Perfil

Entusiasta da escuta

Roberta Martinelli (SP) é uma das curadoras do Porto Dragão Sessions, que segue com as inscrições abertas

A jornalista Roberta Martinelli: processo com bandas cearenses vai até próximo dia 6
00:00 · 24.01.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

A jornalista Roberta Martinelli (36) nem sonhava em enveredar pelo jornalismo musical, enquanto se apaixonava pelo teatro. Engajada no grupo de artes cênicas Guerrilheiros Urbanos, no começo dos anos 2000, ela conta que se tornou "outra pessoa" depois da experiência teatral.

"Era um grupo de teatro subversivo. Mas depois, quando conheci o rádio, me apaixonei muito também. Comecei a ouvir discos novos, virou uma paixão mesmo. O teatro, a arte, mudaram minha vida. Há um poder transformador na arte, principalmente na música, que é muito forte. E eu quis mostrar isso para o público", relata Roberta, à frente do programa Cultura Livre, transmitido pela Rádio Cultura Brasil e TV Cultura há nove anos. A edição dos programas da TV é veiculada, ainda, pelo YouTube.

De passagem pela capital cearense, ela, o experiente produtor artístico Pena Schmidt e o jornalista Alexandre Matias trabalham na curadoria musical do projeto Porto Dragão Sessions.

A iniciativa vai selecionar 10 grupos e/ou artistas solo cearenses, a fim de investir na produção e distribuição digital do conteúdo musical dos selecionados. As inscrições são gratuitas e estão abertas até esta sexta (26), através do site oficial do Centro Dragão do Mar (dragaodomar.Org.Br).

A jornalista Fabiana Batistella, o empresário Artur Fritzgibbon e o produtor musical Daniel Ganjaman completam o time de curadores do projeto. Em entrevista por telefone, Roberta Martinelli, após conduzir palestra gratuita, ao lado de Pena e Alexandre Matias, no auditório do Dragão do Mar na última segunda (22), situa em que pé anda o processo de curadoria.

Segundo ela, a partir desta segunda, 22, "a ideia é discutir quais seriam os critérios (de seleção dos artistas), porque vamos fazer isso depois da sexta, 26 (com as inscrições encerradas). Daí a gente recebe os arquivos, e cada um faz a sua seleção. Então marcaremos um encontro em São Paulo, para decidir, e mandaremos pra cá (Fortaleza). Temos entre 26 de janeiro e 6 de fevereiro (para concluir tudo)", observa a curadora.

Perfil

Conhecida pela maneira gentil como trata os músicos que vão ao Cultura Livre, Roberta Martinelli destoa do perfil clássico do jornalista da área (normalmente mais sisudo). À frente da curadoria do programa, além da apresentação, ela explica como é seu critério de escolha para divulgar artistas novos e veteranos.

"Não é que eu ame muito todas as bandas, mas penso em mostrar algo importante, independente do meu gosto. Sempre tenho esse recorte. Recentemente, discuti uma crítica ruim que dedicou uma página inteira (de jornal) ao primeiro disco de uma banda. Pra que tanto espaço pra falar de algo ruim? O recorte que faço é um pouco por isso, (sobre) as (bandas) que não quero, fico quietinha (risos)", revela.

A jornalista justifica que a postura se ampara, também, na situação da cultura no País. Ela pondera como o segmento foi e ainda é marginalizado pelo poder público (vide a escassez de recursos destinados ao fomento e circulação artística).

Produzindo para a TV Cultura, mesma emissora que acolheu o tradicional programa Ensaio, apresentado pelo jornalista Fernando Faro (1927-2016), Roberta Martinelli conta que o Cultura Livre não é inspirado diretamente na experiência do colega. No entanto, além de ambos servirem como um documento de memória da MPB, ela recorda a amizade com o apresentador e se revela espectadora do Ensaio.

"Eu gostava muito, tinha em DVD alguns Ensaios, via muito aquele com a Gal (Costa). Comecei numa rádio AM, antes da TV. Era um esquema sem audiência, que ninguém ouvia. E depois fiz vídeo, e fui pra TV. Nesse tempo, me aproximei muito do Faro, ele assistiu à gravação (do Cultura Livre) várias vezes, queria ver a Wanderlea quando ela foi. E me vesti de palhaça pra ele no hospital (risos)", lembra a jornalista.

Experiência

Aos 36 anos de idade, Roberta Martinelli chegou a estudar Direito ainda antes de se envolver com o teatro. Uma série de formações ajudou-lhe a arrumar uma vaga de professora de jornalismo cultural em rádio na pós-graduação Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP/SP).

"Lá na FAAP, havia uma situação bem delicada: porque para as pessoas pararem para ouvir algo hoje, sem imagem, é difícil. Dei aula um ano e meio. E agora dou aula de apresentação para a TV, num curso de teatro".

Em novembro passado, ela recebeu o prêmio de melhor jornalista no Women's Music Event Awards, premiação voltada exclusivamente às mulheres. Ela comenta que, apesar do jornalismo cultural lidar com uma matéria sensível e diversa, o ambiente da profissão ainda é muito masculino e machista.

No jornal O Estado de São Paulo, veículo para qual escreve no Caderno 2, Roberta Martinelli conta que há apenas duas mulheres: ela e a jornalista Adriana Del Rey. "É muito difícil. Escrevo para lá há dois anos, e quando entrei, foi muito horrível. Amigos jornalistas diziam 'ah, eu vi seu texto hoje, achei muito histérico', coisas desse tipo. Mesmo nas palestras, o jeito como falam comigo, e com os caras, é diferente", observa.

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