Literatura

Entre o sonho e a vigília

00:00 · 14.07.2018 por Dellano Rios - Editor de Área

Os feitos acadêmicos de Tereza de Castro Callado já contabilizam algumas décadas. Professora de Filosofia na Universidade Estadual do Ceará (Uece), é uma pesquisadora ativa às voltas com questões sobre ética, política e modernidade. Especialista em um dos mais influentes pensadores alemães do século XX, é autora do livro "Walter Benjamin - A experiência da origem" e, desde 2008, edita o periódico acadêmico Cadernos Walter Benjamin.

As referências à sua produções intelectual fazem da leitura "O conto da cidade de cristal" uma espécie de jogo, com pontes entre um universo e outro que, nem sempre, se estendem por onde se espera. Publicado pela Escrituras, de São Paulo, em um pequeno e luxuoso volume de exatas 80 páginas, o conto será lançado neste sábado, 14, às 18h30, na Livraria Leitura, no Shopping Del Paseo. A edição conta um texto introdutório da doutora em literatura Sarah Diva Ipiranga.

Viagem

Talvez o título do livro, "O conto da cidade de cristal", remeta o leitor a universos fantásticos, distantes de nossas referências culturais - algo que se converteu, neste começo de milênio, em um demorado filão comercial na literatura e no cinema.

Não é o caso, ainda que a variável "fantasia" esteja presente no conto. Ao leitor, é oferecido perder-se por searas que não são as da realidade ordinária da vigília. Mas as veredas para as quais a autora convida o leitor estão inegavelmente inscritas em nossas geografias, física e cultural, literária e memorialística.

O ponto de partida da ação é um encontro, dos personagens João e Zequinha. Criados no sertão, com incontáveis dias de meninice partilhados, por vezes tão semelhantes que só o destino parece ter sido capaz de dar a cada um a individualidade. Adultos, os amigos voltam a se reunir, um tendo ficado no sertão (que por suas artes se torna mais verde do a imagem mais evocada daquela paisagem); o outro foi à cidade, descobriu outras vidas e cometeu outras artes.

O caminho familiar dos amigos é uma espécie de antecâmara. Espera o leitor uma aventura por território inusitado. A autora cria mais um daqueles lugares que são, a um só tempo, espaço e experiência.

Há algo das viagens da menina Alice, pelo País das Maravilhas e pelo outro, que se esconde por trás do espelho, dos livros do inglês Lewis Carroll; e mesmo dos contos de terror do galês Arthur Machen (ainda que a prosa de Tereza de Castro Callado não trilhe os caminhos sombrios da ficção).

Quando se adentra um lugar assim, é preciso estar atento às regras que ele impõe. A autora, que vai à frente, certamente está e isso se manifesta nas palavras e frases, que tomam novas formas e combinações e se reinventam. Sarah Diva Ipiranga, em seu texto, lembra de Guimarães Rosa.

O texto permite estas comparações, mas se diferencia em sua errância. Por vezes, lembra um narrativa para crianças; mas fala muito ao adulto. E aqui, parece, entrevemos o fantasma de Walter Benjamin, num famoso ensaio sobre o narrador, sobre as marcas dele que se inscrevem na história. Em sua viagem onírico-desperta pelo sertão, a autora faz o novo no encontro com a tradição.

Mais informações:

Lançamento do livro "O conto da cidade de cristal", de Tereza de Castro Callado.
Sábado, 14, às 18h30, na Livraria Leitura (Shopping Del Paseo - Av. Santos Dumont, 3131, Aldeota).
Contato: (85) 3458.0300

LIVRO

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