LITERATURA ESPANHOLA

Escrever é preciso, viver...

01:26 · 04.07.2009
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Livro de contos de Enrique Vila-Matas traz o escritor espanhol trabalhando em uma de suas obsessões literárias: a negação

O espanhol Enrique Vila-Matas é um escritor obsessivo -seus temas são poucos e recorrentes. A Escrita conjugada à Vida é, talvez, o mais famoso deles. Nesta intercessão, ambientou “Bartleby e Companhia”, “O mal de Montano” e “Paris não tem fim” (todos publicados no Brasil).

Por estas obras, perpassa a Negação, o último dos grandes temas vilamatianos. É a ele que o autor dedica todo o livro “Suicídios exemplares” (1991). Lançado em 1991, é o segundo de seus três volumes de contos (os outros são “Nunca voy al cine”, de 1982; e “Hijos sin hijos”, de 1993), e o primeiro a ser lançado no Brasil. Aqui, Vila-Matas era conhecido apenas como romancista, já que faltam traduções de suas narrativas curtas e ensaios literários.

Diferente do que havia feito em “Bartleby e Companhia”, no qual Vila-Matas tensionava três temas - escrita, vida e negação -, neste ele se concentra apenas nos dois últimos. Ao suspender sua obsessão pelo papel do escritor, que apenas sorrateiramente invade um conto ou outro, o autor se livra de rótulo que pesa sobre seu nome. Vila-Matas costuma ser descrito como um escritor para escritores, tamanha a importância das referências a outras obras em seus textos. O que faz de “Suicídios exemplares” um bom cartão de visitas do autor.

Antes da tormenta

“Suicídios exemplares” reúne 12 textos: 11 são claramente contos, enquanto o outro é de gênero indefinido, pode ser um narrativa ensaística, um documento falso, ao gosto do escritor, ou uma introdução ao que está por vir. A dúvida cresce conforme a leitura avança, já que o suicídio nem sempre se concretiza nas histórias de Enrique Vila-Matas, ainda que esteja sempre presente, como tentação ou opção.

O artifício de Vila-Matas permite ao autor avançar no reconhecimento do território inóspito da morte voluntária. Se sem obrigar a matar seus personagens, o escritor mostra que este tabu não se reduz à morte do suicida, mas envolve a vida que este leva(va), sua relação com o mundo e mesmo o impacto que seu fim causa naqueles que o conheciam.

Neste sentido, “A noite da íris negra” é a narrativa mais completa do volume. Nela, Enrique Vila-Matas narra a viagem de um casal a uma ilhota, com um longo histórico de suicídios. Vila-Matas investiga o antes, o durante e o depois; o interior e o exterior; as razões e tentações, numa narrativa que não ultrapassa 30 páginas.

Vila-Matas escreve uma obra existencial. Mas de um existencialismo à Albert Camus, que não submete o enredo ou o estilo do escritor. Preciosista, ele se desvia das frases de efeito. Ou melhor, as transforma. Quando uma frase causa impacto, o faz por sua beleza. “Morreu com dignidade. Sua sombra voa” é o lema de uma sociedade de suicidas. O autor, no entanto, prefere pegar o leitor no texto, como o ato brusco e inesperado de quem salta, daqui para o desconhecido.

CONTOS

Suicídios Exemplares


R$ 45
208 PÁGINAS
2009
COSAC NAIFY

Enrique Vila-Matas
Tradução: Carla Branco

Fase mais experimental em edição brasileira

O Vila-Matas publicado no Brasil é o tal “renovador do romance espanhol”, de que fala a crítica européia. O catalão entrou no mundo das letras em 1973, com a novela “Mujer en el espejo contemplando el paisaje”. De lá para cá, publicou outros 27 livros. Destes, apenas cinco chegaram ao País.

Aqui, a Cosac Naify privilegiou sua prosa longa dos últimos 10 anos. À exceção da recém-lançada coletânea de contos “Suicídios exemplares”, a editora paulista preferiu trabalhar com os romances do autor. Se é que podemos chamar de romances seus quatro primeiros livros aqui lançados: “A viagem vertical”, “Bartleby e Companhia”, “O mal de Montano” e “Paris não tem fim”.

Neles, Vila-Matas testa os limites da metalinguagem no texto literário. É sabido que uma das marcas do modernismo é exatamente a rescritura (vide o “Ulisses” de James Joyce em relação à obra de Homero). Em “Introdução à Semanálise”, a semióloga Julia Kristeva define o plágio como o caso mais extremo do exercício intertextual. Vila-Matas não chega até lá, mas se apropria de personagens, de conceitos, da biografia de seus autores favoritos, de suas próprias memórias. O resultado disso é o texto indefinível, meio romance, meio ensaio literário. Os quatro romances do espanhol já editados no Brasil mostram a intensificação de seu envolvimento com este projeto estético.

Em “A viagem vertical”, o escritor ainda está muito próximo das expressões tradicionais do romance - invertendo a ordem do romance de formação, já que seu personagem central busca rescrever sua biografia. “O mal de Montano” é narrado por um crítico literário que parte em socorro do filho, um escritor com bloqueio criativo, causado pelas várias vozes de outros autores que despontam em sua mente, no momento da criação literária.

“Bartleby e companhia” dá um passo à frente, chegando ao limite do romance. Nele, o narrador fala da síndrome de Bartleby, baseado no personagem do conto homônimo Herman Melville. Ele escreve um ensaio fragmentário sobre este mal que faz os autores se desviarem da escrita. “Paris não tem fim” tem o mesmo formato, do romance-ensaio. No entanto, seu narrador se identifica com o próprio Vila-Matas, partilhando sua biografia e os títulos que publicou. (DR)

SUCESSO

- Cosac Naify, 2004, 256 páginas, R$ 45. Tradução: Laura Janina Hosiasson

- Cosac Naify, 2005, 192 páginas, R$ 45. Tradução: Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista

- Cosac Naify, 2005, 328 páginas, R$ 49. Tradução: Celso Paciornik

- Cosac Naify, 2007, 348 páginas, R$ 45. Tradução: Joca Reiners Terron

DELLANO RIOS
Repórter

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