Duce, considera-se satisfeito com esta sua empreitada se conseguir expor, com detalhes, os elementos que compuseram o dossiê. Argumenta que a morte de Mussolini "constitui, a um só tempo, um confronto entre os dirigentes ocidentais e os soviéticos e também entre britânicos e americanos".

Elementos-chave

Como consequência disso, alimenta, ainda mais, o embate entre os pensamentos contrastantes por que se orientavam à época os italianos: fascistas versus antifascistas; comunistas e capitalistas. Tudo gira em torno dos vasos comunicantes que envolvem a morte do casal que encarnava o poder e a de tantas outras pessoas: "Tanto mais que a imagem do casal pendurado de cabeça para baixo em um posto de gasolina remete, na memória coletiva, ao espetáculo dos milhares de militantes fascistas - ou assim considerados - que tiveram o mesmo destino nas mãos das multidões logo após a Libertação". A pergunta incisiva é ser tudo poderia desembocar em outro destino, pois, consoante o autor, Mussolini por pouco não escapou de seus "protetores" alemães, e depois aos que o perseguiam, vindos de Milão logo que souberam de sua detenção, para eliminá-lo.

Indagações

O historiador enumera várias versões para as últimas 72 horas da vida do ditador italiano tão somente para questioná-las, em indagações como: o que, a rigor, ocorreu nos últimos três dias de fuga de Mussolini?; como, verdadeiramente, deu-se a sua detenção?; o casal foi morto concomitantemente ou houve intervalos de tempo?; qual a participação do serviço secreto dos americanos e dos britânicos nesse episódio?; onde foi parar a fortuna que o casal e seus parentes carregavam na bagagem?

Considerações finais

Em sua investigação, o autor se serve também de fontes e de depoimentos contraditórios. O que deveras o move é o desejo de lançar luzes sobre um acontecimento que não se concentra apenas na História do povo italiano, uma vez que implicou desdobramentos indeléveis, em especial no campo das ideologias, entre os quais a Guerra Fria.

A leitura deste livro faz ainda com que, hoje, a contemplação do passado sirva para profundas reflexões acerca dos rumos que a humanidade de quando em vez escolhe para si. A História nos revela que a presença de ditadores, ao longo dos tempos e das diversas sociedades, é sempre protagonista de momentos dolorosos, pois, indelevelmente, na ânsia do poder, condena milhares de pessoas a longos sofrimentos e perdas terríveis.

LIVRO

Os Últimos Dias de Mussolini
Pierre Milza
ZAHAR
2013, 256 Páginas
R$ 49,90

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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