MÚSICA

Entre o óbvio e o original

Jonas Sá (RJ) lança seu terceiro álbum, "Puber", e assina a produção do disco ao lado do irmão, Pedro Sá

00:00 · 11.07.2018 por Felipe Gurgel - Repórter
Jonas Sá:
O compositor Jonas Sá: "preciso fazer boa música", diz ele, sobre o ofício Foto: JOrge Bispo

O carioca Jonas Sá se reconhece como um músico que, dentre tantos artistas do cenário da MPB nos anos 2000, criavam com o propósito de fugir do óbvio. Autor dos álbuns "Anormal" (2007, um disco diferente a começar pelo título) e "Blam blam" (2015, indicado a duas categorias do Grammy Latino), Jonas lança seu terceiro disco, "Puber". O novo repertório pende para uma abordagem mais direta e o músico aponta para temas triviais e fatídicos, como as manifestações políticas de 2013 e a experiência da paternidade.

Embora agora invista na simplicidade, Jonas Sá ainda é reconhecido, por parte da crítica que tem comentado o disco, por trazer uma carga de experimentalismo em sua sonoridade.

Em entrevista por telefone, o carioca pondera: "eu não crio pensando em fugir do óbvio tanto mais, mas já fiz muito isso na minha vida. Nos anos 2000, acho que teve uma coisa de todo mundo tentar fugir do óbvio e eu tava junto nisso", identifica. Jonas situa que procurou, depois desse período, abordagens diferentes para criar sonoridades, seja como músico, compositor ou produtor. "E posso também não trazer uma abordagem diferente pela letra, poética, tudo isso. No disco da Ava Rocha que eu tava produzindo ('Ava Patrya Yndia Yracema', 2015), tinha uma vontade de que a faixa hermética não fosse só voz e cordas, por medo justamente de cair no óbvio, ou de competir com coisas nesse formato", exemplifica.

Além do trabalho como músico e produtor, Jonas Sá é compositor que teve parte da obra gravada por medalhões da MPB, como Caetano Veloso e Gal Costa. Portanto, ele identifica uma postura mais saudável, entre o experimentalismo e a simplicidade, que o dispensa de "provar" algo para alguém.

No entanto, ele situa que 'preciso fazer boa música. E tenho uma maneira de escrever menos direta. Eu abuso das metáforas, das figuras de linguagem, gosto disso. É natural pra mim, me sinto mais à vontade. Mas tenho me desafiado a fazer a coisa numa linguagem mais direta", acrescenta.

Coração

Jonas amplia a perspectiva de "Puber". Para além de sua reputação experimental, o carioca observa como o novo álbum "fala com o coração diretamente. É um disco de cantor: não é tão ruidoso, é cheio de beleza. O disco fala de assuntos recorrentes em canções, com a visão de quem tem mais de 30 (anos)', reforça.

O artista brinca que, se o ouvinte já passou dos 30, vai captar bem o espírito do repertório. As letras falam de relacionamentos, filhos, dentre outros temas a respeito desse período da vida.

Paternidade

"Kim", a última faixa, fala de sua primeira e única filha até aqui. Jonas recapitula que, quando a bebê nasceu, ele experimentou a fase de um modo muito sensível, emotivo, e ao mesmo tempo com os pés no chão. "Com muita função e muito pepino pra resolver", diz.

Ele pontua que lidar com a expansão que é ter um filho dentro de um casamento acabou passando, num primeiro momento, sem registro em suas composições. A princípio, escreveu alguns versos aleatórios, mas sentia uma pressão para escrever algo mais bem acabado.

"A Kim é minha primeira filha. Então quando ela veio, realmente me desliguei da necessidade (de escrever a respeito) e vivi a coisa, sabe? Um pouco como o cara que vai viajar e não leva a câmera. Ele simplesmente vive a viagem", compara.

Embora tenha nascido de uma inspiração muito sensível, a música tem um pé na realidade, fala de como a filha parece com a vó de Jonas e sobre o período politicamente conturbado do País, paralelo ao nascimento. "Fiz essa música com todo meu amor, me emocionei quando fiz, quando gravei, e ainda quando escuto e canto ela, me emociono. Pra mim, isso é o que vale, a Kim me emociona mesmo", observa o músico.

Política

Jonas Sá identifica a carga política que há em sua obra. Ele percebe como esse apelo não é tão claro, lembrando como "Blam blam" trata-se de um disco "extremamente político. Embora as pessoas não tenham notado, porque é um disco dançante, fala sobre sexo. Então as pessoas acham que é sobre se divertir, mas é um disco sobre sexo. E isso, em 2015, quando lancei o álbum, o sexo já era um ato político", analisa.

Ele recorda que a capa do segundo disco, ilustrando um corpo feminino e nu, foi questionada em algumas fábricas de discos. Em "Puber", Jonas traz a política de modo mais explícito, e fala de maneira "bem direta. Falo de golpe de estado, uso a palavra 'golpe' e acentuo que há jornais covardes que encobrem isso", sinaliza.

Ele destaca, por exemplo, que a quinta faixa, "Share the Drama", tem um apelo político a partir da questão do machismo. A música, detalha o compositor, é "sobre o mundo masculino, sobre ser homem. Uma autocrítica sobre esse mundo em que eu cresci", situa.

O carioca complementa: "como sempre tive muita dificuldade de me enquadrar nesse mundo, embora tenha gozado e sigo gozando de ser homem num mundo de machos. Então quis escrever sobre minha experiência e poder rir um pouco disso, porque se a gente não conseguir mais rir, vamos ter que chorar (risos)".

Jonas Sá

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.